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Como os chineses sobreviventes do Titanic foram rejeitados nos EUA

No dia 14 de abril de 1912, o naufrágio do luxuoso navio Titanic chocaria o mundo. Das 2.200 pessoas que estiveram a bordo da embarcação, apenas 1.178 saíram com vida das frias águas do Oceano Atlântico. Entre os sobreviventes, estava um grupo de seis chineses que buscavam recomeçar suas vidas após o acidente.

O resgate de um deles, inclusive, foi responsável por inspirar uma das cenas famosas do filme Titanic (1997). Fang Lang foi encontrado por uma equipe de resgate agarrado a uma porta de madeira enquanto tremia de frio e lutava para viver. Apesar do fatídico episódio histórico, entretanto, os sobreviventes chineses ainda teriam que passar por uma jornada tortuosa nos anos seguintes.

Bodes expiatórios

(Fonte: The Six/Reprodução)(Fonte: The Six/Reprodução)

Identificados como Lee Bing, Fang Lang, Chang Chip, Ah Lam, Chung Foo e Ling Hee, acredita-se que os chineses eram marinheiros que rumavam ao Caribe para trabalhar. Apesar de estarem listados nas listas de sobreviventes do Titanic, o grupo não recebeu o mesmo tratamento que o restante das pessoas que saíram vivas do incidente.

Segundo historiadores, existia um crescente sentimento anti-chinês no Ocidente no início do século XX e a mídia norte-americana tratou-os como vilões. Em um relatório feito pelo Brooklyn Daily, os seis foram descritos como "criaturas" que pularam nos botes ao primeiro sinal de perigo e se esconderam sob os assentos — versão que foi desmentida por pesquisadores anos depois. 

Conforme contado pelo documentário sobre o caso The Six (2021), diversas histórias foram criadas pela imprensa e pelo povo para colocar os chineses como bode expiatório do incidente. Em entrevista para a BBC, o historiador Tim Malti afirmou que o grupo ainda tentou ajudar outros tripulantes, o que posteriormente culminou em Fang Lang amarrado a uma porta flutuante.

Chegada e expulsão dos EUA

(Fonte: The Six/Reprodução)(Fonte: The Six/Reprodução)

Após chegarem ao posto de inspeção de imigrantes em Ellis Island, Nova York, nos Estados Unidos, depois do naufrágio, os seis chineses foram expulsos do país em menos de 24 horas. O motivo teria sido a Lei de Exclusão Chinesa, uma lei racista que vigorava nos EUA e que proibia a imigração de chineses para o país.

Então, o grupo foi enviado a Cuba, onde fizeram escala antes de irem para o Reino Unido, que contava com uma escassez de marinheiros após muitos se alistarem para lutar na Primeira Guerra Mundial. Chang Chip acabou desenvolvendo uma pneumonia depois do incidente e morreu em 1914, sendo enterrado em Londres.

Agora em cinco, o restante do grupo permaneceu na Inglaterra até 1920, quando recessão do pós-guerra e os sentimentos anti-imigrantes fez com que fossem expulsos do lugar onde estavam mais uma vez. Durante esse tempo, alguns deles até chegaram a constituir famílias com mulheres britânicas, mas tiveram que deixar os entes queridos para trás.

Novos destinos

(Fonte: Pixabay)(Fonte: Pixabay)

Até onde se sabe, em resultado dos acontecimentos recentes na Grã-Bretanha, Ah Lam foi deportado para Hong Kong, enquanto Ling Hee embarcou em um barco a vapor com destino a Índia e fez moradia em Calcutá. Por outro lado, Lee Bing terminou imigrando para o Canadá.

Protagonista de uma das cenas mais emblemáticas do acidente do Titanic, Fang Lang foi quem lidou com o maior número de reviravoltas. Após velejar entre o Reino Unido e Hong Kong durante anos, o sobrevivente enfim decidiu voltar aos EUA e conquistou o direto de se tornar cidadão do país que um dia havia lhe rejeitado.

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