Igreja Maradoniana: religião tem Maradona como 'Jesus' e 'Deus'

Igreja Maradoniana: religião tem Maradona como 'Jesus' e 'Deus'

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“Do Olimpo ao limbo” ou “do luxo ao lixo” foram só algumas das definições que jornais do mundo todo atribuíram à vida pessoal e à carreira do astro do futebol, Diego Maradona, falecido em 25 de novembro de 2020. Ele foi do gol histórico na Copa do Mundo de 1986 ao vício em drogas, passando por envolvimento com traficantes, abuso de álcool, declarações controversas, agressões e seu primeiro ataque cardíaco aos 43 anos em decorrência de doenças provocadas pelo uso de cocaína.

Apesar disso, a influência de Maradona nunca descaracterizou sua relevância e impacto na história, cultura e sociedade argentinas. Milhares de crianças foram batizadas com o nome do astro, pontos turísticos criados, murais gigantescos espalhados pela cidade, roupas, estádios, bares e restaurantes por onde ele passou se transformaram em atrações.

A histeria ao redor da imagem de Maradona era tão grande que um “altar do cabelo milagroso” foi erguido em 1991, no Bar Nilo, em Nápoles (Itália). Isso porque o proprietário supostamente encontrou uma mecha de cabelo do jogador no encosto de um assento após um voo da Alitalia em 1985. O item transformou-se em uma relíquia e passou a atrair devotos do mundo todo. 

De uma infância pobre como Diego Armando Maradona, em Lanús (Buenos Aires, Argentina), ele virou o “Homem Deus” para algumas pessoas.

Adorando um homem

(Fonte: Vice/Reprodução)
(Fonte: Vice/Reprodução)

Em 30 de outubro de 1998, Alejandro Verón e Hernan Amez, jornalistas de uma rádio sobre futebol, fundaram a Igreja Maradoniana na cidade de Rosário, na Argentina. Imitando a estrutura de Igreja Católica, a intenção é adorar Maradona como se ele fosse Deus. Foi na imagem do astro de 1,65 m de altura que milhares de pessoas enxergaram uma figura de esperança, praticamente o arauto que tantos esperaram chegar.

“Nossa religião é o futebol e, como todas as religiões, deve ter um deus. Jamais esqueceremos os milagres que Maradona fez em campo e o espírito que despertou em nós, os fanáticos”, declarou Alejandro Verón acerca do motivo de ter começado a religião.

A Igreja Maradoniana é mais ativa através da internet, mantendo sempre uma linguagem séria e extremamente religiosa, de verdadeira devoção, ao esportista. No perfil da igreja no Facebook, os fiéis repetem citações emblemáticas de Maradona, compartilham fotos, memórias, vídeos e todo o tipo de conteúdo que envolva o homem. Para eles, nenhum tipo de “mero mortal” tem o direito de julgá-lo, pois tudo o que ele já fez é considerado “divino” para eles.

Os Dez Mandamentos

(Fonte: The Ui Junkier/Reprodução)
(Fonte: The Ui Junkier/Reprodução)

Apesar de não parecer séria, a igreja é muito bem organizada. Os membros vivem a partir de um “Calendário Maradoniano” em que os anos são contados a partir do nascimento de Maradona, em 30 de outubro de 1960. O ano atual é lido como 61 d.D. (depois de Diego). O dia 22 de junho do calendário é considerado a “Páscoa Maradoniana”, que celebra o histórico e controverso “Gol da Mão de Deus” e o “Gol do Século”, ambos vistos como “milagres” realizados pelo jogador. O “Natal Maradoniano” é comemorado em 29 de outubro, um dia antes do aniversário do astro.

