Os estudos antiéticos de malária da Penitenciária Stateville

Com o ataque das tropas imperiais japonesas ao Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, inserindo os Estados Unidos no cenário da Segunda Guerra Mundial, a região sudoeste do Pacífico se tornou uma frente de guerra entre os Aliados e o Japão – e também um local de doença e morte.

Em uma região de muita chuva, com pântanos, altas temperaturas e mata cerrada em um terreno montanhoso, o local se tornou um verdadeiro viveiro de mosquitos, onde os vetores da malária prosperaram em meio aos soldados. Muito embora a disenteria e o beribéri (doença caracterizada pela insuficiência de vitamina B2 no organismo) tivessem grande impacto, a malária causou mais vítima dos que o inimigo oriental, chegando até a determinar o resultado da guerra em muitas ocasiões, tamanha eram as baixas que causava. Isso provou que as medidas preventivas desenvolvidas pelo Exército antes da guerra não serviram de nada para quando o momento de aplicá-las chegasse, ainda mais em situações difíceis como aquela.

Diante a esse cenário de calamidade, o Exército viu a necessidade de desenvolver novos tratamentos contra a malária, uma vez que o quinino não estava mais disponível devido o controle do Japão sob as Filipinas e a Indonésia, principais fornecedores do fármaco. Sendo assim, eles não enxergaram outra saída senão a experimentação de novos tratamentos de maneira massiva em humanos, a fim de diminuir o mais rápido o possível o efeito da doença e seu rumo infeccioso através dos milhares de militares nos campos de batalha.

A prisão

(Fonte: The Times and Democrat/Reprodução)(Fonte: The Times and Democrat/Reprodução)

Em 1944, o Comitê de Pesquisa Médica dos Estados Unidos, em parceria com a Universidade de Chicago, permitiu que os testes fossem feitos em presos da Penitenciária de Stateville, localizada em Illinois. Ao lado de Ray Dern e Ernest Beutler, o nefrologista Alf Alving foi o responsável por dirigir e supervisionar a divisão de pesquisa clínica que seria estabelecida na prisão, bem como todos os testes que seriam desempenhados lá.

Intitulado "Projeto de Pesquisa de Malária", o estudo tinha o intuito de entender os efeitos de vários medicamentos antimaláricos, principalmente os compostos 8-aminoquinolina, através da infecção de mosquitos com uma cepa da malária do plasmódio vivax proveniente de um paciente militar que já havia se infectado em guerra.

(Fonte: Encyclopedia of Chicago/Reprodução)(Fonte: Encyclopedia of Chicago/Reprodução)

Os cientistas usaram análogos da pamaquina como tratamento experimental, que era uma alternativa à quinina, porém extremamente tóxico, por isso havia sido descartado antes. Eles formularam várias doses sempre altas com o objetivo de estabelecer uma margem máxima de segurança e observar a manifestação de efeitos colaterais – que foram muitos e causaram morte aos presos, muitos dos quais agonizaram dias com os efeitos.

O resultado dos experimentos foram muito divulgados, inclusive em artigos manipulados da revista Life, com depoimentos dos presos que foram obrigados a se submeterem ao procedimento. 

No entanto, a pesquisa teve pouco impacto nos futuros métodos de tratamento da malária, e seu principal legado foi a falta de ética e uso indiscriminado de humanos em seu tratamento – seja lá quem eles fossem.


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