Thomas Jefferson e sua contraditória relação com a escravidão

“Consideramos essas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais”, disse Thomas Jefferson na Declaração da Independência dos Estados Unidos, escrita em 1776 durante o início da Revolução Americana.

Muitos cidadãos interpretaram essa citação como se ela tratasse dos direitos individuais, quando, na verdade, ela se refere aos colonos americanos e o desejo de viver em uma nação livre.

Contudo, isso não impediu que surgisse a dúvida: os negros escravizados pertenciam a esse contexto? Jefferson ficou conhecido por falar muito sobre combater a escravidão, porém seus esforços nunca foram além disso.

Comportamento controverso

Thomas Jefferson. (Fonte: Top List/Reprodução)Thomas Jefferson. (Fonte: Top List/Reprodução)

Publicamente, ao longo de sua vida, o então presidente sempre classificou o sistema da escravidão como uma “depravação moral” e “uma mancha hedionda na história americana”, contrária às leis da natureza que decretavam a liberdade individual igualitária, representando uma ameaça à sobrevivência daquela nova nação.

Jefferson reforçou esse pensamento em seu livro Notes On the State of Virginia, escrevendo que a escravidão seria uma ruína para ambos os lados, tanto para os negros quanto para os brancos.

No entanto, na mesma obra ele entra em contradição, provando seu pensamento racista e escravagista inerentes, ao dizer suspeitar que os negros de fato eram inferiores que os brancos, chegando a instalar um relógio sem o ponteiro dos minutos em sua fazenda porque acreditava que um relógio inteiro seria muito complexo para seus escravizados.

(Fonte: BBC/Reprodução)(Fonte: BBC/Reprodução)

Também havia o detalhe de que todo seu discurso abolicionista despencava quando alcançava o fato que Jefferson também era dono de escravizados que, inclusive, foram responsáveis por deixá-lo ainda mais rico.

Em Monticello, sua fazenda e palácio na Virgínia, o presidente chegou a ter cerca de 600 escravizados em vida, dos quais 175 foram herdados de seu pai. Ao todo, 130 trabalhavam diariamente em suas plantações, e Jefferson garantia que eles dessem o melhor de si.

A hipocrisia branca

Sally Hemings. (Fonte: Hamilton Wiki/Reprodução)Sally Hemings. (Fonte: Hamilton Wiki/Reprodução)

As mulheres escravizadas eram consideradas bens valiosos para Jefferson, por isso que ele violentou sexualmente várias delas, proibidas por lei de recusar os avanços sexuais de seus proprietários.

Entre tantos casos de violência, o mais famoso foi o de Sally Hemings, filha do sogro de Jefferson com outra escravizada, enviada a Paris aos 14 anos para servir como babá de suas filhas. Foi nesse período que ela ficou grávida pela primeira vez. Hemings teve 6 filhos ao longo de sua vida, e um exame de DNA realizado em 1998, em um de seus descendentes, confirmou que Thomas Jefferson engravidou a jovem.

No final das contas, Jefferson sempre cumpriu seu papel de diplomata que dizia advogar para “todos os homens do território americano”, visando construir o país “mais livre do continente”. 

Em sua defesa, entre 1778 e 1784, ele até elaborou legislações que esperava que resultassem na abolição da escravidão. Porém, ele sempre sustentou a decisão de que a emancipação teria que ser um processo democrático decidido por todos, ou seja, pelos brancos escravocratas.

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Quanto mais Jefferson defendeu a abolição e não fez nada para mudar seu estado, ela se tornou cada vez mais arraigada. Entre 1790 e 1830, a população escravizada em Virgínia foi de 292 mil para 469 mil.

O presidente até tentou erodir a escravidão entre os virginianos ao desencorajar o cultivo de safras que dependiam do trabalho escravo, como as do tabaco, introduzindo safras de trigo, açúcar, arroz de grão curtos, oliveiras e uvas para vinhos; que, teoricamente, dependeriam de pouco ou nenhum trabalho escravo.

Em 1800, a “mercadoria” mais lucrativa do Estado já não era mais as terras e colheitas, e sim os escravizados.

A crença de Thomas Jefferson em acabar com a escravidão nunca mudou, e seu plano gradual de emancipação, pensando em melhorar o sistema aos poucos até que erradicasse o problema, foi usado como argumento para sua perpetuação.

Após sua morte, os defensores do sistema alegaram que, se a escravidão pudesse ser melhorada, então a abolição seria desnecessária.

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