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A Globo está falindo mesmo? Entenda o que acontece na emissora

Qualquer matéria sobre a rede de TV da família Marinho rende comentários do tipo “A Globo está falindo”, “A Globo está desesperada” ou “É o fim da Globo!”. Tem quem comemore isso e até quem atribua essa “queda” ao atual governo, que critica a imprensa frequentemente e diminuiu as verbas de publicidade pública no canal.

Essas suspeitas se tornaram ainda mais fortes quando a Globo começou a encerrar contratos com diversos artistas que eram do seu elenco há um tempão: Vera Fischer, Miguel Falabella, Renato Aragão, Tarcísio Meira e Glória Menezes… Oras! Se a empresa está abrindo mão dos seus artistas, é porque está tão mal das pernas que não consegue pagar o salário. A Globo vai falir, certo?

Não é bem assim. A verdade é que a emissora dificilmente vai falir nesses próximos anos. É real que os lucros e a audiência diminuíram, especialmente durante a pandemia, mas a questão é que a empresa está se reestruturando para lidar com os novos inimigos — que não é o governo, mas sim a internet e os streamings. 

Imagem: TV Prime/iG/Reprodução(Fonte: TV Prime/iG/Reprodução)

Lucro menor, mas ainda muito bom…

Vamos falar de números: de acordo com matéria do jornal Valor Econômico, a empresa faturou R$ 12,5 bilhões em 2020. São 11% a menos que em 2019, mas ainda parece bastante dinheiro, não? 

Outro dado relevante sobre as finanças da Globo é o de lucro líquido: queda de 77,7% sobre 2019, despencando de R$ 752,5 milhões para R$ 167,8 milhões. “Então tá aí: a Globo está falindo mesmo!”.

É verdade que a receita da emissora com publicidade diminuiu, mas isso acontece porque a internet cresceu e o Google se tornou o maior canal de mídia há cerca de 3 anos. A audiência e a grana não foram para a Record ou SBT, concorrentes na TV aberta. Todo meio de comunicação tradicional está no mesmo barco, nesse sentido.

Mas os executivos do canal demonstraram que a receita com publicidade caiu apenas 17% em 2020. O que realmente “comeu” o lucro da Globo foi a desvalorização do dólar ao longo do ano, que fez vários investimentos “virarem pó”. Além disso, a emissora deixou de produzir, ou teve gastos maiores para produzir, aquilo que é seu maior ganha-pão: as novelas. Todos os horários exibiram reprises por meses e não tinha novela nova para vender no exterior.

Nos esportes, qualquer patrocínio já coloca milhões no cofre da Globo, e campeonatos foram parados ou encurtados, as Olimpíadas foram adiadas e tudo aquilo que nós vimos no ano passado. Então, os anunciantes pediram desconto. Logo, a receita e o lucro caíram.

Imagem: O Globo/Reprodução(Fonte: Globo/Reprodução)

Os tempos mudaram (e a Globo sabe disso)

Falando em esportes, a Globo perdeu alguns campeonatos para outras emissoras, em especial para o SBT — que não tinha tanta tradição assim no segmento e está surpreendendo com suas transmissões da Libertadores e Champions League. Por incrível que pareça, isso se relaciona à história das demissões dos artistas, citada no início.

O negócio é que a Globo, por décadas, concentrava mais da metade de todo investimento em publicidade no Brasil. Competir com a Record, SBT ou Band era fácil — elas até ganhavam uma ou outra, mas na maior parte do tempo a Globo dominava sozinha. Por isso que a emissora “se dava ao luxo” de gastar dinheiro adoidado para ter exclusividade em transmissões ou para que seus artistas nem sonhassem em botar o nariz em outro estúdio. 

Em resumo, a Globo fazia questão de mostrar quem mandava. Agora, isso não importa mais e nem tem como acontecer. 

Por mais que as novelas ainda tenham bastante audiência — continuam sendo os programas de TV mais vistos do Brasil —, dificilmente alguma vai parar o Brasil como parava antigamente. Agora as pessoas têm mais o que fazer! (Noveleiro que sou, eu mesmo não ligo a TV porque prefiro ver as novelas antigas no Globoplay às reprises. Mesmo quando acompanho uma atual, faço isso pelo streaming, porque acho um saco ter que parar todo dia às 21h30 da noite.)

Então, se a Globo não é mais a única dona da audiência, não faz sentido exercer tanto poder sobre os concorrentes. O que importa mesmo é se manter competitiva nesse novo mercado dos streamings. Nesse caso, é bem mais barato deixar um ator famoso fazer uma novela da Record ou uma série da Netflix — e voltar para a Globo, por que não? — do que pagar um salário nababesco para ele ficar três anos na casa, entre uma novela e outra. Até porque a Globo está produzindo muita coisa a mais do que as três novelas que ela produzia antigamente: já existem várias séries no Globoplay que devem custar uma nota para fazer. Com isso, contratos de artistas serão por obra: trabalhou, ganhou. 

O que também vale para os campeonatos esportivos: deixa o SBT transmitir. Sai mais barato do que pagar bilhões de reais para manter o poder.

Claro que isso não é uma situação confortável e devem ter rolado algumas discussões tensas nos bastidores sobre o futuro da Globo. Porém, isso está mais para uma mudança do que para uma queda. Segundo a matéria do Valor Econômico, o faturamento da empresa é o suficiente para honrar todos os compromissos financeiros dos próximos anos. Sendo assim, a Globo não vai falir — pelo menos não em breve. 

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