A triste e trágica história de 'Charlie Sem Rosto'

A triste e trágica história de 'Charlie Sem Rosto'

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Lendas urbanas nascem da boca de qualquer um a qualquer momento. A disseminação ao longo do tempo garante que elas se tornem uma parcela de um registro coletivo e público. Pregadas para servirem como um tipo de moral ou advertência, parte de seu caráter também existe devido ao seu tom fabulesco, inventado, mantendo-se em pé por conta daquele famoso ditado popular: “quem conta um conto, aumenta um ponto”.

Mas nem todas são exatamente invenções, pelo menos não o fato em si que a originou. Um exemplo disso é a história do "Homem Verde" ou "Charlie Sem Rosto", como ficou conhecido em meio aos moradores do condado de Lawrence County, no estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, antes de ganhar o mundo.

As crianças cresceram ouvindo de seus pais e avós a história de um homem alto, vestindo terno —, com a pele tão esbranquiçada que parecia esverdeada e com o rosto completamente desfigurado, — que vagava pelo acostamento das estradas durante a noite e a madrugada, fumando seu cigarro e soltando fumaça pelos buracos que haviam em seu rosto . Reza a lenda que sua monstruosidade ia bem mais além de sua aparência. Ele era feroz, atacava os carros e tentava comer gente.

Esse conto ficou tão forte que "Charlie Sem Rosto" ou "O Homem Verde" passou a causar o mesmo nível de horror que o Bicho Papão. Só que nem todo mundo sabe que essa figura, esse homem, realmente existia e que sua história, antes de virar uma fábula assombrosa e repleta de misticismo, na verdade, foi mais dura do que qualquer um poderia inventar.

Eu existi: caindo do céu

(Fonte: Atavist/Reprodução)

Robert Raymond Robinson nasceu no sábado, dia 29 de outubro de 1910, no condado de Beaver County, na Pensilvânia. Filho de Robert Robinson e Louise H. Winnail, Raymond teve o curso de sua vida completamente alterado quando tinha apenas oito anos de idade. Quase no final de uma quarta-feira ensolarada de verão, no dia 18 de junho de 1919, o garoto e quatro de seus amigos estavam vindo de um riacho quando passaram pela ponte Morado, por onde circulava uma linha de bondes que levavam à parte sul de Beaver Falls. Ele foi desafiado por um dos meninos a subir numa das colunas da ponte e checar se o ninho de passarinhos estava cheio de ovos.

No que Raymond aceitou a proposta e escalou uma das seções de ferro da estrutura, seu ombro entrou em contato com um fio de alta tensão da linha de bondes e ele recebeu uma descarga elétrica de 1.200 volts que o lançou do alto num rastro incandescente, como um rojão. A voltagem foi tão destrutiva que queimou seu rosto, removeu seu braço esquerdo na altura do cotovelo, distorceu sua boca, corroeu seu nariz e deixou apenas buracos no lugar das órbitas dos olhos, que foram totalmente derretidos.

Ele foi levado para o Hospital Providence e rapidamente virou manchetes por todo o estado. Apesar dos ferimentos e mutilações, surpreendentemente, Raymond conseguiu sobreviver. Durante meses, o garoto passou por uma longa série de operações em Pittsburgh, na tentativa de restaurar o máximo o possível do que sobrara de seu corpo.

Em 1920, cego, mutilado e com sua autoestima infantil abalada, Raymond Robinson começou uma nova vida longe do lugar onde havia se acidentado. Mas nada nunca mais foi o mesmo.

Eu existi: uma vida de sombras

(Fonte: Devilmanman/Reprodução)

Depois que completou o ensino fundamental, Raymond Robinson nunca mais voltou ao meio social. Ele evitava sair durante o dia por conta das piadas e do quanto sua aparência causava choque nas pessoas que, por vezes, chegavam até a ligar para polícia por acharem que se tratava de algum tipo de brincadeira ou algo do parecido. Também incapaz de se comunicar com sua fala prejudicada, ele passou a viver de artesanato para gerar alguma renda, deixando seu trabalho em consignação em algumas lojas próximas onde os donos tinham mais empatia, ou pena, do que medo dele.

Os que tiveram a chance de conhecer Raymond mais além confessaram que ele era uma pessoa introvertida, porém extremamente amigável, mais do que podia se esperar de alguém que fora banido da sociedade.

Então, por volta de 1940, para que pudesse preservar o que restava de seu corpo funcionando razoavelmente bem, o homem começou a fazer caminhadas noturnas. Para não encontrar nenhuma comoção, elas eram feitas pela Rota Estadual 351, e foi a partir daí que a lenda do "Homem Verde" ganhou vida. Crianças do Ensino Médio o viam andando pelo acostamento ou surgindo em meio aàs árvores, apoiado numa bengala e fumando seu cigarro.

(Fonte: theCHIVE/Reprodução)

Acredita-se que o termo "O Homem Verde" tenha surgido por conta de como as luzes dos carros se refletiam no uniforme militar de flanela que costumava usar, ou pelo tom perolado de sua pele devido à falta de Sol.

Alguns que o viam eram cruéis com ele, dando cigarros com drogas, colocando-o à força em porta-malas e o descartando em lugares que o homem não conhecia. Outros, no entanto, presenteavam-no e até chegavam a convidá-lo para beber, como afirmou certa vez o morador Pete Pavlovic, de 60 anos, em uma entrevista à Post-Gazette.

(Fonte: Altered Dimensions Paranormal/Reprodução)

Foi quando as pessoas passaram a encontrar Raymond com mais frequência vagando pela estrada, no final dos anos 1950 e início dos 1960, que sua presença se tornou mais popular. Esperá-lo surgir das sombras virou uma forma de entretenimento entre os jovens e contar isso para as crianças, um jeito de amedrontá-las.

No dia 11 de junho de 1985, aos 74 anos, Raymond Robinson, ou “Ray” — quando não era apelidado de "Charlie Sem Rosto" e "O Homem Verde" —, morreu sozinho em sua casa por causas naturais. Tendo sua história espalhada para gerações e milhares de pessoas, ele ficou famoso não pela solidão de seus passos, mas pelo desastre que carregava no próprio corpo — que ganhou mais atenção do que deveria.

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