O ser humano nasce com déficit de álcool no sangue?

Além de apresentar uma história emocionante e empolgante, o premiado filme Druk: Mais uma Rodada, de Thomas Vinterberg, apresentou uma curiosa teoria ao revelar a necessidade de beber todos os dias para recuperar um possível déficit de álcool no sangue. Mas será mesmo que a ciência vê essa ausência da substância como uma verdade capaz de justificar o alcoolismo?

Antes de tudo, vale a pena comentar sobre um detalhe interessante sobre o longa eleito Melhor Filme Internacional no Oscar 2021. A trama de Druk coloca um grupo de professores de meia-idade decide testar uma teoria de que os humanos têm melhor desempenho quando mantêm um nível de concentração de álcool no sangue de 0,5 g/L. E apesar de esbanjar viradas e bebedeiras, o longa não romantiza os vícios, mas sim sugere uma formulação para justificar o estilo de vida norueguês.

Em entrevista para o Vulture, o diretor Vinterberg revelou que o longa-metragem buscou inspirações no psiquiatra norueguês Finn Skårderud, que supostamente teria confirmado a ausência de quantidades suficientes de álcool no sangue. Porém, tudo não parece ter passado de um erro de interpretação por parte dos produtores, e na verdade o especialista em estudos da mente apenas sugeriu a possibilidade do déficit no prefácio do livro Os Efeitos Psicológicos do Vinho, escrito em 1881 pelo italiano Edmondo De Amicis, rejeitando logo em seguida.

(Fonte: Danish Film Institute / Reprodução)(Fonte: Danish Film Institute / Reprodução)

Isso indicaria, então, que a teoria foi apenas um artifício utilizado de forma cinematográfica para fundamentar a produção de um longa, de forma a encontrar um meio de viabilizar o consumo de bebidas alcoólicas e relacioná-lo à celebração da vida, como ocorre em Mais uma Rodada.

E consumir bebidas alcoólicas todo dia faz mal?

De acordo com o Dr. William Alazawi, hepatologista consultor do Centro Digestivo de Londres, Inglaterra, beber uma medida de álcool por dia pode causar danos irreversíveis no organismo, mesmo em indivíduos com um processo metabólico mais acelerado, ou seja, com o fígado capaz de eliminar cerca de 0,15 g/L por hora. Dessa forma, a sugestão para bebedores compulsórios seria não consumir esse tipo de líquido por no mínimo três dias semanais.

"Quando bebemos uma pequena quantidade de álcool, o fígado processa e o divide em substâncias inofensivas. Mas beber muito álcool pode sobrecarregar esses processos, levando a um acúmulo de gordura no fígado, causando danos e, eventualmente, impedindo o fígado de realizar funções vitais no corpo", esclarece o especialista.

(Fonte: Getty Images / Reprodução)(Fonte: Getty Images / Reprodução)

Com o tempo, sintomas como cansaço exagerado, ganho de peso e cicatrizes no processo regenerativo do fígado surgem como nova realidade para o consumidor. Assim, estima-se que haja o equilíbrio entre a ingestão de álcool, a prática de exercícios físicos e a realização de uma dieta balanceada e nutritiva, de forma a melhorar o condicionamento do corpo e, consequentemente, a qualidade de vida mesmo com o consumo regular de bebidas.

Casos mais graves: aumento do risco de morte

Em casos mais graves, onde os consumidores excedem os níveis de 14 medidas — 10 a 12g de álcool por copo — semanais recomendados por órgãos de saúde, há um risco de morte precoce aumentado, além da possibilidade de câncer e outros eventos cardiovasculares. Segundo estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, Estados Unidos, esses efeitos podem surgir em pessoas que bebam uma ou duas doses de álcool por dia.

A pesquisa revelou haver um aumento de até 20% no risco de morte em pessoas que bebem quatro ou mais vezes por semana, independente da faixa etária. "À medida que as pessoas envelhecem, o risco de morte por qualquer causa também aumenta, então um aumento de 20% no risco aos 75 anos se traduz em muito mais mortes do que na faixa de 25 anos", conclui Sarah M. Hartz, líder do projeto.

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