Johatsu: os japoneses que decidem desaparecer de suas vidas

No japonês, a palavra significa “evaporados”. Segundo o New York Post, desde meados da década de 1990, cerca de 100 mil pessoas por ano já desapareceram no Japão de maneira voluntária.

A razão para isso não está muito longe do fenômeno também japonês chamado Hikikomori, que consiste no retraimento, em sua maioria de jovens, da sociedade para a segurança das próprias casas devido à pressão de sucesso social e ansiedade generalizada sobre os aspectos da carreira profissional.

No caso dos johatsu, eles são assombrados pela vergonha de terem perdido o emprego, por um casamento fracassado, ou por dívida, e optam por simplesmente abandonarem uma vida inteira que já “falhou”, deixando amigos e familiares para recomeçar em outro lugar.

Seria muito fácil culpar a essas pessoas por serem fracas demais quando se vive em uma realidade totalmente diferente, quando, na verdade, a única culpada é a estrutura social japonesa.

Desaparecendo

(Fonte: Lamography/Reprodução)(Fonte: Lamography/Reprodução)

A vergonha social é o fator que motiva uma pessoa a querer “evaporar” no Japão. Em entrevista ao The New York Post, a jornalista francesa Léna Mauger, que passou 5 anos pesquisando sobre o fenômeno johatsu, disse que existe um tabu enorme ao redor dele, e as pessoas fazem isso porque sabem que há outra sociedade sob a sociedade do Japão. Portanto, quando decidem sumir de suas próprias vidas, elas sabem que podem encontrar uma maneira de sobreviver.

O código de honra japonês, chamado bushido, que existe desde o século XIV, ainda conduz a cultura da sociedade, que fomenta na cabeça das pessoas que do fracasso emerge o pior sentimento: a vergonha.

(Fonte: Steven Sakanashi/Reprodução)(Fonte: Steven Sakanashi/Reprodução)

No ensaio Shame, Honor and Duty, do professor Takako McCrann, é ressaltado que no Japão os relacionamentos entre as pessoas são totalmente afetados pelos deveres e obrigações. “Em relacionamentos baseados em deveres, o que outras pessoas acreditam ou pensam têm um impacto mais poderoso sobre o comportamento do que o indivíduo acredita”, escreve McCrann.

Ele ainda ressalta que a vergonha não pode ser removida até que a pessoa faça o que a sociedade espera dela, podendo incluir medidas drásticas, como o suicídio. Nos últimos 10 anos, o Japão atingiu a marca de 30 mil mortes anuais por suicídio, a terceira maior taxa mundial, ficando atrás da Hungria e da Coreia do Sul.

“Se você for falsamente acusado de um crime, sua culpa será removida quando for provado que é inocente em tribunal, mas a vergonha permanecerá enquanto outras pessoas suspeitarem de suas ações ou pensarem negativamente de você”, exemplifica o professor.

Os deslocados

(Fonte: TVF International/Reprodução)(Fonte: TVF International/Reprodução)

Aqueles que se sentem deslocados na sociedade, que cultivam o sentimento de que não pertencem àquela vida, seja por depressão ou qualquer outro fato de cunho psicológico — também escolhem evaporar.

No entanto, a vergonha mais uma vez é uma válvula de motivação, então ninguém consegue escapar dela. “Você deve acertar o prego que se destaca”, é uma expressão japonesa que simplesmente mostra a expectativa de uma sociedade inteira sobre as costas de uma pessoa.

Ainda que a perspectiva de desaparecer da própria vida tenha um sabor doce, os problemas dessa escolha também a acompanham. Segundo uma matéria da BBC, um homem que abandonou sua esposa e filhos — porque  havia se cansado das relações humanas e pressões que sentia na pequena cidade onde vivia para assumir os negócios de sua família —, ainda convive com a sensação de que fez algo de errado.

Para outras pessoas, evaporar vem em forma de penitência por se mudar para uma cidade ou local esquecido pelo governo do Japão. Normalmente, as empresas que prestam esse tipo de serviço enviam os “evaporados” para a cidade de Sanya.

O local é considerado uma “favela de Tóquio”, apagada de todos os mapas, onde grande parte dela é administrada pela máfia japonesa e por empregadores que estão procurando por pessoas para trabalhar por um salário muito baixo.

(Fonte: Al Jazeera/Reprodução)(Fonte: Al Jazeera/Reprodução)

A maioria dos johatsu precisam viver em quartos pequenos de hotel, alguns sem janelas, onde simplesmente assistem os dias e a própria vida passar por eles. “Depois de todo esse tempo, eu certamente poderia retomar para minha antiga identidade, mas não quero que minha família me veja neste estado. Olhe para mim, não pareço nada. Não sou nada. Se eu morrer amanhã, não quero que ninguém seja capaz de me reconhecer”, disse um homem — que passa sua nova vida bebendo e fumando —, em entrevista ao New York Post.

Outro homem, que desapareceu devido à vergonha de não ter condições de cuidar de sua mãe idosa, disse que olha para as pessoas na rua e vê que elas já deixaram de existir. “Quando fugimos da nossa sociedade, desaparecemos pela primeira vez. Aqui, estamos nos matando lentamente”, relatou ele.

Para quem se pergunta como o governo não encontra essas pessoas, ainda que não queiram ser encontradas, o sociólogo Hiroki Nakamori respondeu à BBC: “A polícia não intervirá a menos que haja outro motivo, como crime ou acidente. Tudo que a família pode fazer é pagar muito por um detetive particular. Ou apenas esperar”.

No Japão, a privacidade é tão protegida que os meios para rastrear, como transações financeiras, são ilegais até mesmo para as autoridades federais. Não existe um banco de dados nacional de pessoas desaparecidas no país, tampouco um número de previdência social. 

Portanto, quando alguém decide desaparecer, é uma medida definitiva.

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