Bridget Cleary, a aterrorizante história real que virou lenda

Bridget Cleary, a aterrorizante história real que virou lenda

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Na Irlanda, o tempo nunca alterou a percepção que as pessoas têm em relação às fadas, embora a mídia tenha romantizado a imagem delas de inúmeras formas. Na antiga cultura celta, de onde tiveram origem, as criaturas são uma ameaça aos humanos. Elas são ruins e têm uma aparência por vezes grotesca e realizam feitos macabros, como devorar crianças e encantar os humanos, atraindo-os para os seus denominados “círculo de fadas” e fazendo-os dançar eternamente em uma ciranda.

Estima-se que existam mais ou menos 60 mil "fortes de fadas" por toda a Irlanda. Essas estruturas geralmente são elevadas em formato de círculo, recortada por arbustos e árvores. De acordo com a história irlandesa, são nesses locais que tanto fadas quanto duendes fazem a sua morada e que qualquer um que ousar perturbá-los será refém eterno da vingança deles e de espíritos antigos. Além disso, há uma infinidade de registros de pessoas que desapareceram após cruzar essas edificações ou passar próximo a elas.

Em 1999, um projeto para construção de estradas que custava cerca de 100 milhões de euros foi adiado e desviado no Condado de Clare. Isso ocorreu depois que os moradores locais protestaram contra o caminho planejado, o qual atravessaria um antigo “forte de fadas”, temendo incitar um processo de retaliação dos seres contra a vida deles. Em 2017, Danny Healy Rae, um representante do parlamento irlandês, culpou a perturbação de um desses fortes pelos danos causados a uma estrada da região.

Independentemente da veracidade ou não das antigas histórias, qual é o impacto que essas crenças, superstições e medos podem causar na vida de uma pessoa? O que aconteceu com Bridget Cleary em meados do século XIX se tornou o melhor sinônimo disso...e também uma das piores lendas!

Uma mulher diferente

(Fonte: Aventuras na História/Reprodução)(Fonte: Aventuras na História/Reprodução)

Bridget Boland nasceu em 1869, a mulher nunca saiu da pequena cidade de Ballyvadlea, que fica a 11 km de Clonmel, no sul da Irlanda. Na época, o local era uma vila que tinha apenas 9 casas, que totalizavam uma população de 31 pessoas. Patrick Boland, o pai de Bridget, era um trabalhador agrícola local e junto à sua esposa sempre trabalharam duro para que a filha tivesse um bom comércio e outros meios de sobrevivência quando a velhice dele chegasse.

Por volta de 1880, Bridget já havia se tornado uma mulher. De estatura média, olhos azuis, pele alabastrina e cabelos castanhos, ela não só se destacava entre as demais por sua beleza quanto pelo ofício que exercia. Considerada estilosa e independente, Bridget foi morar em Clonmel para aprender costura e assim ter uma profissão muito qualificada e considerada respeitável naquela época. Afinal, poucas mulheres compartilhavam da mesma realidade que a jovem ou tiveram oportunidades como aquela.

Cercada por olhares masculinos por conta de sua beleza, foi inesperado que Bridget tenha retribuído a atenção logo de Michael Cleary — um comerciante de barris bem-visto, mas 9 anos mais velho do que ela. Naquele tempo, a diferença de idade era considerada como um escândalo e motivo a mais para fofocas.

Bridget era uma das poucas mulheres alfabetizadas e com roupas elegantes, uma das que integravam a classe emergente de uma sociedade rural. Ela era basicamente o estereótipo do que uma sociedade urbanizada esperava. Todos ficaram ainda mais chocados quando ela anunciou que se casaria.

Os casal fez os votos em agosto de 1887. Nos primeiros anos, porém, Bridget decidiu voltar para Ballyvadlea, pois precisava cuidar de sua mãe que estava muito doente. Michael, por outro lado, decidiu ficar em Clonmel e visitar a esposa apenas nos finais de semana. Isso foi o suficiente para que rumores de traição fossem erguidos pela população da cidadela. O maior deles foi de que Bridget tinha um caso com o seu vizinho de longa data, chamado William Simpson, que era mais novo e tinha 24 anos. A idade parecia ser o fator determinante para que os boatos surgissem, mas o casal nunca se permitiu abalar por isso, ao menos não aparentemente.

"Essa não é Bridget Boland"

Michael Cleary (Fonte: The Irish Times/Reprodução)Michael Cleary. (Fonte: The Irish Times/Reprodução)

Em 1891, a mãe de Bridget faleceu e ela decidiu ficar na cidade para não deixar o pai sozinho. Michael se mudou de vez para perto dela e eles foram morar em uma cabana que ficava próximo da casa da tia paterna dela. O casal era feliz e levava uma vida financeira mais do que estável em comparação com os demais habitantes.

Além de costurar e ser artesã, Bridget também criava galinhas — o que era um empreendimento muito comum para as mulheres no passado. Boland era moderna demais e não se sabe se isso tinha algum impacto em seu relacionamento, pois os homens não costumavam enxergar esse senso de progresso como algo bom.

No dia 4 de março de 1895, segunda-feira, Bridget foi entregar ovos ao primo de seu pai, Jack Dunne, que morava próximo a Kylenagranagh Hill, um local conhecido por abrigar um dos temidos “forte de fadas”. Bridget, no entanto, diferente de muitas pessoas, era fascinada desde pequena pelos seres e costumava ser vista sentada ou caminhando por entre esses fortes.

