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'Renascer' e outras 10 novelas que inovaram ao falar de preconceito

Recentemente, a Globo disponibilizou a clássica novela Renascer, de Benedito Ruy Barbosa, em seu serviço de streaming. Entre a saga rural de José Inocêncio (Leonardo Vieira/Antônio Fagundes), havia o drama da jovem Buba. Lá pelas tantas, em uma cena emocionante, Buba revela seu grande segredo: ela é "hermafrodita" (termo já em desuso para pessoas intersexo).

Buba nasceu com as duas genitálias, masculina e feminina, mas seu pai decidiu criá-la como menino, batizando-a como Alcides. Porém, ela não se identificava dessa forma e decidiu viver como mulher — mas seus documentos continuaram masculinos. Ela também sonhava em ser mãe de um filho de seu amado, então cuida de uma menina de rua para adotar o filho dela.

A história comoveu o público da época e transformou a carreira da atriz Maria Luísa Mendonça, que viveu Buba. Mas essa não foi a primeira nem a última vez que os autores de novelas usaram suas histórias para falar das transformações da sociedade no que diz respeito a gênero e sexualidade. Na lista a seguir, a gente vai mostrar, em ordem cronológica, dez produções que inovaram nesse sentido.

A listagem foi inspirada no especial Orgulho Além da Tela, série sobre a representatividade LGBTQIA+ nas novelas. Lançada recentemente, está disponível no Globoplay em três episódios.

1. Assim na Terra como no Céu (1970)

Imagem: Globo/ReproduçãoImagem: Globo/Reprodução

O primeiro personagem claramente homossexual das novelas foi vivido por Ary Fontoura nessa novela de Dias Gomes. A história central era a investigação do assassinato de uma moça, noiva de um homem que largou a batina para se casar. Já o personagem de Ary, Rodolfo Augusto, era um costureiro que fazia parte do núcleo cômico, completamente alheio à trama central. 

Todos os registros da novela se perderam em incêndios na Globo nos anos 1970, mas conta-se que o personagem acabou sendo caricato — já que essa era a única maneira que o público aceitaria esse personagem. A censura até implicou com Rodolfo Augusto, mas ele permaneceu.

2. O Rebu (1974)

Imagem: Rede Globo/ReproduçãoImagem: Rede Globo/Reprodução

Essa história de Bráulio Pedroso é inovadora em vários sentidos e já entrou em nossa lista dos melhores "quem matou" das novelas. Nessa história, também tinha um caso homossexual, ainda que muito velado. Com o passar dos capítulos, descobre-se que o velho Mahler (Ziembinski) sustentava o garotão Cauê (Buza Ferraz) e tinha ciúmes dele. O caso ficou implícito.

Esse é o motivo que leva Mahler a matar Sílvia (Bete Mendes), como é descoberto no final da história. Durante toda a novela, os dois personagens aparecem tristes, como se o caso fosse um peso em suas vidas. Mesmo assim, Bráulio Pedroso inovou com essa abordagem — além disso, as duas personagens secundárias saem juntas de uma festa no último capítulo, sugerindo uma possível paixão entre ambas.

Depois de O Rebu, houve outro personagem que sofria por ser homossexual nas novelas: Agenor. Este foi vivido por Rubens de Falco em O Grito (1975). Porém, tudo era feito de forma bem implícita, sem que ninguém falasse disso diretamente, para não incomodar a censura.

3. Brilhante (1981)

Rede Globo/ReproduçãoRede Globo/Reprodução

Em 1978, Gilberto Braga escreveu seu primeiro personagem gay: o mordomo Everaldo, de Dancin' Days. Mas o próprio Giba admite que era algo caricato, já que era o possível para a época. Ainda assim, poucos anos depois, ele tentou fazer uma abordagem mais séria.

A novela Brilhante é centrada na família Newman, comandada pela rígida matriarca Chica (Fernanda Montenegro). Ela quer, a qualquer custo, que seu filho Inácio (Denis Carvalho) "tome jeito na vida", case-se e assuma a direção das empresas da família. Só que o rapaz é gay.

