Primeiro híbrido entre raposa e cachorro do mundo é encontrado no Brasil após atropelamento

18/09/2023 às 09:302 min de leitura

Em 2021, o atropelamento de um animal selvagem levou a descoberta inédita no mundo todo: um híbrido entre um cão doméstico e uma raposa do pampa. Segundo o artigo que relata o caso, o animal, até então tido como uma raposa do pampa, muito comum no Rio Grande do Sul, foi atropelado na cidade de Vacaria.

Após ser transferido para o Centro de Conservação e Recuperação de Vida Selvagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisadores notaram que as características fenotípicas do animal não eram compatíveis com nenhuma das espécies de caninos silvestres conhecidas no estado.

Chamavam a atenção características como pele escura, diferente das tonalidades brancas ou avermelhadas das raposas da região, o formato das orelhas e tamanho. O animal também apresentou comportamento estranho, recusando ração, mas latindo como cachorro.

Testando o híbrido

Fêmea híbrida. (Fonte: Flávia Ferrari/Reprodução)Fêmea híbrida. (Fonte: Flávia Ferrari/Reprodução)

A partir daí, os pesquisadores decidiram realizar testes genéticos e cito-genéticos, a partir da biópsia da pele do animal, para entender a origem dele. Os resultados comprovaram que o animal é um híbrido entre cachorro doméstico (Canis lupus familiaris) e a raposa do pampa, também conhecida como graxaim (Lycalopex gymnocercus). Os testes genéticos mostraram que a fêmea híbrida possui 39 cromossomos de cachorro e 37 da raposa.

A ocorrência de animais híbridos é comum quando realizada entre espécies do mesmo gênero. No entanto, com gêneros diferentes, como o que ocorreu no RS, é extremamente raro. Isto porque a diferenciação das espécies gera barreiras reprodutivas que são dificilmente ultrapassadas. Este foi o primeiro caso de híbridos entre caninos registrado na América do Sul. Na América do Norte e na Europa, casos envolvendo espécies de lobo e cães domésticos já haviam sido registrados.

Riscos para espécies selvagens

(Fonte: Thales Renato Ochotorena de Freitas/Bruna Elenara Szynwelski/Reprodução)(Fonte: Thales Renato Ochotorena de Freitas/Bruna Elenara Szynwelski/Reprodução)

Segundo os autores do artigo, a ocorrência de um híbrido pode ter sido ocasionada pelo efeito dos seres humanos sobre o habitat das espécies selvagens. Com a diminuição das matas, os caninos precisam se aventurar cada vez mais perto de aglomerados urbanos, onde a população de cães domésticos é grande.

O estudo cita que mais pesquisas são necessárias para comprovar se o indivíduo híbrido é capaz de se reproduzir. A família Canidae é originária da América do Norte e se espalhou em várias espécies ao longo de 40 milhões de anos. Atualmente são 12 gêneros e 36 espécies de animais.

Estima-se que os gêneros Lycalopex gymnocercus e Canis lupus familiaris tenham se distinguido há pelo menos 6 milhões de anos. Além disso, a ocorrência de um híbrido pode ser perigosa, pois torna os indivíduos silvestres suscetíveis a uma série de doenças para as quais os cães domésticos já criaram defesas.

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