Os cruéis experimentos da Prisão Holmesburg

Os cruéis experimentos da Prisão Holmesburg

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A linha médica de evolução possui um passado obscuro com relação aos testes realizados em humanos sem o seu consentimento. Pessoas pobres, doentes mentais e prisioneiros formavam a tríade dos principais grupos que sofreram as descobertas e os avanços em busca de uma modernidade que até chegou a salvar milhares de pessoas, porém às custas da morte e da dor de mais milhares dessas, que eram enxergadas como seres à margem da sociedade.

Os soldados também constituíam uma parcela dos que eram usados como ratos de laboratório, uma vez que a maioria deles era frequentemente submetida a dosagens de drogas e remédios que visavam estimular ou aprimorar o metabolismo para criar máquinas mortíferas que sobrevivessem às agruras da guerra.

Depois dos campos de concentração durante o nazismo, que deram origem à prática, os centros prisionais foram os maiores alvos dos experimentos em seres humanos. E isso exatamente pelo fato de que homens e mulheres eram abandonados lá por conta de seus crimes — ou não — e acabavam automaticamente sendo desumanizados e deixando de ser contemplados tanto pelo governo quanto pela sociedade. Se estavam morrendo ou não, isso era indiferente, facilitando qualquer atividade considerada antiética.

Sangue, rebelião e experimentos

(Fonte: The Constantine Report/Reprodução)

Por trás das verdadeiras muralhas que eram os muros e dos pavilhões da construção em formato de estrela-do-mar fundada em 1896, a prisão Holmesburg, localizada no estado da Pensilvânia, lidera a lista de uma das mais notórias e violentas prisões da história dos Estados Unidos.

Entre os 1,2 mil ocupantes, havia os piores criminosos do país, mas também pessoas que foram despejadas lá ilegalmente sob penas jamais formalmente julgadas — fosse por conta de alguma tramoia, preservação de sigilo governamental ou por meios de corrupção do sistema da época.

Com a vida prisional totalmente nas mãos dos internos, relatórios de 1970 comprovam as sangrentas rebeliões que se tornavam verdadeiras guerras, matando mais presos do que realmente era contabilizado. A frequência delas acontecia exatamente pela falta de supervisão, geralmente também como forma de retaliação às sessões de espancamentos e violência que os tornavam ainda mais incontroláveis e revoltados. Com uma população carcerária composta por 85% de homens negros, um método de tortura envolvia prender vários deles sob o sol para que “perdessem a cor do crime” e tivessem a pele descolorada pela quentura.

Além dessas práticas, existem registros dos estupros em massa e do desaparecimento de vários inspetores, diretores e outros chefes que comandavam Holmesburg, mortos em emboscadas arquitetadas pelos próprios presos. Alguns corpos desapareceram dentro da prisão, e apenas algumas partes foram encontradas.

Em meio a tudo isso, os experimentos científicos coexistiam mais ou menos desde 1950 com a chegada do médico dermatologista Albert Montgomery Kligman, considerado o pioneiro do tratamento da acne e também o Josef Mengele de Holmesburg.

Acres de pele

(Fonte: Pragmatic Obots Unite/Reprodução)

Esse foi o nome que o autor Allen Hornblum deu ao seu livro-denúncia sobre as atrocidades que aconteciam por trás das paredes da instituição e em referência à fala de Kligman com relação aos presos: “Tudo o que eu via diante de mim eram acres de pele. Era como um fazendeiro vendo um campo fértil pela primeira vez”.

Para os experimentos dermatológicos, o médico Albert Kligman pedia para que a equipe encaminhasse para a sala de testes sempre três homens negros e três brancos. E embora não tivessem muita opção de escolha, como forma de demonstrar gratidão pela contribuição deles, eram pagos com cigarros, que também era considerado a moeda prisional, ou no máximo US$ 2 por dia. Eles então eram vestidos com pulôveres elásticos com mangas repletas de cintos de contenção e algemados às macas. As doses eram administradas de acordo com o peso e a altura de cada detento.

