A 'revolta do nylon' levou milhares às ruas em 1941

A 'revolta do nylon' levou milhares às ruas em 1941

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Em meados de 1935, o químico Wallace Hume Carothers inventou a primeira fibra têxtil sintética da história usando carbono, água e ar. Ele a nomeou de nylon (nome genérico para a família das poliamidas) e autorizou que fossem desenvolvidos produtos com esse material na empresa DuPont — até hoje a segunda maior companhia química norte-americana.

Carothers confeccionou o primeiro par de meias finas feitas de nylon. Depois, uma remessa de pares destinados a teste foi distribuída entre as esposas dos funcionários da fábrica para que elas experimentassem o produto. A aprovação foi unânime, então eles decidiram fabricar 4 mil pares, os quais esgotaram em apenas três horas de venda nas lojas de Wilmington, Delaware (EUA), onde até hoje é a sede da empresa.

Em 1939, a DuPont selecionou modelos para desfilarem com seu mais novo produto na Feira Mundial de Nova York. Reafirmando o sucesso, as mulheres ficaram fascinadas com o alongamento, durabilidade e elegância dessas meias. 

Por isso, não foi uma surpresa a sociedade ficar indignada quando a produção simplesmente parou.

Vendendo como água

(Fonte: The Coven/Reprodução)(Fonte: The Coven/Reprodução)

Em 16 de maio de 1940, atualmente conhecido como “Dia do Nylon”, mais de 4 milhões de pares de meias marrons feitas de nylon chegaram às prateleiras da maioria das lojas de departamento dos Estados Unidos a míseros US$ 1,15. A DuPont sabia do potencial do novo produto, uma vez que o mercado das meias femininas estava cada vez mais em alta. Ao longo de 30 anos, com as bainhas das saias subindo cada vez mais, as meias finas foram se tornando um componente essencial em qualquer guarda-roupa feminino.

Eles não poderiam estar mais certos: os estoques esgotaram em apenas dois dias. Aos poucos, as mulheres deixavam de lado as meias de seda e rayonque rasgavam facilmente, não esticavam e eram difíceis de lavar. Elas integraram um amplo movimento de desapego para que o velho tecido fosse reutilizado na manufatura militar.

O congelamento das máquinas

(Fonte: Hour Detroit Magazine/Reprodução)(Fonte: Hour Detroit Magazine/Reprodução)

Quando Pearl Harbor foi bombardeado, em 7 dezembro de 1941, e os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, a produção do nylon foi racionada e canalizada para os esforços de guerra na fabricação de paraquedas, cabos de pneus, cordas, tanques de combustível de aeronaves, cadarços e redes mosquiteiras. Isso aconteceu porque o proprietário da DuPont, Eleuthère Irénée du Pont, ofereceu a fibra sintética para o exército americano, visto que o país dependia de 90% da importação de sua seda para o Japão.

Logo, as meias finas pararam de chegar às lojas e boutiques destinadas ao público civil, e não demorou muito para que essa falta fosse sentida e uma avalanche de reclamações começasse. Sem as peças desejadas, as mulheres passaram a aplicar loção de bronzeamento, delineador e tintura de cabelo nas antigas meias para tentar obter a aparência das de nylon. Por todo o país, houve roubo e falsificação do produto.

Proibidos de produzir nada além do ordenado, a DuPont lucrou mais de US$ 100 mil em desvios de meias de nylon por meio de empresários que as compravam para revenda. No mercado clandestino, os pares de meias eram encontrados por até US$ 20.

A revolta

(Fonte: Smithsonian Magazine/Reprodução)(Fonte: Smithsonian Magazine/Reprodução)

Foi só no final de 1945 que a fábrica retomou o maquinário, porém eles sozinhos já não podiam mais acompanhar o sucesso da própria obra, visto que praticamente todas as mulheres do país usavam as meias. A empresa estimou que cerca de 360 milhões de pares teriam que ser produzidos por ano para suprir a demanda, porém essa era uma meta ilusória.

Empenhadas em conseguir "pôr as mãos nas meias" depois de tanto tempo tentando conseguir alguma, em novembro daquele ano, apenas no bairro de East Liberty, em Pittsburgh, mais de 40 mil pessoas fizeram fila na frente de uma loja para comprá-las — foram vendidos 13 mil pares. Naquele dia, enquanto tentavam adquirir o produto, aconteceu o primeiro grande tumulto, que resultou em milhares de pessoas feridas.

Incapaz de encher os estoques a tempo, a DuPont foi fortemente acusada de atrasar a fabricação das meias para aumentar ainda mais a procura. Jornais da época dispararam manchetes alegando que a empresa estava sendo ambiciosa demais e antipatriótica ao manter os direitos exclusivos de patente sob uma fibra que possuía alta demanda e versatilidade.

(Fonte: SlideShare/Reprodução)(Fonte: SlideShare/Reprodução)

"O motivo desses tumultos e divergências são de responsabilidade das mulheres, que não tem nada de melhor para fazerem do que ficar formando filas intermináveis na porta dos comércios. Nós estamos fazendo a nossa parte", foi o que a DuPont declarou em sua defesa, preferindo colocar a culpa em seu público-alvo do que assumir que não dava mais conta de produzir sozinha o próprio produto.

Os motins organizados em várias cidades encheram os leitos de hospitais com pessoas feridas e causaram danos ao patrimônio público e privado. Somente em março de 1946 que tudo foi normalizado, quando a DuPont — ainda obstinada em não abrir mão dos lucros integrais — começou a produzir mais de 30 milhões de pares de meias por mês, exigindo mais de seus funcionários e do maquinário do que deveria.

Por volta de 1951, a empresa foi ameaçada por uma Ação Antitruste (Direito da Concorrência), caso não compartilhasse o licenciamento do nylon para outras companhias. À perspectiva de perder tudo de uma vez por todas, a DuPont logo concordou com os termos e vendeu os direitos de reprodução à Chermstrand Corporation.

Depois do nylon, surgiram outros sintéticos da empresa que também eram de fácil manutenção, como o Dacron, Orlon, Bri-nylon e o Tricel. Visando conquistar ainda mais o mercado têxtil, a DuPont enviou roupas contendo fios de nylon para os estilistas famosos.

Em 1955, o nylon já era usado em vestidos de Coco Chanel e Christian Dior, marcando a consolidação de um material que foi motivo de muito conflito.

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