Chica tenta contratar a mocinha da novela (Vera Fischer) para casar-se com o rapaz por dinheiro, mas ela recusa. Leonor (Renata Sorrah) acaba aceitando, porém o casamento não dá certo, e Inácio acaba terminando a novela viajando com um "amigo".

Claro que nada disso foi falado abertamente durante a novela. Chica só se mostrava incerta sobre o filho e precisava pagar para uma moça casar com ele. Tudo nas entrelinhas. Só em um capítulo Vera Fischer menciona o termo "problemas sexuais", e a cena não foi censurada.

4. Vale Tudo (1988)

Imagem: Rede Globo/ReproduçãoImagem: Rede Globo/Reprodução

Mais uma inovação com Gilberto Braga, dessa vez com duas moças lésbicas. Embora Laís e Cecília não trocassem carinhos e nunca afirmassem ser um casal, elas estavam sempre juntas e tinham uma pousada em Búzios "em sociedade". Para bom entendedor...

Há uma lenda urbana de que Laís (Lala Deheinzelein) foi morta porque o público não aceitou o casal lésbico. Isso é mentira: o plano dos autores era mesmo matar a personagem e mostrar o drama de Cecília (Cristina Prochaska), que perde a pousada das duas. O casamento entre pessoas do mesmo sexo era impossível na época, então os cônjuges não tinham direitos. 

O drama é resolvido já no meio da novela, e Cecília fica com a pousada. No fim da história, ela até conhece outra moça. Por mais que as palavras "lésbica" ou "casal" nunca tenham sido usadas para se referir às duas, o tema já foi tratado mais abertamente.

7. Tieta (1989)

A história de Tieta é simples: a personagem-título é escorraçada de Santana do Agreste por ser muito moderna e volta, 20 anos depois, para virar a cidade de "cabeça para baixo". Ela tem "negócios" em São Paulo, que a deixam rica, que são cuidados por sua procuradora Ninete.

O assunto do preconceito é abordado quando Ninete — citada inúmeras vezes ao longo dos capítulos — brota em Santana do Agreste no meio da história. Ela é vivida por ninguém menos que Rogéria. Em uma cena hilária, Ninete é assediada por um homem em um bar e revida com um soco na cara dele, dizendo: "E fique sabendo que meu nome é Waldemar!".

No capítulo seguinte, a cidade inteira está falando disso. Há outra cena sensacional em que Tieta (Betty Faria) discute com Ricardo (Cassio Gabus Mendes) sobre Ninete: ele é contra, mas ela diz que todos devem viver sem preconceitos. É a cena embedada logo acima. 

6. A Próxima Vítima (1995)

Imagem: Rede Globo/ReproduçãoImagem: Rede Globo/Reprodução

Com a redemocratização e o fim da censura (Vale Tudo foi a última novela a sofrer com isso), os autores tiveram mais liberdade para tratar desses assuntos. Alguns personagens puderam aparecer, como José Luís (de Mico Preto, 1990) e a própria Buba, que citamos no início. 

Anos depois, outro grande progresso aconteceu quando Jefferson e Sandrinho (Lui Mendes e André Gonçalves) viveram o primeiro casal gay que discutiu o tema abertamente nas novelas. 

O autor Sílvio de Abreu teve o cuidado de mostrar os meninos como bons filhos, construir bem a amizade dos dois, até chegar na revelação da sexualidade. A mãe de Sandrinho o aceita, mas a família de Jefferson tem mais dificuldade — porém, ambos acabam juntos e felizes. É interessante citar que Jefferson era negro, mostrando a primeira família negra de classe média alta das novelas. Outro tipo de preconceito abordado nessa história.