As reações demoravam em média 5 minutos para aparecer e, enquanto alguns manifestavam apenas episódios de alucinações, outros entravam em completo colapso, tendo convulsões e reações físicas dos efeitos colaterais na própria pele. Os homens não tinham noção de que estavam sendo cobaias de vários tranquilizantes, analgésicos e antibióticos experimentais da indústria farmacêutica.

(Fonte: Daily Mail/Reprodução)

Eram injetados no corpo soluções de lauriléter sulfato de sódio, componente presente em produtos higiênicos, que causava lacerações cutâneas, inchaços e rachava tanto a pele que alguns sangravam por dias. Outros procedimentos requeriam que os homens se exercitassem à exaustão para que depois tivessem as suas glândulas sudoríparas arrancadas à faca para análises, e eles ainda tinham os ferimentos cauterizados a sangue frio.

Houve estudos patrocinados pela empresa Johnson & Johnson, fundada em 1886, que corroeram a boca de mais de 100 presos com a mistura de componentes ácidos para enxaguante bucal.

Tóxico e radioativo

(Fonte: The New York Times/Reprodução)

Durante 23 anos, na esteira disso, Albert Kligman também executou experimentos envolvendo exposição a altos níveis de radiação para a produção de revestimentos de micro-ondas e para testar a capacidade de reconstrução da pele humana. Em soluções que mergulhavam as pessoas em tanques, ácido sulfúrico e carbônico, corroeram a epiderme dos braços dos homens e tornaram a pele uma carapaça dura como couro. Testículos empolaram; cabelos, dentes e unhas caíram.

Em atos mais horrendos, fragmentos de órgãos foram costurados ou remendados com outros em estado vital de funcionamento, fosse dentro ou fora do corpo dos presos, para analisarem se voltariam a ser funcionais de novo. Estima-se que cerca de 80% da população da Holmesburg foi infectada com agentes biológicos, como os patógenos da gripe de Hong Kong, em busca de resultados mais eficazes.

Em 1981, o jornal Philadelphia Inquirer fez uma denúncia, e boa parte desses atos vieram a público através do escândalo das dioxinas aplicadas nos detentos. Foi descoberto por um jornalista que a emergente indústria agrícola financiava com milhões de dólares os experimentos de Albert Kligman, para que o especialista alcançasse soluções com testes de pesticidas em seus pacientes. As dosagens eram tão altamente tóxicas que muitos morriam por asfixia ou falência múltipla dos órgãos.

Os ecos do forte

(Fonte: Lee Saloutos/Reprodução)

Em 1973, o Congresso de Experimentação Humana que discutiria as implicações éticas e legais no estudo experimental em seres humanos foi o responsável por começar a causar a derrocada do que acontecia dentro da prisão Holmesburg — e em tantas outras espalhadas pelo país. No entanto, a voz da oposição, Solomon McBride, líder da malha prisional dos Estados Unidos, alegava que os experimentos não eram nada nocivos e que simplesmente se tratava de prender tecidos com loção ou cosméticos nas costas de pacientes. Ele ainda defendia a renda que os prisioneiros tiravam disso e como a prisão contribuía para a sociedade com o desenvolvimento do Retin A — medicamento de Kligman para acne.

Nenhum desses argumentos se sustentou e, após pressão do público e do poder judiciário, os testes em prisioneiros foram finalmente interrompidos. E não demorou para que os experimentos em humanos também chegasse ao fim em todos os Estados Unidos, uma vez que a reação severa dos americanos foi percebida como uma negação definitiva quanto a esse tipo de prática.

Todos os anos de pesquisa em forma de tortura realizada por Albert Kligman não significaram absolutamente nada para a medicina mundial.

Em 1995, a prisão Holmesburg teve suas atividades devidamente encerradas, porém a estrutura se mantém lá, intacta, como um forte de horrores: cheio de lixo e ainda com os ecos de um passado desumano.

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