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O estranho Código de McCormick

Com uma calça jeans azul amarfanhada, imunda, e uma camiseta branca toda manchada de barro e esticada sobre os ossos do peito esquelético, já em decomposição. Foi desse jeito que investigadores encontraram os restos mortais de Ricky McCormick, em 30 de junho de 1999, em meio a uma plantação de milho na desolada zona rural do Condado de St. Charles — Missouri, Estados Unidos.

O homem negro de 1,80 de altura e 41 anos estava desaparecido há 3 dias, mas isso não batia com o estado de decomposição muito avançado de seu cadáver. As mãos espalmadas e as pontas dos dedos, logo abaixo das articulações superiores, já estavam pútridas.

Segundo testemunhas, Ricky McCormick foi visto pela última vez no dia 27 de junho de 1999 no posto de gasolina Amoco, onde trabalhava, no centro de St. Louis. No entanto, não fazia sentido para a polícia como o homem foi parar a 32 km desse posto e de onde morava, uma vez que não sabia dirigir e o transporte público não rodava naquela região.

Um cadáver de cara para o chão

Ricky McCormickRicky McCormick.

Ao revistar os bolsos da vítima, os detetives de homicídios encontraram duas anotações em manuscrito que continham sequências de mensagens breves e codificadas, um amontoado de letras e números entre parênteses. Por meio de conversas com os familiares e a namorada do rapaz (Sandra Jones), eles descobriram que o homem era uma pessoa comum e calma, que tinha problemas crônicos de coração e pulmão. Nada além disso.

O Serviço de Examinadores Médicos do Condado de St. Charles realizou exames minuciosos nos 72 kg de ossos e carne que sobreviveram à exposição aos elementos naturais. Não haviam sinais de violência física ou luta, tampouco de bala ou esfaqueamento. Os legistas não entendiam como o cadáver havia se decomposto tão rapidamente em apenas 3 dias, levando em consideração as condições climáticas da época. Eles supuseram, então, que o homem tinha sido mantido em um ambiente mais quente, como um galpão, antes de falecer em meio a terra do milharal.

Após um exame de autópsia e toxicologia, os médicos atestaram a causa da morte de Ricky McCormick como indeterminada. As evidências apontavam para um típico cenário de homicídio. As autoridades suspeitavam que Ricky tinha sido morto em outro lugar, mantido em um porta-malas ou outro local fechado antes de acabar onde foi encontrado.

A Cryptanalysis and Racketeering Records Unit (CRRU), subdivisão do FBI, em associação com a American Cryptogram Association não conseguiram decifrar os códigos encontrados em um dos bolsos do morto.

Devido à falta de pistas ou qualquer outra informação, em pouco tempo a morte de McCormick se juntou às pilhas de tantos casos de homens e mulheres que abarrotavam os arquivos da polícia local, catalogados como inconclusivos.

Aquela faixa de terra abandonada entre os rios do Mississippi e Missouri, onde o cadáver foi encontrado, há muito era considerada um depósito de lixo criminal para vítimas de qualquer tipo de atrocidade. Em 2001, por exemplo, equipes do governo que estavam cortando grama próximo às estradas estaduais descobriram os cadáveres nus de duas mulheres a cerca de 300 metros de onde McCormick foi encontrado 2 anos antes.

Ninguém tinha ideia de como Ricky acabou naquele milharal, por isso o seu caso desapareceu.

Março, 2011

Os códigos encontrados com McCormickOs códigos encontrados com McCormick.

Doze anos depois de Rick McCormick ter sido encontrado, e o seu caso esfriado, Dan Olson — membro do FBI e chefe da Unidade de Registros de Criptoanálise e Racketeering da Agência Quântico, no estado de Virgínia — revelou para a mídia os códigos encontrados naquela época. Aparentemente, a revelação era um pedido de assistência pública aos detetives de plantão para que os decifrassem.

Assim que isso surgiu na mídia, a família de McCormick deixou claro que o homem mal sabia escrever o próprio nome, quanto mais algum tipo de código. Isso surpreendeu o FBI, mas principalmente os aspirantes a decifradores de códigos, que viram isso como um mistério em meio a possibilidade.

Olson era um analista forense quando o caso de McCormick chegou em suas mãos no final de 2001. Desde então, ele dedicou os seus dias a desvendar cada um dos caracteres. Chamou analistas para debater ideias, buscou pistas, comparou letras e números com os endereços de St. Louis, como também examinou mapas de todo o país. Olson chegou a usar softwares avançados para realizar análises estatísticas, depois de quebrar a cabeça com lápis e papel. Ainda assim, ele não chegou a lugar algum.

O que mais o instigava era que a divisão de criptografia não costumava receber um código daquele tamanho e muito menos não conseguir resolvê-lo. Não havia uma aleatoriedade nos caracteres. Segundo o especialista, existia muita ocorrência da letra E, que poderia ter sido usada como espaçadores. Além disso, o que mais tinha eram padrões ao longo de todo o enigma. Porém, não entender o motivo dessa falta de solução era o fato que deixava Olson mais intrigado.

