Como as pandemias impulsionaram o crescimento de megacorporações?

Desde a primeira metade do século XIV, quando navios mercantes aparentemente levaram para a Europa a peste responsável pela maior crise sanitária da história, os governos e o mundo empresarial vêm gradativamente estreitando seus laços, favorecendo o crescimento acelerado de megacorporações que se beneficiam da nova dinâmica mercantil causada pelo chamado “negócio da morte”.

O extermínio de um terço da população europeia entre 1347 e 1351 trouxe impactos severos para as relações econômicas da época, forçando pequenas empresas a fechar seus negócios e causando falências em massa, ocasionadas pela ausência de mão de obra e pelas circunstâncias da doença bubônica. Com isso, grande parte dos sobreviventes começaram a acumular riquezas apenas no meio familiar, enquanto aguardavam o continente se recuperar da pandemia.

(Fonte: Washington Post / Reprodução)(Fonte: Washington Post/Reprodução)

Com o fim do feudalismo, as elites urbanas locais foram os primeiros grupos a ascender socialmente e, com os camponeses dispostos e condicionados a gastar normalmente, o processo de reintrodução mercantil voltou a se popularizar nas cidades, agora impulsionados por mercadores com produtos importados que atendiam apenas a demandas de pessoas com quantias significativas de capital.

Diferentemente da aristocracia e de tecelões independentes, os novos empresários detinham capital líquido e condições de investir em itens avançados, compensando a ausência de mão de obra com máquinas especializadas. E assim, foram capazes de se sobressair em relação a negócios modestos e populares, com capacidade de deter propriedades capitais, técnicas e de infraestrutura.

E agora, é diferente?

Apesar de as proporções da pandemia da covid-19 serem incomparáveis com as da Peste Bubônica, é possível estabelecer paralelos interessantes sobre o modus operandi dos megaempresários. Enquanto pequenos estabelecimentos se tornaram insustentáveis nos últimos meses, grandes empresas, com condições de reter produtos, pagar funcionários e diversificar as áreas de vendas (varejistas), ganharam ainda mais destaque.

Essa reviravolta em um cenário que há anos se mostrava favorável para o empresariado contou com a contribuição do sistema digital, que viu em streamings, e-commerce, marketplace, dropshipping e vários outros modelos, uma oportunidade de dominar todos os meios, distribuindo serviços logísticos de alcance ilimitado e alcançando todo o público comprador de forma democrática.

Apenas em 2021, um bilionário surgiu a cada 17 horas, e 86% do total de empresários da categoria ficaram mais ricos do que eram em 2020, segundo dados da Forbes

A participação dos comerciantes no Estado

Há séculos, comerciantes e homens de negócios passaram a participar da vida cotidiana do povo, seja em posições de autoridade ou de referência. Com isso, a população ficou cada vez mais dependente dessas figuras e do que elas poderiam oferecer, e isso estabeleceu uma relação de necessidade involuntária entre Estado, coroa e empresários. Após a Peste, o mundo foi cercado por guerras e conflitos de menor expressão, e até hoje se discute a participação de empresas que financiam os embates e lucram com o “negócio da morte”.

(Fonte: The Conversation / Reprodução)(Fonte: The Conversation/Reprodução)

Em 2016, das 100 maiores entidades econômicas, 31 eram países e 69 eram empresas. Desde então, os ativos estatais foram ordenados como ativos privados, mesmo em um mercado regulamentado pelo poder. Serviços básicos, tradicionalmente relacionados à atuação do Estado, se adaptaram ao modelo empresarial e surgiram dotados de tecnologias e investimentos, enquanto as pessoas, submetidas por essa relação, passaram a questionar ainda menos a liberdade individual.

Há como resistir?

Com acusações de propensão à ganância e de oportunismo mediante a crises, comerciantes se tornaram alvos de grupos de resistência, que culpavam a Igreja e as empresas pela deterioração social e pelo empobrecimento do País. Tratados propostos solicitavam atuações que priorizassem o bem comum em vez do monopólio capital, solicitando reforços e recuperações financeiras a grupos menores e injustiçados.

Voltando para os tempos atuais, desde a década de 1960 que movimentos anticapitalistas usam sua voz para questionar se “o pequeno é ruim” ou incapaz de fornecer os mesmos serviços de um estabelecimento maior. E a crise sanitária da covid-19 vem favorecendo ainda mais hospitais particulares de grandes proporções, empresas que conseguem atender altas demandas, fornecedores com grande capacidade produtiva e estoques.

(Fonte: Getty Images / Reprodução)(Fonte: Getty Images/Reprodução)

De fato, a história nunca se repete e não é possível comparar a mentalidade do século XIV com a atual, mas é importante ficar vigilante e atento sobre as lições. Nesse cenário, a crise liga o alerta para problemas nunca enfrentados (como as mudanças climáticas), e novas situações exigem novos meios de combate.

Será que as megacorporações irão ajudar a enfrentar os novos problemas que se aproximam?

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