Estava um dia frio, e a ela totalizou cerca de 10 km com a ida e a volta à casa de seu primo. Assim que chegou, não conseguia se aquecer e passou o dia inteiro confinada na cama, queimando de febre e reclamando de uma dor de cabeça infernal. No decorrer da semana, ela apenas piorou, parecia que não queria lutar contra a doença e isso foi rapidamente percebido por aqueles que a visitaram.

No sábado, o pai de Bridget andou 6 km sob um temporal para implorar ao médico que fosse examinar a sua filha. No entanto, ele só pôde visitá-la na quarta-feira seguinte, após muita insistência de Michael, que também ia até o consultório. O médico diagnosticou que a mulher estava com uma excitação nervosa e bronquite leve. Ninguém foi convencido, pois sentiam que havia algo a mais.

Essa confirmação só veio quando o primo do pai de Bridget, Jack Dunne, foi visitá-la. Assim que colocou os olhos na figura magra, extremamente abatida e cadavérica, o homem declarou: “Essa não é Bridget Boland!”. Ele estava convencido de que aquilo era um changeling. Na cultura popular celta, um changeling é a sósia humana de uma fada após esta ter sequestrado a pessoa e roubado a sua aparência. Segundo a lenda, isso normalmente acontecia para que as criaturas escravizassem os humanos, o que normalmente se dava depois que estes entravam ou eram atraídos para os “fortes de fadas”.

A ideia comeu tanto a mente de Michael Cleary que ele começou a espalhar que a sua esposa de fato estava 5 centímetros mais alta e que estava com um comportamento estranho.

Devolva-me a minha esposa

(Fonte: Historic Collection/Reprodução)(Fonte: Historic Collection/Reprodução)

No oitavo dia, com Bridget só piorando e o médico dizendo que o caso dela era muito grave, Jack convenceu Michael a recorrer a Denis Ganey, uma espécie de curandeiro que era conhecido por sua experiência em casos de changelings e ataques de fadas. Michael visitou o homem no dia seguinte e voltou de seu encontro com uma bebida feita de ervas fervidas em “leite novo”, o primeiro leite produzido por uma vaca após o parto.

Michael deu o preparado para Bridget beber, dando início a um ritual bizarro de agressões. Com mais três primos da mulher, os homens gritavam para que a criatura deixasse o corpo dela. Eles jogaram urina nela enquanto Michael urrava, sacudindo-a: “Você é Bridget Boland, esposa de Michael Cleary, em nome de Deus?!”. Sem força, ela não respondia. Eles ergueram e arrastaram a mulher até a lareira, aproximando o rosto dela sobre as chamas, pois sabiam que o fogo era conhecido por expulsar as fadas.

(Fonte: Historic Collection/Reprodução)(Fonte: Historic Collection/Reprodução)

Quando era meia-noite, o ritual histérico teve fim da pior forma. Ao invés de Bridget responder ao interrogatório do homem, ela simplesmente falou: “Sua mãe costumava ir com as fadas e é por isso que você acha que eu fui com elas também”. Furioso e afrontado, ele enfiou o pé no peito de Bridget, pegou o atiçador de brasas e queimou-a na boca. Ele gritava, descontrolado, para que a fada devolvesse a sua mulher.

O pai de Bridget rasgou a roupa dela, deixando-a apenas com uma camisa de algodão. Michael então espancou a cabeça de Bridget contra o chão e depois derramou óleo de lâmpada sobre o corpo dela, fazendo com que a camisa da mulher entrasse em chamas. Enquanto o corpo dela era incendiado rapidamente com ela aos berros, Michael gritava para os parentes: “Ela não é minha esposa. É uma velha enganadora enviada no lugar dela”.

Bridget Cleary queimou até os ossos, deixando apenas a sua marca no assoalho e cinzas.

A lenda de Cleary

(Fonte: Ranker/Reprodução)(Fonte: Ranker/Reprodução)

Assim que o fogo cessou, Michael envolveu os restos mortais de Bridget em um lençol e enfiou em uma velha bolsa. Com a ajuda de Patrick Kennedy, um dos primos, ele a enterrou em uma área pantanosa a cerca de 400 metros da casa.

Michael Cleary foi preso junto com os demais parentes de Bridget assim que confessou ao padre ter queimado a mulher, embora ele esperasse que a sua “real esposa” voltasse. No dia 5 de julho de 1895, o homem foi considerado culpado por homicídio culposo. O juiz descartou a condenação por assassinato, pois chegou à conclusão de que ele havia agido por crença genuína. No entanto, ele só foi libertado em 1910.

Em 2006, o Irish Journal of Science, em análise ao caso de Bridget Cleary, sugeriu que provavelmente Michael e os outros parentes tinham a Síndrome de Capgras. O transtorno é baseado na crença ilusória de que um conhecido ou ente querido foi substituído por uma sósia impostora.

Contudo, do desaparecimento à carbonização, a história de Bridget se enraizou na cultura popular e história irlandesa, reforçando ainda mais o medo dos povos ao longo dos anos. O que aconteceu a mulher se tornou uma espécie de aviso a todos que ousam desafiar a existência das fadas. Os mais velhos dizem: "cuidado ou podem acabar como Bridget".

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