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Arautos do Evangelho: o grupo católico brasileiro investigado pelo Vaticano

Nas últimas semanas, fiéis da comunidade São Judas Tadeu, em Rio Branco (AC), vêm relatando casos de abordagens realizadas por integrantes do grupo ultraconservador Arautos do Evangelho. Alguns integrantes estão visitando casas, sob supostas ordens de párocos locais, com a intenção de arrecadar fundos para custear seminaristas. O caso, que vem obtendo ampla repercussão no estado, resgatou uma antiga polêmica em que a entidade se envolveu e abre portas para novas discussões sobre a postura e as práticas escusas de seus integrantes.

(Fonte: Reprodução)(Fonte: Reprodução)

Criado no final dos anos 1990, após a morte de Plínio Corrêa de Oliveira — fundador da Sociedade de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP)—, os Arautos do Evangelho se oficializaram como associação em 2001, liderada pelo cofundador da TFP, João S. Clá Dias. A organização parte dos princípios de extrema-direita e de apoio à ditadura militar, criando associados como a Associação Cultural Nossa Senhora de Fátima, a Associação Católica Rainha das Virgens e a Sociedade Clerical Virgo Flos Carmeli.

Defensor de valores antiprogressistas na Igreja Católica, o grupo passou a enfrentar sérios problemas institucionais, incluindo questões internas como conflitos públicos entre membros. O caso evoluiu em 2017, quando denúncias e reclamações de fiéis católicos impulsionaram as primeiras investigações realizadas pelo Vaticano. Entre as denúncias existem relatos graves de assédio sexual, abuso psicológico, alienação de membros de suas famílias, humilhações, práticas de exorcismos irregulares, recebimento de doações sem autorização e culto à personalidade dos fundadores.

(Fonte: Wikimedia Commons / Reprodução)(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)

No mesmo ano, vídeos confidenciais que apontavam o papa Francisco como um emissário do demônio e que estimulavam exorcismos acabaram sendo vazados, mas foram tirados de circulação após reclamações de direitos autorais. E, apesar da organização se justificar afirmando que não havia nada errado na condução dos materiais, João Clá Dias acabou renunciando ao cargo supremo em 2019 e deu lugar ao cardeal Raymundo Damasceno Assis, ex-líder da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como novo líder do grupo.

Mais problemas para os Arautos

Raymundo Damasceno trouxe novos ares para a organização, mas enfrentou problemas ainda decorrentes da forma como os Arautos do Evangelho lidavam com a educação anteriormente. Em 2021, o Vaticano ordenou a saída de todos os menores de idade das escolas administradas pelos Arautos, por sofrerem um “tipo de disciplina excessivamente rígida”.

Logo, um conflito de interesses se estabeleceu, com os Arautos afirmando que “nunca administraram nenhum estabelecimento de ensino no Brasil” e que “toda escola ou qualquer outra organização está sujeita a reclamações”. Além disso, a entidade comentou, em nota, que suas pautas se estabelecem segundo princípios da “total liberdade de consciência”, tendo suas “atividades, métodos pedagógicos e o resultado educacional obtido” apoiada pelos pais dos alunos.

(Fonte: Getty Images / Reprodução)(Fonte: Getty Images/Reprodução)

Hoje, depoimentos de antigos integrantes apontam que a instituição opera como uma seita com forte culto à personalidade dos líderes e tentativas de afastamentos de relacionamentos familiares e de amizades. “No começo tudo era muito atraente. Só depois comecei a perceber que as coisas que aconteciam não eram normais e não eram aprovadas pela Igreja”, disse um ex-membro anônimo, em entrevista à BBC.

No início de dezembro, o coral dos Arautos se apresentou para o presidente Jair Bolsonaro durante a cerimônia de Natal realizada no Palácio do Planalto. Desde então, a organização ultraconservadora vem operando em diversos Estados para arrecadar dinheiro, afirmando estar trabalhando ao lado de bispos locais para isso.

“Não está certo e nunca aprovamos que tirem dinheiro de nosso povo humilde, pobre e sofrido para os membros dos Arautos do Evangelho banquetearem em luxuosos e suntuosos palácios, como aparecem nas fotos que foram publicadas na revista da instituição”, diz o bispo de Rio Branco, Joaquim Pertiñez. “Esse não é o evangelho que conhecemos, pregamos e transmitimos.”

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