E agora? Como fica a bandeira do Reino Unido sem a Escócia?
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E agora? Como fica a bandeira do Reino Unido sem a Escócia?

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Há 400 anos, quando as coroas da Inglaterra e da Escócia foram unificadas, surgiu a discussão de como o campo azul e a cruz diagonal de Santo André poderiam ser combinados com a cruz vermelha de São Jorge.

Os escoceses defendiam que sua bandeira deveria ser sobreposta em cima da inglesa, mas é claro que os ingleses preferiam o contrário. Foi necessário um mandato real para determinar que a bandeira inglesa deveria ter maior destaque.

Entretanto, a Escócia pretende se tornar independente do restante do Reino Unido. E agora, como vai ficar a bandeira que representa essa antiga união? Foi sugerido pelo College of Arms (uma das poucas autoridades especializadas em brasões na Europa) que, como a Rainha continua sendo chefe de Estado de uma Escócia independente, não há por que redesenhar a bandeira. Mas ainda existe a possibilidade de um debate sobre o assunto.

Se trocar, como fica?

Charles Ashburner, chefe executivo do Flag Institute (uma organização cultural que determina diretrizes sobre bandeiras e seu modo uso), convocou os membros do conselho e questionou qual seria o design mais apropriado para um Reino Unido pós-independência.

Embora nada tenha sido determinado definitivamente, diversas novas bandeiras já foram criadas pelos membros do Flag Institute e de pessoas comuns do povo, os quais visam esquentar o debate sobre um novo modelo que represente o Reino Unido. Todavia, Ashburner defende que a maioria dos participantes do conselho se oporiam à troca.

A dança das bandeiras

O País de Gales não está representado na Union Jack – como é conhecida a bandeira do Reino Unido –, pois, na época em que ela foi desenhada, ele ainda fazia parte do reino inglês. “Esse será o primeiro argumento óbvio: ‘Se a Escócia vai sair, então com certeza Gales deve entrar’”, informa Ashburner.

No primeiro design, foi retirado o campo azul da bandeira da Escócia e substituído pelo preto. Além disso, trocou-se as demarcações brancas por uma sombra em amarelo. O intuito é honrar a bandeira de São David (uma cruz amarela em um fundo negro), o santo padroeiro de Wales.

A segunda corresponde à mesma ideia, mas opta por pegar emprestado elementos da bandeira nacional de Wales – o campo verde e branco que fica por trás de seu dragão vermelho.

Já a terceira conta com uma interpretação mais moderna, incluindo as cores da bandeira de São David e mantendo o azul da Escócia, visando assim refletir o fato de que a país continuaria a fazer parte da monarquia britânica.

Utilizando os mesmos princípios, a quarta remove o branco da cruz diagonal de Santo André e impõe uma coroa e os brasões reais, incluindo os três leões da Inglaterra, o leão vermelho da Escócia e a harpa, um símbolo nacional tanto de Wales como da Irlanda.

Um quinto design prefere remover todos os elementos escoceses da bandeira e adicionar diversos escudos reais, cercados por uma guirlanda de itens simbólicos entre os diversos membros da comunidade de nações.

Quem é o responsável pela troca?

Qualquer sugestão de alterar a bandeira seria complicada pelos fatores da lei, os quais são ainda mais difíceis no Reino Unido. “Há uma linha ambígua que divide o que é responsabilidade do estado ou uma prerrogativa real”, informa Malcolm Farrow, o presidente do Flag Institue. Diferente do que acontece em muitos países, nunca houve um ato à bandeira no Reino Unido, logo a questão de jurisdição e propriedade é algo um tanto confuso.

O Palácio de Buckingham diz que isso é um problema para o Departamento da Cultura, Mídia e Esporte, o qual rebate afirmando que o Cabinet Office (uma repartição do governo do Reino Unido) é responsável por lidar com quaisquer questões a respeito da bandeira. Por sua vez, o Cabinet Office diz que o problema não foi abordado durante centenas de anos, portanto não há nenhuma diretriz em ordem.

Brasão do Cabinet Office

A organização College of Arms defende que a bandeira é determinada pela coroa, sendo que isso foi confirmado por uma lei do Conselho Privado do Reino Unido em 1800. Andrew Rosindell, que chefia a All Party Parliamentary Group on Flags and Heraldry, concorda que a questão é confusa. “Não há nenhum protocolo legal oficial que avalie as bandeiras, sendo que não é nem ao menos possível dizer que a Union Jack é a bandeira oficial do Reino Unido”.

Em 2008, Rosindell apresentou um projeto de lei que tentava formalizar a bandeira, mas que não foi aprovado. Entretanto, ele defende que, se a Escócia votar pela independência, não há necessidade pela troca da bandeira.

“Ela foi criada na época da união das coroas”, ele defende – algo que ocorreu cerca de 100 anos antes da total união política dos países. “Uma vez que o movimento que propõe a independência da Escócia pretende reter a monarquia britânica, redefinir a bandeira no caso do voto por ‘sim’ não faria sentido”, explica Rosindell.

Mudar a bandeira só traria problemas

Malcolm Farrow concorda com Rosindell e não vê muita razão para mexer na bandeira do jeito que ela está. Isso iria gerar uma série de conflitos políticos e “atrapalharia uma série de assuntos importantes com que o governo precisa lidar”.

Não há uma bandeira oficial da Irlanda do Norte, logo seria difícil representá-la em pé de igualdade com as outras. A cruz diagonal de São Patrício – representada em vermelho na bandeira do Reino Unido – foi inclusa em 1801 para simbolizar toda a Irlanda e não foi alterada com a criação do Estado Livre Irlandês, em 1922. “É algo tão complicado que ninguém se propôs a debater”, disse Farrow.

Mas não é só isso, pois várias bandeiras estrangeiras impõem uma miniatura da Union Jack sobre as suas, desde a Austrália e a Nova Zelândia até Fiji e o estado americano do Havaí. “Mudar nossa bandeira custaria milhões de libras”, defende Farrow – segundo ele, essa quantia seria desperdiçada. Além disso, isso geraria problemas com milhões de pessoas.

Bandeira do Havaí

Muda ou não muda?

Apesar das objeções, o debate sobre a bandeira continua caloroso. James Hallwood, diretor associado da The Constitution Society – uma organização que promove informações públicas sobre a constituição britânica –, diz que esse é um problema frequentemente levantado. “Uma das perguntas mais comuns que me fazem não é sobre a independência política ou financeira, é a respeito do que vai acontecer com a bandeira.”

Ele destaca que a bandeira é versátil e que não representa apenas um símbolo de patriotismo. “As pessoas adoram o fator peculiar. Além disso, ela também pode ser usada de muitas maneiras divertidas”, ele diz.

Capitão Britânia

Ashburner defende que o estado vai se opor as alterações, mas a opinião pública vai propor um debate sério a respeito do assunto. “Vai ser difícil para o país passar pelo processo de retirada da Escócia e continuar com a mesma bandeira que existia antes”.

Ele concorda com Hallwood sobre a força e a representatividade da bandeira, defendendo também uma opinião pública sobre a entidade da Union Jack: “Como ela representa a melhor bandeira do mundo, seria horrível vê-la mudar. Mas ser for para isso, que seja por outros motivos”, conclui Ashburner.

Abaixo, você confere alguns modelos propostos para a nova bandeira do Reino Unido.

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