(Fonte: Vice/Reprodução)
(Fonte: Vice/Reprodução)

A religião também possui a sua própria Tábua dos Dez Mandamentos, que são: “Nunca deixar a bola cair”, “Amar o futebol acima de tudo”, “Declarar amor incondicional por Diego e pela beleza do futebol”, “Defender a camisa da Argentina a todo custo”, “Espalhar as notícias dos milagres de Diego por todo o Universo”, “Honrar os templos onde Ele jogou e suas camisas sagradas”, “Não proclamar Diego como membro de uma única equipe”, “Pregar e divulgar os princípios da Igreja de Maradona”, “Fazer de Diego seu nome do meio e nomear seu primeiro filho com ele” e “Não viver alheio à realidade e ser inútil”.

E para cimentar de vez o espectro religioso da igreja, foi formulado até mesmo uma versão do Pai-Nosso da Igreja Católica. Diante de seus altares erguidos com fotos e lembranças do jogador, os fiéis rezam: “Pai Nosso, Diego, que estás na Terra/Santificado seja o Teu pé esquerdo/ Venha a Tua magia/ Que Teus gols sejam lembrados/ Amém”.

(Fonte: The Bubble
(Fonte: The Bubble

Atualmente, a Igreja Maradoniana possui aproximadamente 500 mil fiéis em todo o mundo, com idades que variam de 15 a 70 anos, em sua maioria homens, de acordo com especificações no site da própria igreja. Para fazer parte dela, é necessário se submeter a uma espécie de rito de batismo que consiste em marcar um “Gol da Mão de Deus”. Só assim que o fã consegue o certificado que o decreta como um seguidor fanático de Maradona.

Ainda que a religião possua uma participação ativa através das redes sociais, Verón e Amez tentam promover sempre encontros em vários locais na cidade de Rosário para que os discípulos possam participar das “missas religiosas”. Os fiéis fazem viagens de horas, atravessando estados ou até mesmo o país todo só para poder se reunir com seus semelhantes.

Morrer para renascer

(Fonte: ESPN/Reprodução)
(Fonte: ESPN/Reprodução)

Marcadas pelo cheiro de carvão e salsicha, as reuniões incluem vestes litúrgicas especiais para cada ocasião. Os fundadores, representando os “padres” da igreja, penduram pôsteres que apresentam a carreira de Maradona, colocam sobre o altar uma réplica do troféu da Copa do Mundo junto com livros biográficos tidos como a Bíblia Sagrada, que narram a vida do jogador.

“Tenho duas filhas, Mara e Dona. Quando o médico informou que minha esposa estava grávida de gêmeos, soubemos imediatamente quais seriam seus nomes”, revelou o seguidor Walter Rotundo, em entrevista para a Vice. Membro da Igreja desde 2011, o adorador batizou suas duas filhas em 2017 ao lado de mais 87 membros. As meninas encaram tudo como uma brincadeira, embora esteja longe de ser.

(Fonte: Pinterest/Reprodução)
(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Muitos congressistas são obcecados a ponto de definir que o número 10 da camisa de Maradona nunca mais deveria ser usado por alguém, pois é considerado sagrado e todos os jogadores que fazem o uso “impróprio” dele não passam de “blasfemadores”.

Somente em 2016 que a religião foi reconhecida por Maradona publicamente. Ele chegou a vestir a camiseta da instituição e gravou um vídeo agradecendo o carinho dos fiéis por terem erguido tudo aquilo em seu nome. Para o astro dos campos, a Igreja era apenas uma maneira de externar o quanto ele significava na vida de tantas pessoas.

(Fonte: New York Daily News/Reprodução)
(Fonte: New York Daily News/Reprodução)

Ele nunca compareceu em nenhuma das missas, porém sua equipe enviava camisetas oficiais autografadas e outras lembranças para os fiéis. A morte de Maradona foi recebida com profundo luto pelos milhares de adoradores, que se reuniram em massa ao redor do Obelisco e passaram pelo velório aberto para prestar suas últimas homenagens. 

Agora eles estão certos de que o deus que adoravam adquiriu um caráter de “Nazareno do futebol”, que padeceu, foi “crucificado”, morreu e teve a cabeça encimada por uma bola coroada por espinhos.

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