7. As Filhas da Mãe (2001)

Depois da aceitação de Jefferson e Sandrinho em A Próxima Vítima, Sílvio de Abreu achou que o público já estava mais receptivo e trouxe um casal de lésbicas na sua novela seguinte, Torre de Babel (1998). Sabia-se que uma das duas ia morrer, e a outra ia se aproximar da personagem de Glória Menezes como amiga. 

A ideia de Sílvio era mostrar a amizade de uma pessoa gay e outra hétero, mas a imprensa logo espalhou que Glória Menezes "ia virar sapatão", então a rejeição foi tão grande que o autor precisou matar as duas na explosão do shopping, que era o mistério da novela.

Em 2001, o mesmo autor foi escrever uma comédia para o horário das 19h: As Filhas da Mãe. Era a história de 3 herdeiras de uma mãe sumida, que brigavam por um resort. Só que 1 delas tinha nascido menino: Ramon virou Ramona, vivida por Cláudia Raia. Logo nas primeiras cenas, ela já chega mostrando as provas de sua cirurgia. Ela vive um romance com Leonardo, um homem machista e preconceituoso, até que o casal tem um final feliz.

Vale mencionar que antes de Ramona, tivemos Sarita Witt (Floriano Peixoto), da novela Explode Coração (1995). Ela era meio drag queen e transexual, sem definir ao certo a sua identidade. Mesmo assim, abriu caminho para que outros personagens surgissem.

8. Mulheres Apaixonadas (2003)

Aqui já estamos chegando na atualidade — com o tema sendo retratado de forma muito mais aberta e honesta. Com isso, as adolescentes Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli) se tornaram uma das principais histórias da novela, movendo a torcida do público. A mãe de Clara era preconceituosa e tentava fazer tratamentos na filha, além de impedir o romance das meninas.

Logo depois, em Senhora do Destino (2004), houve mais um passo: Jennifer e Eleonora têm um romance um pouco mais adulto. Em América (2005), Júnior é o filho de uma fazendeira que busca masculinizar o filho. Ele se envolve com o peão Zeca e a torcida por um beijo dos dois no último capítulo foi grande. O beijo foi gravado, mas não exibido.

9. Amor à Vida (2013)

Imagem: Rede Globo/ReproduçãoImagem: Rede Globo/Reprodução

Essa entrou na lista das novelas que pararam o Brasil e entra aqui pelo mesmo motivo: o beijo de Felix e seu "Carneirinho", no último capítulo. Felix (Mateus Solano) começa a novela como o vilão, mas se regenera e angaria a torcida do público. No fim, compreende-se que ele era uma vítima do preconceito do pai, César (Antônio Fagundes). A última cena — em que os dois dizem "eu te amo" — é uma das mais comoventes da teledramaturgia brasileira. 

10. A Força do Querer (2017)

Imagem: Rede Globo/ReproduçãoImagem: Rede Globo/Reprodução

Essa foi reprisada recentemente e está fresquinha na memória do público, então vamos só relembrar: uma das tramas paralelas era a de Ivana (Carol Duarte), uma menina arredia e meio "masculinizada". Ao longo da história, ela entende que, na verdade, é um homem trans, Ivan. 

A novela colocou o ator Tarso Brant para ser um dos amigos de Ivan, que o ajuda na sua descoberta. Também trouxe Nonato (Silvero Pereira) — um homem que se transforma na exuberante Elis Miranda à noite. Além disso, escalou a atriz trans Maria Clara Spinelli em um papel apenas de mulher, sem discutir transexualidade. Afinal, ela é uma atriz e pode fazer qualquer papel. 

Para terminar, poderíamos citar várias outras novelas recentes que abordaram esse assunto: Insensato Coração (2011), Em Família (2014), Segundo Sol (2018), A Dona do Pedaço (2019) e por aí vai... A questão é que as pessoas LGBTQIA+ fazem parte da sociedade e vivem histórias como qualquer outra pessoa. Se tantas histórias são feitas sobre pessoas heterossexuais e cisgêneras, por que não contar um pouco das outras também, não é mesmo?

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