Médico do século 19 achava que o nariz tinha conexão com distúrbios sexuais
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Médico do século 19 achava que o nariz tinha conexão com distúrbios sexuais

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Imagine se os problemas sexuais tivessem alguma ligação com o nariz? Pois era isso que o pensava Wilhelm Fliess, um médico alemão especializado em otorrinolaringologia (área que engloba condições do nariz, ouvido e garganta). Exercendo a medicina do final do século 19 e início do 20, Wilhelm tinha umas ideias um tanto estranhas sobre o funcionamento do corpo humano.

O médico era obcecado pela estrutura nasal e acreditava que ela era a fonte de quase todos os males imagináveis, mas também achava que por ela poderia vir a cura deles. De acordo com o que ele pensava, o nariz era o responsável por tudo, desde dores de cabeça a pesadelos, vertigem e, principalmente, distúrbios sexuais.

Tanto que Wilhelm tinha certeza que a estrutura do olfato estava ligada aos órgãos genitais através do sistema nervoso. O doutor afirmava que o nariz era a raiz de vários distúrbios, sendo responsável, inclusive, por cólicas menstruais e “depressão pré-menstrual” (a atual TPM). Ele também achava que a parte nasal estava por trás de abortos e disfunções sexuais.

A neurose nasal reflexa

Com esse pensamento, ele criou a teoria da neurose nasal reflexa, que dizia haver uma conexão entre a mucosa nasal e os órgãos genitais. Baseado nessas crenças, para ele, a solução para curar essa tal “neurose” seria remover parte da mucosa por uma forma de cauterização e os ossos internos do nariz. Ai!

Depois de identificar os "pontos genitais" dentro das narinas, Fliess removia essas partes de seus pacientes com bisturis ou mesmo soluções ácidas. Alguns cortes rápidos e, voilá, o paciente estava supostamente curado de sua neurose por via nasal.

A amizade com Freud

WikipediaFreud, à esquerda, e Fliess, na época de sua amizade

O médico era tão crente que a prática tinha fundamento que, certa vez, ele afirmou que poderia realizar um “aborto” através do nariz de uma mulher. E se a doença do paciente não fosse tão séria para uma cirurgia nasal, a sua recomendação era apenas para a pessoa dar uma cheirada em uma carreira de cocaína.

Sem surpresa, essas crenças bizarras atraíram a atenção de Sigmund Freud. O famoso médico neurologista (e criador da psicanálise) começou a enviar os seus clientes para a mesa de cirurgia de Fliess e logo ele próprio passou a frequentar o consultório do colega.

Freud era usuário de cocaína, pois defendia o seu uso como estimulante e analgésico, realizando diversas pesquisas com o uso da substância. Tanto que escreveu diversos artigos sobre as qualidades antidepressivas dela. Além disso, por recomendação do próprio amigo Wilhelm, Sigmund passou a usar a droga também para o tratamento da tal “neurose nasal reflexa”, sofrendo ainda uma cirurgia para tratar o que era considerado um problema.

O caso de Emma Eckstein

Apesar de não ter registros sobre se as cirurgias surtiam realmente efeitos positivos ou não nos pacientes, um caso desastroso acabou de vez com a reputação do médico alemão. Emma Eckstein, que foi uma paciente encaminhada por Sigmund Freud, sofreu uma cirurgia com Wilhelm para a cura da neurose nasal e outras “doenças” da era vitoriana, diagnosticadas como “histeria” e “masturbação compulsiva” (o que era considerado ruim para a saúde mental na época).  

Num primeiro momento, a cirurgia parecia um sucesso, mas algumas semanas depois, a infecção tomou conta e o sangue começou a jorrar do nariz de Eckstein. O rosto dela começou a ficar inchado e desfigurado, então ela expeliu uma imensa quantidade de pus e um pedaço de osso do tamanho de uma moeda.

Com a paciente no leito de morte, Freud agendou uma segunda operação com um médico diferente, que fez uma descoberta repugnante: Fliess havia deixado acidentalmente meio metro de gaze dentro do nariz de Emma Eckstein.

Horrorizado, Freud cortou seus laços de amizade com Fliess e os dois nunca mais se falaram. Depois desse fato, Fliess praticamente desapareceu da história da medicina e tal neurose nasal reflexa caiu em desgraça com a comunidade médica.

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