Mercy dogs: os cães heroicos da Primeira Guerra Mundial

Ferir-se em um campo de batalha na Primeira Guerra Mundial poderia ser uma situação catastrófica. O medo de morrer sozinho e abandonado no meio da Terra de Ninguém — um território sob disputa durante o conflito armado — era uma realidade constante no leito de morte de muitos soldados. Entretanto, o exército alemão tinha um plano para não deixar ninguém a sós: os Mercy Dogs — ou cães misericordiosos.

Esses cachorros eram treinados para vasculhar um território após uma longa batalha em busca de soldados para ajudar, levando consigo suprimentos médicos nas costas e portando até mesmo uma máscara de gás. E caso não houvesse mais solução para aquela pessoa, a missão do companheiro canino era fornecer conforto nos últimos minutos de vida.

Mercy dogs na guerra

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Conforme mais soldados eram despachados para as trincheiras durante a Primeira Guerra, o mesmo acontecia com os cães. Durante os quatro anos de confronto sangrento, estima-se que os dois lados da guerra tenham usado mais de 50 mil cachorros em combate.

As raças mais comuns eram: Airedale Terrier, Pastor-alemão, Dobermann e Boxer. Esses cães poderiam ser chamados de mercy dogs, cães da Cruz Vermelha, cães-ambulância, ou cães-vítimas e atuaram no suporte de soldados feridos desde os primeiros confrontos em 1914.

Então, eles foram enviados ao campo de batalha para fornecer medicamentos para que os combatentes pudessem tentar se tratar sozinhos. Caso alguém estivesse gravemente ferido, um pedaço de seu uniforme seria arrancado pelo cão e levado de volta ao acampamento como uma forma de pedir de ajuda.

Essa era uma mensagem de esperança para o enfermo, que teria pelo menos uma ideia de que seus superiores haviam sido comunicados de sua baixa. O método era bastante eficiente e rápido no resgate de soldados feridos até mesmo na calada da noite, quando era difícil de enxergar por conta da escuridão nos campos da Europa.

Focinho amigo

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Em alguns casos, os mercy dogs conseguiram identificar vítimas que teriam sido julgadas como “sem salvação” pelos seres humanos, mas que após uma noite de cuidados em um centro especializado demonstraram ótima reação. Mas como a guerra está longe de ser um conto de fadas, nem sempre o desfecho era positivo.

Quando um cão treinado para realizar os primeiros socorros se deparava com um soldado em seu leito de morte, sua principal tarefa era oferecer-lhe “um focinho amigo” antes do fim. Então, eles se deitariam ao lado do corpo fatalmente ferido e ficariam ali para que essa pessoa não morresse sozinha.

Alguns desses cães ficaram até mesmo famosos, como foi o caso do Sargento Stubby, o primeiro cão de guerra dos Estados Unidos, que aprendeu a alertar os soldados sobre ataques de gás mostarda e ajudou na busca dos feridos. A maioria dos mercy dogs, entretanto, trabalhava anonimamente e uma grande parte deles morreu durante a guerra. Ao fim do conflito em 1918, estima-se que 7 mil cães tenham sido mortos em combate. 

Legado canino

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

O trabalho feito pelos mercy dogs na Primeira Guerra estabeleceu um caminho a ser seguido em confrontos futuros. Ao longo do século XX, humanos passaram a enviar cães para quase todos os seus conflitos armados. Na Segunda Guerra Mundial, os cachorros não só trabalhavam como enfermeiros, mas serviam como cães mensageiros, cães de guarda e cães escoteiros.

Os EUA, que mal tinham cães de guerra em 1914, enviaram 20 mil ajudantes caninos para a guerra de 1939 — algo que se tornou padrão para os norte-americanos na Guerra do Vietnã e nas missões no Iraque e no Afeganistão. A Cruz Vermelha, por outro lado, começou a usar cães de terapia com soldados convalescendo após a batalha na década de 1940.

E assim foi sendo construído um legado. Esses bravos aliados caninos, que deveriam ter fornecido apenas um suporte médico, demonstraram ser fiéis escudeiros e trabalhadores implacáveis em todas as oportunidades. 

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