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Shi Pei Pu: a intrigante saga da cantora chinesa que, na verdade, era homem e espião

Numa Pequim envolta pela melodia das óperas, onde as notas musicais eram poesia e os cantores eram contadores de histórias, nasceu uma trama que transcendeu fronteiras e desafiou convenções sociais. Shi Pei Pu, um exímio cantor chinês, protagonizou uma história digna de uma ópera clássica, entrelaçando sua vida com a do diplomata francês Bernard Boursicot.

Os encontros iniciais

Bernard Boursicot. (Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)Bernard Boursicot. (Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)

Shi Pei Pu, nascido em 1938 na província chinesa de Shandong, destacou-se como cantor de ópera, ganhando reconhecimento local aos 17 anos ao interpretar papéis femininos. Por outro lado, Bernard Boursicot, nascido na França em 1944, buscava relacionamentos heterossexuais ao chegar a Pequim aos 20 anos, após uma juventude marcada por experiências homossexuais em internatos. Em 1964, enquanto trabalhava na embaixada francesa, Bernard conheceu Shi em uma festa de Natal, iniciando uma amizade íntima que se transformaria ao longo dos anos.

O início do relacionamento

Monumento a Liang Zhu. (Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)Monumento a Liang Zhu. (Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)

A mudança na dinâmica do relacionamento ocorreu quando Shi compartilhou a lenda de Liang Zhu, também conhecida como "Os Amantes Borboleta", uma narrativa antiga sobre a estudante Zhu, que se disfarça de menino para frequentar a escola. A história, repleta de simbolismo sobre identidade e sacrifício, refletiu na experiência de Shi que revelou ter vivido como homem devido a um acordo entre sua mãe e a parteira para ocultar sua verdadeira identidade feminina.

Ao acreditar estar diante de uma mulher, Bernard viu Shi sob uma nova perspectiva, permitindo a exploração de uma conexão romântica e íntima entre eles. Shi continuou se vestindo e vivendo publicamente como homem, mantendo sua feminilidade exclusivamente para Bernard.

Uma reviravolta dramática

Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. (Fonte: Getty Images/Reprodução)Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. (Fonte: Getty Images/Reprodução)

A narrativa tomou um novo rumo quando a missão de Bernard chegou ao fim. Pouco antes do francês deixar a China, em 1965, Shi revelou a surpreendente notícia de sua gravidez. A revelação fez Bernard prometer que retornaria, o que ele fez 4 anos depois, quando retornou a Pequim como arquivista da embaixada. Contudo, Bernard enfrentou uma China transformada pela Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, que restringia o contato entre cidadãos chineses e estrangeiros.

Quando eles se reencontraram, Shi compartilhou a história de ter dado à luz um filho meio europeu no verão após sua partida, explicando que, por questões de segurança, enviou o menino para morar com uma família próxima à fronteira com a Rússia. Durante anos, Bernard permaneceu sem conhecer seu suposto filho e arriscando sua segurança para visitar Shi.

A trama de espionagem

Num determinado dia, Kang, um homem suspeito de ser policial, apareceu na casa de Shi durante a visita de Bernard. O francês ofereceu colaboração ao governo chinês em troca da continuidade de seu relacionamento com Shi. Assim começou a jornada de Bernard como espião para o governo chinês. Ele passou a fornecer regularmente relatórios das embaixadas francesas em Moscou e Washington às autoridades chinesas, garantindo a permissão para manter seu relacionamento.

Em 1973, após anos de espera, Bernard finalmente conheceu seu filho, Shi Du Du. No entanto, quando o visto de Bernard expirou, ele foi obrigado a retornar à França, abandonando sua carreira diplomática. Alguns anos depois, Bernard, agora envolvido com Thierry, seu novo parceiro, levou Shi e seu filho para morarem com eles em Paris.

O engano desmascarado

No final de 1982, durante uma análise de rotina nos registros dos diplomatas, o governo francês descobriu a relação entre Bernard Boursicot, identificado como "um funcionário público do Ministério das Relações Exteriores destacado no exterior", e um cidadão chinês, mais tarde reconhecido como Shi Pei Pu, que residia no endereço de Bernard.

Como resultado dessa investigação, em 1983 o governo francês prendeu Bernard e Shi por espionagem, revelando as camadas de engano que envolviam o relacionamento. A verdade sobre Shi veio à tona durante o julgamento, destacando sua habilidade extraordinária de convencer Bernard de que era uma mulher por quase duas décadas. A verdadeira origem de Shi Du Du, adotado por Shi aos 4 anos, também foi revelada como parte da trama de mentiras.

Essa trama complexa desafia as normas sociais e revela as nuances intrincadas das relações humanas em face de circunstâncias extraordinárias. Shi Pei Pu, um personagem que transcende a ficção, continua a encantar e intrigar, mesmo após sua partida em 2009. A lenda de Liang Zhu compartilhada por Shi, serviu como uma metáfora da transformação de suas próprias identidades. Zhu, a estudante chinesa que se disfarça de homem na história, ecoa a própria metamorfose de Shi para convencer Bernard de sua feminilidade.

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