O Grande Incêndio de Londres causou ira e sede de vingança

Em setembro de 1666, antes que se extinguissem as chamas que consumiram a cidade de Londres por mais de 5 dias, os cidadãos já haviam encontrado os culpados por tê-lo começado: os católicos, holandeses e franceses.

Os católicos, porque há muito planejavam a queda da nação protestante, e por isso teriam lançado uma fúria ardente sobre todos eles, ou os holandeses e franceses, devido à guerra árdua contra a Inglaterra que travavam na época, sendo o fogo uma ótima maneira de fazer a cidade "se ajoelhar" de uma vez por todas.

Pagando na mesma moeda

(Fonte: VEJA/Reprodução)(Fonte: VEJA/Reprodução)

Antes que o inferno acabasse, alguns cidadãos arrastaram um padeiro holandês de seu comércio para que uma turba de londrinos o destruísse. Por pouco o homem não foi enforcado, mas foi salvo pelo duque de York. Os seios de uma francesa foram serrados por homens que pensavam que as mulheres carregavam o fogo que havia começado tudo aquilo. Do outro lado da cidade, um homem francês quase foi esquartejado pela multidão que acreditava que ele possuía pequenas bombas incendiárias.

Entre sangue, fumaça e fuligem que dominavam as ruas de Londres, a necessidade de culpar alguém era muito forte. De acordo com Adrian Tinniswood, autor de By Permission of Heaven: The Story of the Great Fire, os londrinos sentiam que Deus não podia ter lançado a morte sobre eles, principalmente depois da Peste, então aquilo precisava ser um ato de guerra — mas não era.

(Fonte: Historic UK/Reprodução)(Fonte: Historic UK/Reprodução)

Por volta de 21h, o padeiro Thomas Farriner fechou seu negócio, localizado no centro de Londres, na Pudding Lane, e apagou o fogo de seu forno de biscoitos. Sua filha Hanna, de 23 anos, verificou a cozinha à meia-noite para se certificar de que o forno estava vazio antes de ir para cama. Uma hora depois, o andar térreo do prédio estava engolfado pela fumaça.

O fogo não demorou a se espalhar. A Grande Londres tinha cerca de mil quilômetros quadrados entre as paredes romanas do século IV, que abrigavam cerca de 80 mil pessoas na época, em um aperto que era uma equação para o caos.

Os edifícios grandes, feitos de madeira e gesso em espaços exíguos, contribuíram para a propagação das chamas, principalmente após um verão muito seco que os deixou esturricados.

Ignorância e caos

(Fonte: The History Notes/Reprodução)(Fonte: The History Notes/Reprodução)

O que fez os londrinos suspeitarem de uma conspiração foi a maneira como o fogo se comportava, irrompendo em outro lugar mesmo após ser totalmente contido. No entanto, a causa real era apenas o vento excepcionalmente forte vindo do leste, espalhando as brasas por toda a cidade.

Foi impossível conter os boatos e as suposições, ainda mais com tudo a favor deles: a imprensa havia sido reduzida a chamas, e há duas semanas os ingleses queimaram a cidade portuária holandesa de West-Terchelling, ou seja, aquilo tinha que ser uma retaliação.

Quando as pessoas perderam o controle para a sede de vingança, Carlos II emitiu comunicados reais que foram colocados em lugares que não estavam em chamas para alertar as pessoas de que deveriam dirigir seus esforços para aplacar o fogaréu, não tentar encontrar um responsável.

O incêndio acabou na manhã de 6 de setembro, deixando mais de 50 mortos entre milhares de feridos. Cerca de 80% da cidade foi queimada, incluindo 87 igrejas e 13,2 casas, deixando 80 mil pessoas desabrigadas e uma dívida de 9 milhões de euros, em uma época em que a renda da cidade era de apenas 12 mil euros.

Alguém para culpar

(Fonte: Look and Learn/Reprodução)(Fonte: Look and Learn/Reprodução)

A investigação real, que emitiu um relatório entregue ao Parlamento em 22 de janeiro de 1667, concluiu que não houve invasão holandesa nem francesa. Contrariado, o povo colocou a culpa nos católicos devido à luta longa e sangrenta contra o catolicismo e o protestantismo na Inglaterra.

Entretanto, no momento em que as pessoas começaram a atacar os católicos, Robert Hubert confessou o crime, alegando que o incêndio foi parte de um complô francês. Filho de um relojoeiro francês, ele foi parado em Essex após tentar chegar aos portos da costa leste. Condenado à morte pelo presidente da Suprema Corte, Robert Hubert foi enforcado em 29 de outubro de 1666, em Tyburn.

Ninguém sabe realmente por qual motivo o homem confessou um crime que não havia cometido. Para o conde de Clarendon, contudo, Hubert teria optado por isso porque deveria estar "cansado de sua vida". Seja como for, a confissão do homem serviu para acabar com a ira popular sedenta por um culpado, embora a conspiração católica tenha persistido por anos.

Em 1681, foi colocada uma placa em Pudding Lane, no local onde havia a padaria, com os dizeres: "Aqui, com a permissão do Céu, o Inferno desabou sobre esta cidade protestante dos corações maliciosos dos papistas bárbaros, pela mão de seu agente Hubert, que confessou seu mal".

A placa permaneceu no lugar até meados do século XVIII.

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