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Qual é a diferença entre canibal e antropófago?

Você já parou para pensar que comer carne humana está entre os fatos mais condenáveis e errados que alguém pode praticar, mas, ainda assim, de modo geral somos profundamente atraídos por esse tema? 

Por exemplo, a maioria das pessoas não hesitam em comprar um livro para saber mais sobre o caso de antropofagia da equipe de rúgbi do Uruguai, que ficou sem comida depois que o avião em que estavam caiu nos Andes ou em assistir a algum filme sobre um "canibal" qualquer.

Ao longo dos milênios de existência da raça humana, diversos povos comeram membros da mesma espécie pelos mais variados motivos, do sagrado ao mórbido.

(Imagem: Shutterstock)(Imagem: Shutterstock)

Antropofagia e canibalismo têm o mesmo significado?

A resposta rápida é não. É muito comum que a antropofagia e o canibalismo sejam considerados sinônimos, pois ambos os termos, de alguma maneira, remetem-se ao ato de comer carne humana. Todavia, especialistas em etnologia preferem fazer uma diferenciação entre eles.

A expressão "antropofagia" tem como base os termos gregos anthropos (homem) e phagein (para comer). Sendo assim, antropofagia é o ato comer carne humana, simples assim, e por isso pode ser usado para se referir tanto a uma pessoa que come outra, quanto ao caso de um animal que se alimenta de um ser humano.

Já o termo "canibalismo" surgiu bem mais tarde, tendo suas origens no espanhol canibal, uma variação de cariba, palavra usada para se referir aos habitantes do Caribe na época das grandes navegações. Originalmente, significava "resistente", mas, por influência dos espanhóis, passou a ter o conceito de selvagem, cruel e acabou sendo usado para designar práticas antropófagas.

A grande diferença nesse caso é que "canibalismo" passou a designar a prática de se comer um indivíduo da mesma espécie, não necessariamente um ser humano.

Resumindo:

  • Um homem que come outro homem é, ao mesmo tempo, um canibal e um antropófago.
  • Um leão que come um ser humano é um antropófago, mas não é um canibal.
  • Agora, se um leão come outro leão, ele é um canibal, mas não é um antropófago.

Faz sentido?

No mundo animal, o canibalismo pode acontecer por vários motivos, como a falta de alimentos, ou fêmeas que devoram sua ninhada devido ao estresse, ou até por controle populacional. Esse é o caso dos peixes guppies de aquário, por exemplo, que comem seus filhotes para evitar a superlotação.

Imaginário popular

Foi a descoberta das Américas, em especial, as viagens de Colombo para as Índias Ocidentais, que forneceu ao imaginário popular europeu relatos de antropofagia como nunca antes.

(Fonte: Getty Imagens/ Thought Co./ Reprodução)(Fonte: Getty Imagens/ Thought Co./ Reprodução)

Colombo chegou a escrever em seu diário de viagens os encontros com “canibais” no continente americano. Em um deles, o navegador escreve que “há homens com um olho e outros com focinho de cachorro que comem homens. Ao tomar um homem, eles o decapitam, bebem seu sangue e cortam seus órgãos genitais”. Em novembro de 1492, ele registrou em seu diário a palavra “canibales” pela 1ª vez.

Canibais por conveniência 

Como tudo tem dois lados, ao desembarcar no Novo Mundo, um dos primeiros registros que Colombo fez foi descrever os indígenas como pessoas amigas e que não causavam grandes complicações, ou seja, não tinham nada de canibais, ao menos por enquanto. Porém, os espanhóis queriam achar ouro e, como não obtiveram sucesso, perceberam que a segunda melhor "posse" seriam os escravos.

Quando Colombo voltou, os nativos que haviam sido considerados amigáveis se transformaram, repentinamente, em canibais. Com isso, os conquistadores não teriam desculpas para tratá-los bem: poderiam ser escravizados, serem tratados como animais ou terem suas terras tomadas, por exemplo.

Isso aconteceu em vários momentos durante o período das grandes navegações. Dar ao nativo a classificação de antropofagista ou acusá-lo de praticar rituais de canibalismo, mesmo que não fizessem isso, era uma excelente ferramenta para desumanizar essas pessoas.

É crime comer carne humana?

Podemos dizer que é errado, que fere princípios morais e religiosos, que é abominável e por aí vai. Contudo, talvez você se surpreenda em saber que muitos países não têm uma lei para proibir e, muito menos, punir o canibalismo.

(Fonte: Anthro Encyclopedia/ Reprodução)(Fonte: Anthro Encyclopedia/ Reprodução)

Os Estados Unidos, a maioria dos países europeus e até o Brasil entram na lista. Geralmente, quando alguém pratica o canibalismo nessas regiões, o criminoso é acusado de homicídio, necrofilia ou profanação de cadáveres.

Essa situação ainda tem um “problema técnico”. Em vários casos recentes de antropofagia, as vítimas concordaram em ser mortas e comidas. Um exemplo disso foi o caso de Armin Meiwes, na Alemanha, no qual a vítima simplesmente respondeu ao anúncio do assassino na internet que dizia “procurando um homem bem construído de 18 a 30 anos para ser abatido e depois consumido”.

Por que as pessoas comem outras pessoas?

A Biologia, Sociologia, Antropologia e Arqueologia ainda buscam explicações para essa pergunta. O canibalismo ritualístico, assim como o de sobrevivência são mais fáceis de serem entendidos, mas as demais situações ainda demandam muitos estudos.

(Fonte: Salon/ Reprodução)(Fonte: Salon/ Reprodução)

Para se ter ideia, vários manuais de doenças psiquiátricas não listam a prática como uma doença. Contudo, alguns psicólogos especulam que a antropofagia pode estar relacionada à ansiedade de separação da mãe e a agressões. Também há linhas de pesquisa avaliando se alguns dos atos de canibalismo foram cometidos porque o indivíduo sofria de esquizofrenia.

Em algumas situações, ainda há elementos de satisfação sexual que tornam ainda mais complexo o estudo do caso. Armin Meiwes, o técnico de reparo alemão que comeu o homem que respondeu ao seu anúncio, durante seu julgamento explicou o que estava por trás de sua motivação. 

Ele disse que sempre quis ter um irmão mais novo, alguém que fizesse parte dele. Como uma forma de preencher essa obsessão, terminou fascinado pela antropofagia.

Qual é o gosto da carne humana?

Miewes, que sempre pareceu lidar muito bem com o que havia feito, foi entrevistado em sua cela. Quando questionado sobre qual é o gosto da carne humana, afirmou que parece porco, só que um pouco mais amarga, com um sabor mais forte. “Tem um gosto muito bom”, disse ele.

Ao que parece, ele está certo. Na década de 1920, também na Alemanha, um casal serial killer vendeu por um bom tempo carne humana em um mercado ilegal como sendo de porco.

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