Muito embora a maioria do FBI tenha ficado desmotivada após saberem do baixo QI do homem morto e de seu analfabetismo funcional, Olson estava convencido de que os códigos não eram devaneios. Eles poderiam conter pistas sobre onde Ricky McCormick estava, com quem se encontrou, quem o matou e o porquê.

Depois de equipes inteiras frustradas, parecia até humilhante a CRRU de elite do FBI, a mesma unidade que decifrou os códigos dos espiões nazistas na Segunda Guerra Mundial, pedir ajuda às massas. No entanto, a notícia se espalhou para o mundo todo, levando o FBI a abrir uma página na internet destinada às teorias que surgiam diariamente (eram mais de 7 mil).

O enigma Ricky

RepresentaçãoRepresentação.

Ricky McCormick era considerado “diferente” pelos colegas, mas a sua mãe descrevia-o como “retardado” desde pequeno por sua inclinação em inventar histórias e exibir comportamentos incomuns. O seu primo, por outro lado, dizia que Ricky costumava falar como se estivesse em outro mundo, ele suspeitava que o primo sofresse de esquizofrenia ou autismo. A tia, Gloria McCormick, relatou que o psiquiatra do sobrinho alegou que ele tinha uma espécie de muro mental e este se recusava a quebrar, pois ele juntava a sua vida de pobreza da qual não gostava a uma imaginação bem ativa.

Quando adulto, McCormick vivia de empregos braçais, como zelador, lavador de pratos ou ajudante de serviços gerais. Ele também adotou hábitos noturnos, dormindo o dia todo e se levantando só para ir trabalhar. Em 1992, aos 34 anos, Rick foi preso pelo estupro de uma garota de 14 anos, com quem teve 2 filhos e mantinha relações desde que ela tinha 11 anos. Ele se declarou culpado pelo crime e cumpriu 13 meses atrás das grades.

No dia 15 de junho de 1999, Ricky McCormick comprou uma passagem de ônibus só de ida para Orlando. Ninguém sabe ao certo o que ele foi fazer lá nem o que aconteceu durante a sua estadia no Econo Lodge Hotel. Os registros telefônicos do quarto 280 (onde ele ficou) mostram que ele fez muitas ligações para várias pessoas do centro da Flórida semanas antes de embarcar. Durante esse tempo, Ricky fez apenas uma ligação para o posto de gasolina onde trabalhava, cujo dono, Baha Hamdallah, era violento e tinha um histórico com gangues.

Jones suspeitava que Ricky tivesse aceitado uma oferta de Baha para buscar drogas em troca de dinheiro, pois ele sempre voltava com drogas para o apartamento que dividia com ela quando fazia essas viagens. McCormick nunca gostou de falar sobre suas excursões a Orlando, mas ele parecia diferente quando voltou da última vez. Segundo a mulher, ele parecia assustado.

A partir desse momento, Ricky passou a agir mais estranho, de modo desesperado. Ele foi várias vezes ao hospital se queixando de dores no peito, porém era medicado e dispensado no dia seguinte. “Era como se ele estivesse procurando refúgio em algum lugar”, disse sua tia Gloria McCormick. Sandra declarou à polícia que conversou com o namorado às 23h30 do dia anterior a seu desaparecimento. Ele respondeu que estava a caminho do posto de gasolina para comer algo antes do seu turno começar.

Um funcionário viu Ricky pela última vez ao nascer do sol do dia 27.

Foi você Ricky?

Segunda parte do códigoSegunda parte do código.

Alguns acreditam que McCormick fosse uma espécie de mensageiro. Outros confiam que foi o homem quem escreveu os códigos, como Olson. Ele ainda apontou que as cifras são feitas em um formato de algo que foi escrito para si mesmo, indicando círculos desenhados ao redor de alguns segmentos do código que, teoricamente, sugerem uma lista de tarefas na qual itens são marcados à medida que são cumpridos.

Consultada, a especialista em criptografia amadora Elonka Dunin, responsável por ajudar Dan Brown em seus livros, concorda que as notas de Ricky parecem pessoais. Contudo, ela apoia que até podem se tratar de uma mensagem de uma pessoa para outra, mas não eram assuntos do homem.

Cada pessoa que depositou uma das milhares de teorias no fórum do FBI aponta para algo diferente. Uns leram os códigos como uma lista de medicamentos com horários e datas, enquanto outros afirmam que isso foi um movimento do assassino para desviar a atenção da polícia.

Seja como for, o segredo escondido por detrás do código de McCormick até hoje ocupa o 3º lugar na lista dos principais casos não resolvidos do CRRU. Está atrás apenas do código do Assassino do Zodíaco e de uma carta de ameaça, secreta, escrita a um órgão público não divulgado até hoje, que data de 25 anos atrás.

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