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O concurso de beijo que parou o Brasil na década de 1990

O que era para ser uma simples campanha de marketing para atrair clientes ao Shopping Miramar, em 1993, tornou-se um dos eventos de Dia dos Namorados mais inusitados e movimentados da década, chamando a atenção de curiosos, da imprensa e especialmente de participantes que colocariam sua honra em xeque para ganhar um Gol 1000. Isso porque o centro comercial protagonizou um "beijaço" coletivo que premiaria o casal que trocasse saliva por mais tempo, resultando em uma briga sem precedentes na história nacional.

Fundado em 1987, o Shopping Miramar se consolidou como um dos maiores pontos de encontro na década de 1990 e atraía público de todos os estilos e faixas etárias, através de suas mais de 130 lojas distribuídas em uma área de 10.245 metros quadrados. Porém, apesar de o centro comercial santista ser referência por sua estrutura, proximidade da praia e como o primeiro da cidade a contar com elevador panorâmico, nada caiu tanto na boca do povo — literalmente — quanto a Maratona do Beijo, um cenário romântico e competitivo que dividiu a opinião pública na época.

A paixão está no ar?

Por dias a fio, os casais participantes deveriam se beijar por longos intervalos de tempo a fim de estabelecer recordes mundiais. O torneio de trocas de saliva, que contou com a inscrição de 51 casais (improvisados ou não), exigia que os beijoqueiros ficassem na ativa das 10 às 22 horas, com direito a um intervalo de uma hora para o almoço — estabelecido pelo regulamento — e duas pausas de cinco minutos para idas ao banheiro, devendo ser utilizadas com estratégia pelos candidatos. A proposta afirmava que essa ação deveria durar um período de dois meses, premiando com um Gol 1000 o casal que chegasse até o fim da maratona.

(Fonte: Memória Santista - Folha de São Paulo / Reprodução)(Fonte: Memória Santista — Folha de São Paulo/Reprodução)

Paixão? Que nada! A obsessão era um prêmio valioso e os beijos não tinham absolutamente nada de romântico. Pessoas podiam conversar pelo canto da boca sem desgrudar os lábios, podiam pegar no sono e arcar com os riscos, e chegavam até mesmo a jogar video game portátil enquanto performavam o "namorico". Dessa forma, cada um dos participantes buscava, de qualquer forma, aliviar o stress e o cansaço físico, procurando distrações que os fizessem aguentar dezenas de horas em pé enquanto colavam a boca no(a) companheiro(a).

(Fonte: Memória Santista / Reprodução)(Fonte: Memória Santista/Reprodução)

Felizmente, além dos descansos pontuais e intervalos disponíveis, a equipe responsável pelo concurso também dispôs de um time de paramédicos e fisioterapeutas que estavam de prontidão para ajudar no alívio de dores e medir regularmente a pressão arterial dos beijoqueiros.

Os estrategistas de plantão

(Fonte: Memória Santista / Reprodução)(Fonte: Memória Santista/Reprodução)

Enquanto muitos entraram na competição com o pensamento de "vamos ver o que vai dar", outros bolaram estratégias das mais inusitadas e, mesmo sob os holofotes da imprensa e repórteres de televisão, não desceram do pedestal e viram suas táticas apresentarem sucesso, mesmo que temporário. Esse foi o caso de Rita Oliveira (20) e Robson Quintella (21), que driblaram a diferença de quase 40 centímetros de altura com o uso de um banquinho, e Beatriz Panzoni (31) e Jair Santos (30), que optaram por morder o lábio do outro caso reparassem qualquer tipo de deslize.

Constrangimento público?

Desde o início da divulgação do concurso, o público já vinha discutindo sobre a intenção por trás dos organizadores e questionava sobre uma ação que transformava um evento íntimo em um espetáculo a "céu aberto". Por semanas, os participantes haviam sido alvo de zombarias e escutavam todo tipo de provocação dos espectadores, tendo que aguentar as inúmeras dores físicas da competição e abusos psicológicos que colocavam em xeque suas disposições. “Me sinto num zoológico, com tanta gente olhando pra nós”, disse Maria Nilce Ribeiro, a participante mais velha da Maratona.

(Fonte: Memória Santista / Reprodução)(Fonte: Memória Santista/Reprodução)

A atração, considerada como um "gosto duvidoso", revoltou diversos setores sociais e foi acusada de “exploração da miséria humana”, tornando-se pauta de discussão na Câmara Municipal de Santos, onde o Noé de Carvalho afirmou que se tratava de um atentado violento ao pudor. Porém, a competição acabou prosseguindo e alavancou os resultados financeiros do shopping, registrando um faturamento de US$ 900 mil a mais do que no período anterior à Maratona do Beijo.

Os grandes vencedores

(Fonte: Memória Santista / Reprodução)(Fonte: Memória Santista/Reprodução)

Após a implementação de novas regras que reduziam os intervalos de descanso e que obrigavam a beijos de 24 horas na reta final, que culminaram em ameaças de greve pelos participantes e em conflitos com os organizadores, a maratona continuou e durou mais do que o esperado, encerrando em 62 dias, 8 horas e 15 minutos. Com a desistência de Sandro Gemelgo (20) e Neusa Ribeiro (26), Márcio José (20) e Ivy Simões de Lima (19) foram nomeados vitoriosos e cada um levou o desejado Gol 1000 para casa.

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