Lincoln Gordon: embaixador americano contribuiu para o Golpe de 1964

Desde o primeiro momento em que pisou no Brasil, em 1960, o nova-iorquino Lincoln Gordon já trabalhou para evitar que os países da América Latina fossem "sugados pelo socialismo" ao criar o programa Aliança para o Progresso, que contava com a ajuda do governo dos Estados Unidos para evitar o que era considerado uma "iminente catástrofe política".

No ano seguinte, ele se tornou oficialmente embaixador dos EUA no Brasil e começou a sua mobilização em conluio com a oposição ao então presidente João Goulart para tramar o Golpe de Estado de 1964, que derrubou o governo de Jango e instaurou uma ditadura militar no Brasil até 1985. Na época, a revista Time definia Gordon como o “maior especialista de Kennedy em economia latino-americana”.

A carta

Lincoln Gordon. (Fonte: BBC/Reprodução)Lincoln Gordon. (Fonte: BBC/Reprodução)

Em 27 de março de 1964, às portas do golpe de Castello Branco, Gordon despachou um telegrama ultrassecreto à Casa Branca pedindo aos Estados Unidos (EUA) que concedessem apoio logístico ao Brasil enviando armas e combustível, alegando que Jango desempenhava "uma conduta ditatorial" e conspirava junto do Partido Comunista Brasileiro.

“Tanto eu quanto meus assessores acreditamos que nosso apoio deve ser dado aos golpistas para ajudar a advertir um desastre grande aqui, que pode transformar o Brasil na China da década de 1960”, escreveu o embaixador em um dos trechos de sua carta, exposta pelo governo norte-americano.

(Fonte: Picryl/Reprodução)(Fonte: Picryl/Reprodução)

Em 31 de março de 1964, começou a chamada Operação Brother Sam, em que os EUA apoiaram o golpe de Estado brasileiro enviando 100 toneladas de armas leves e munições; navios petroleiros com capacidade para 130 mil barris de combustível; 1 esquadrilha de caças; 1 navio de transporte de helicópteros com a carga de 50 veículos com tripulação e armamento completo; 1 porta-aviões classe forrestal; 6 destróieres; 1 encouraçado; e 25 aviões C-135 para transporte de material bélico.

O despertar

(Fonte: Cursando História/Reprodução)(Fonte: Cursando História/Reprodução)

Em 1968, pouco antes do Ato Institucional número 5 (AI-5) ser promulgado, o embaixador disse esperar que o regime tivesse uma natureza semiautoritária, visto que, em "casos como o do Brasil", esse tipo de regime era combinado com uma imprensa livre muito crítica, congresso eleito, um conjunto de legislaturas estaduais e municipais, bem como vida política intensa. Assim, quando a pressão internacional começou a agir contra o Brasil com as denúncias dos horrores impostos pelo AI-5, Gordon tentou se desvincular da imagem do país e foi embora.

(Fonte: Toda Matéria/Reprodução)(Fonte: Toda Matéria/Reprodução)

Durante sua visita ao Brasil, em 1979, o ex-embaixador demonstrou seu desapontamento com os militares e o regime brasileiro, revelando que ficou chocado com o movimento político-militar desvirtuado do Golpe de 1964. Além disso, Gordon também declarou que acreditava que o regime militar fosse durar um período curto, como planejado, e não que fosse se tornar um terror ditatorial durante 15 anos.

“No caso do Brasil, houve o chamado ‘milagre econômico’ nas últimas 2 décadas, mesmo que tenha destruído a democracia brasileira através do nosso apoio a um golpe militar”, disse o ativista político Noam Chomsky, em uma palestra em 1985 na Universidade de Harvard. “Nós ajudamos a instalar um estado seminazista na América Latina, com tortura de alta tecnologia e tudo o que se possa imaginar”.

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