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Por que o povo escocês odeia a gaita de foles?

Em 1947, como um esforço do pós-Segunda Guerra Mundial para proporcionar um espírito de renascimento, foi estabelecido o Festival Internacional de Edimburgo, para reunir artistas de diferentes países e celebrar a arte e a cultura. O sucesso foi tanto que hoje é celebrado todo mês de agosto e é composto por várias subcelebrações e eventos que apresentam teatro, música, dança, comédia, ópera, literatura e artes visuais. Isso faz dele um dos maiores e mais renomados festivais de artes do mundo.

Entre as celebrações, se destaca o Royal Military Tattoo de Edimburgo, famoso por acontecer diante do Castelo de Edimburgo, responsável por atrair cerca de 200 mil pessoas e ser transmitido para mais de 100 milhões de espectadores em todo o mundo. Essa subcelebração do festival central é focada na exibição de música, performances de banda, dança e de habilidades militares. Tudo isso tendo a famosa – e infame – gaite de foles como destaque do evento.

É por isso que existe a longa ideia de que o antigo instrumento estridente e dissonante é a paixão do povo escocês, mas, na realidade, não é bem assim. Esse é o motivo pelo qual o povo escocês odeia a gaita de foles.

Reid, o gaiteiro

(Fonte: Wikipedia/Reprodução)(Fonte: Wikipedia/Reprodução)

Para entender isso é preciso voltar em 16 de abril de 1746, quando aconteceu a Batalha de Culloden, um confronto rápido, porém brutal, que aconteceu ao norte de Inverness, na Escócia. A batalha foi o clímax e o resultado do Levante Jacobita do ano anterior, liderado por Carlos Eduardo Stuart, o Jovem Pretendente, cujo intuito era restaurar a dinastia dos Stuart ao trono britânico.

A perda dos jacobitas, liderados por Charles Edward Stuart, contra as forças do governo britânico, que eram leais à dinastia hanoveriana, foi devastadora e resultou em uma série de consequências. A começar que, para dar o exemplo àqueles que se rebelaram contra a Coroa, foi escolhido alguns rebeldes escoceses para serem julgados por traição em York, na Inglaterra.

(Fonte: GettyImages/Reprodução)(Fonte: GettyImages/Reprodução)

Entre eles, estava James Reid, um gaiteiro, que acompanhou as tropas rebeldes durante a batalha. Ele se declarou inocente alegando que não portava armas durante o conflito, apenas sua gaita de foles. No entanto, o chefe da comissão para casos de traição, o barão-chefe da Corte da Fazenda, disse que os regimentos das Terras Altas “nunca marcharam sem um flautista; e por isso a gaita de foles, aos olhos da Lei, era um instrumento de guerra”. Portanto, Reid foi considerado culpado de traição e enforcado, em 15 de novembro de 1746.

Essa foi a primeira vez na história que um instrumento musical foi considerado uma arma de guerra, abrindo um precedente que durou centenas de anos. A partir disso, as gaitas apreendidas em conflitos passaram a ser listadas como armas, juntamente com sabres, fuzis e munições.

A proibição

(Fonte: GettyImages/Reprodução)(Fonte: GettyImages/Reprodução)

Em 1996, um homem chamado David Brooks foi preso por tocar o instrumento pelas ruas de Hampstead Heath, em Londres. Ele foi acusado sob uma lei londrina de 1890 que proibia tocar instrumentos musicais em público sem permissão.

O advogado de Brooks argumentou que seu cliente não poderia ser preso ou multado sob a lei de 1890 porque a gaita de foles não era considerada um instrumento musical perante a Lei, mas uma arma de guerra. O magistrado Michael Johnstone questionou a defesa, uma vez que Brooks então poderia ser acusado de portar uma arma perigosa e ser preso em vez de multado.

No final das contas, o juiz declarou o caso de Reid um erro judiciário, mas esclareceu que a gaita de foles não é considerada apenas um instrumento musical em tempos de guerra. Portanto, ele foi apenas multado em 15 libras por tocar sem permissão pelas ruas.

Em 1999, um britânico chamado Clive Hibberts, morador da Royal Mile, principal centro histórico de Edimburgo, lançou uma campanha contra as gaitas de goles porque não aguentava mais ouvir transeuntes que se reuniam para tocar o instrumento. Apesar de a campanha em proibir o instrumento tenha falhado, seu intuito, não.

(Fonte: GettyImages/Reprodução)(Fonte: GettyImages/Reprodução)

Em 2008, a prefeitura de Edimburgo ameaçou prender qualquer gaiteiro que tocasse o instrumento na Royal Mile. Isso porque funcionários reclamavam que recebiam até 100 ligações diárias sobre o barulho ensurdecedor e irritante do instrumento. Como resultado, os gaiteiros são obrigados a assinar uma espécie de contrato de comportamento que os proíbe de soprar a gaita de foles em alguns bairros.

“Fui preso seis vezes e é sempre na Inglaterra. O preconceito das autoridades e dos comerciantes só piora cada vez mais”, disse o gaiteiro Shaun Cartwright ao Daily Mail.

Três anos depois do ocorrido, Londres aprovou uma legislação proibindo músicos de rua e qualquer outra pessoa a reproduzir ou tocar o som da gaita de foles em alto-falantes.

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