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O 'pânico do papel higiênico' é mais antigo do que você imagina

Em março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) mudou seus índices de epidemia do novo coronavírus para situação de pandemia, sugerindo que governos do mundo todo instaurassem medidas de segurança para conter a disseminação do vírus, como os famosos lockdowns, um dos primeiros produtos que geraram brigas e esgotaram das prateleiras dos mercados na Espanha, nos Estados Unidos, em Hong Kong, em Londres e até na Austrália foi o papel higiênico.

Os noticiários e a internet foram bombardeados com imagens de pessoas carregando carrinhos de supermercado lotados com o produto, entre brigas e discussões por posse dos rolos. De onde vem essa obsessão?

(Fonte: The Economic Times/Reprodução)(Fonte: The Economic Times/Reprodução)

De acordo com David Coral, presidente da agência BBDO, esse comportamento tem a ver com fatores psicológicos, visto que o produto higiênico dá uma sensação de segurança, o que também está ligado ao medo de perder algo ou ficar de fora (FOMO: Fear of Missing Out).

“É o medo do que acontecerá se eu não tiver o que os outros têm. Nesse caso, o papel higiênico, porque, se você vê que as pessoas estão comprando, pensa que é por alguma razão necessária e, nesse tipo de comportamento, só demonstra que somos gregários”, explicou Coral em uma matéria do El País.

Contudo, esse típico comportamento de pânico de consumo (panic buying) com relação a um produto já aconteceu outra vez, em 1973, quando o comediante Johnny Carson incentivou uma comoção em massa.

Despertando o medo

Johnny Carson. (Fonte: Waldina/Reprodução)Johnny Carson. (Fonte: Waldina/Reprodução)

Tudo aconteceu quando o comediante, vencedor de 6 prêmios Emmy, leu um recorte de jornal sobre uma possível escassez de papel higiênico durante o monólogo de abertura de seu programa noturno The Tonight Show para mais de 20 milhões de telespectadores.

Um congressista republicano da época, chamado Harold V. Froelich, havia divulgado um comunicado à imprensa alertando o público sobre essa falta do produto em alguns meses. Ele ressaltou que não era motivo para que as pessoas fizessem piadas sobre isso, mas sim um problema que afetaria diretamente a vida de todos os americanos. No entanto, o senso de humor de Carson falou mais alto, e ele trouxe a nota exatamente para fazer piada sobre o assunto — mas o tiro saiu pela culatra.

(Fonte: Artworks/Reprodução)(Fonte: Artworks/Reprodução)

A segunda metade do século XX já era marcada pela escassez, principalmente devido aos transtornos e horrores da Guerra do Vietnã, a instabilidade do petróleo e outros aspectos econômicos, então a sociedade americana vivia sempre em tensão com relação a tudo.

O medo e a iminência de escassez se tornaram ainda mais fortes com a transmissão de imagens da Scott Paper Company — uma das dez maiores produtoras de papel higiênico no país — dobrando a linha de produção, alimentando a má interpretação das pessoas.

O pânico

(Fonte: Anos Dourados/Reprodução)(Fonte: Anos Dourados/Reprodução)

O resultado foi milhões de americanos desesperados invadindo supermercados e lojas de conveniência locais por todo o país para comprar o máximo que pudesse carregar do produto. Em entrevista ao The New York Times, um consumidor disse que, após ouvir o noticiário, ele comprou 15 fardos de rolos. Outra mulher começou a pedir que os convidados de uma festa de aniversário que planejava trouxessem um rolo de papel higiênico como passe.

O frenesi durou alguns meses, esgotando o produto das prateleiras e causando problemas para as empresas que não haviam-se preparado para suprir a demanda e acabaram perdendo dinheiro.

Carson recebeu grande parte da culpa por alimentar o mito da escassez do produto, tendo que apresentar um pedido de desculpas formal aos telespectadores — muito embora não fosse totalmente o culpado.

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