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Como o trabalho de Mary Gartside transformou a Teoria das Cores

Uma propriedade física fundamental da luz, que existe independente da existência dos seres humanos, as cores atravessaram a humanidade com diferentes papeis ao longo dos séculos, construindo seu caminho até passarem de uma simples paleta de cores básicas criada pela primeira vez há 40 mil anos para elaborar desenhos no interior de cavernas, até desempenhar um papel fundamental em todos os aspectos da psicologia e sociedade.

Os sentimentos de felicidade, tristeza, ira, revolta, medo ou amor que cada cor pode evocar no ser humano estão enraizados nos efeitos psicológicos, no condicionamento biológico e na impressão cultural.

Devido a isso, muitas cores acabaram adquirindo papel importante na transmissão de certas informações e criação de humores ao alterar as ondas cerebrais alfa quando transmitidas do olho para o cérebro, liberando um hormônio que afeta as emoções, a clareza da mente e os níveis de energia; funcionando de maneiras diferentes em homens e mulheres, como estudos de medição de EEG (eletroencefalografia) e pulso já determinaram.

(Fonte: Amazon/Reprodução)(Fonte: Amazon/Reprodução)

Por 2 mil anos, a primeira teoria das cores desenvolvida pelo homem — que nos fez entender como usá-las para criar efeitos diferentes e emoções —, foi feita pelo filósofo grego Aristóteles, que acreditava que as cores haviam sido enviadas por Deus do céu através de raios celestes de luz. Para ele, todas as cores vinham do branco e do preto, ou seja, luz e escuridão, e assim as relacionou com os quatro elementos — água, fogo, terra e ar.

Demorou até a década de 1660 para que as crenças do filósofo fossem substituídas pela teoria das cores proposta pelo físico e matemático inglês Isaac Newton. Durante uma série de experimentos com luz solar e prismas, ele demonstrou que a luz branca clara é composta por 7 cores visíveis e, ao fazer isso, Newton abriu caminho para que outros experimentassem cores de maneira científica, trazendo avanços na óptica, física, química, percepção e no estudo da cor na natureza.

Mas o que Mary Gartside propôs, foi muito além.

Uma mulher à frente do seu tempo

(Fonte: Open Culture/Reprodução)(Fonte: Open Culture/Reprodução)

Em 1810, valendo-se da Teoria das Cores proposta por Newton, o escritor Goethe foi o responsável por estabelecer um padrão visual e filosófico sobre as cores nos séculos seguintes, influenciando diretamente a sociedade e servindo de parâmetro para estabelecer tendências, como a empresa norte-americana Pantone faz.

No entanto, a narrativa teria sido diferente se o trabalho de Mary Gartside, disponível dois anos antes de Goethe, tivesse sido explorado. A professora inglesa de aquarela e pintora botânica, entre 1805 e 1808, publicou os livros An Essay on Light and Shade e  An Essay on a New Theory of Colors, onde compôs os tratados teóricos sobre a cor, se tornando a única mulher do século XIX a ter feito isso, chegando às mesmas conclusões que Goethe fez em sua obra Teoria das Cores (1810).

Ela escreveu sobre como opera o efeito das combinações de cores, o significado de luz e sombra em relação às tonalidades, o olho do observador como centro e origem da percepção da cor, dividindo-as em quentes e frias, focando em seus efeitos sensoriais e várias combinações.

(Fonte: P55.ART/Reprodução)(Fonte: P55.ART/Reprodução)

Gartside demonstrou com pinturas à mão, uma das características mais marcantes e originais de sua obra, uma série de cores para ilustrar visualmente harmonias e contrastes que elas proporcionam. Seus desenhos são considerados os primeiros exemplos de arte abstrata, muito antes do russo Wassily Kandisky ter introduzido a abstração no campo das artes visuais, na primeira metade do século XX.

Só atualmente que a abordagem de Gartside foi definida como prática na experiência e jornada do uso da cor, sendo a ponte entre a abordagem mais científica proposta por Newton e a fenomenológica de Goethe.

“Não há outro exemplo de representação de sistemas de cores que seja tão inventivo e radical quanto as manchas de cores de Gartside”, disse Alexandra loske, curadora do Royal Pavilion de Brighton e Historiadora da Cor, em matéria à BBC Culture.

Em um livro considerado apenas um tipo de “manual para as mulheres” em seu tempo, Mary Gartside conseguiu apresentar duas teorias de forma concreta, palpável e prática melhor do que qualquer um, mas, infelizmente, acabou sendo engolida pelas estruturas da sociedade, bem como o trabalho de muitas mulheres do século XIX e XX.

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