Loteria de bebês: o início do sistema de adoção no mundo

Na Paris de 1911, o conceito de sorteios e rifas foi levado para outro nível quando surgiu a infame “loteria de bebês”. Sem nenhum eufemismo, a expressão quer dizer exatamente o que você pensou: uma espécie de bolão para doar crianças.

Basicamente tudo o que sabemos sobre essa prática vem de um artigo publicado na edição de janeiro de 1912 da famosa revista Popular Mechanics. Naquela época, o índice de abandono de crianças em áreas urbanas na Europa atingiu níveis alarmantes, assim como a exploração através do trabalho infantil.

Muitas delas foram adotadas por empresários para trabalharem com mão de obra barata em troca de um prato de comida, sendo submetidas a trabalhos forçados com equipamentos perigosos sem supervisão durante jornadas diárias excruciantes.

E, por incrível que pareça, esse cenário era um dos melhores que elas poderiam encontrar.

O problema das ruas

(Fonte: e'Baum's World/Reprodução)(Fonte: e'Baum's World/Reprodução)

A vida nas ruas arrastava milhares de crianças para o crime e também as desumanizava perante a sociedade. Os orfanatos não eram suficientes para suprir a demanda de órfãos, e também havia aqueles deixados à própria sorte na sarjeta mais próxima que os pais conseguissem encontrar.

Quem conseguia chegar em alguma instituição de cuidado do governo se encontrava em uma situação apenas ligeiramente melhor. Nos Estados Unidos, por exemplo, somente em 1912 foi criado o Departamento da Criança dos EUA, uma agência federal organizada para investigar mortalidade infantil, taxa de natalidade, inspeção de orfanatos, tribunais juvenis, deserção, trabalho infantil e doenças infantis. Até então, não havia nenhum órgão regulador dessa verdadeira calamidade pública.

(Fonte: The Vintage News/Reprodução)(Fonte: The Vintage News/Reprodução)

O sistema de assistência social e as agências de adoção, privadas ou públicas, só surgiram no século XX, então antes disso as crianças e os jovens dependiam inteiramente de orfanatos — e de suas políticas rudimentares. Sem nenhum apoio ou lei que resguardasse os interesses infantis, fazer uma rifa de crianças para tirar do atoleiro algumas instituições abarrotadas foi a "solução" encontrada.

Além disso, por mais doentio que possa parecer, foram tais rifas e sorteios de infantes que configuraram um dos primeiros passos da sociedade em uma longa linhagem de evolução do cuidado infantil. No entanto, não é nada para ser celebrado.

A revolução

(Fonte: Gallery 19C/Reprodução)(Fonte: Gallery 19C/Reprodução)

Como aponta o artigo da Popular Mechanics, a direção do hospital pioneiro na rifa de crianças, o Paris Foundling Hospital, recebeu consentimento das autoridades para realizar o evento, que visava encontrar um lar para grande parte de seus órfãos e arrecadar dinheiro para a instituição.

Uma investigação dos vencedores era feita por membros encarregados do orfanato em questão para determinar se eram plenamente capazes de acolher uma criança em seus lares — ainda mais em um tempo em que era comum que as pessoas maltratassem e expusessem as crianças de maneira deliberada.

(Fonte: The Vintage News/Reprodução)(Fonte: The Vintage News/Reprodução)

Por muito tempo, a loteria de bebês foi um sucesso de participantes e arrecadação em que as pessoas celebravam cada sorteio como um evento comemorativo. Ainda que os orfanatos tenham lidado com o problema de maneira totalmente equivocada, como se as crianças fossem mercadorias, muitos ofereceram o básico para ajudar os jovens a sobreviverem além de seus muros.

No final das contas, apesar de tudo, essas crianças tiveram mais chances do que aquelas que terminaram na criminalidade da cidade ou nos fundos de uma fábrica, morrendo de acidentes ou de doenças nos dormitórios.

Pelo bem ou pelo mal, a loteria de bebês serviu para lançar uma luz no problema social crescente que precisava de atenção e resolução. Era um olhar para o futuro, mesmo que de maneira errada.

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