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Anastácia: o símbolo da resistência negra que foi santificado

A entrada da atriz e cantora Lina Pereira dos Santos, também conhecida como Linn da Quebrada, na casa do Big Brother Brasil na última quinta-feira (20) chamou a atenção dos internautas por um simples detalhe: ela vestia uma camiseta com um rosto peculiar e com os dizeres "Anastácia Livre" escritos na parte inferior do tecido.

Logo, diversas pessoas passaram a se questionar do significado daquela estampa. Para quem desconhece, a blusa conta a história de Anastácia, uma escravizada trazida do Congo no século 18 e que foi condenada à mordaça pelo resto da sua vida por lutar contra a escravidão e a violência sexual. Entenda a história dela.

A vida de Anastácia

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

No dia 9 de abril de 1740, um navio negreiro trazendo 112 negros Bantus, povo originário do Congo, atracou no porto do Rio de Janeiro. Essas pessoas foram trazidas para serem escravizadas em território brasileiro. Delminda, uma das escravas arrebatadas por cerca de 1 mil réis, acabou sendo violentada sexualmente e engravidou de um homem branco.

Foi dessa relação não consensual que nasceu Anastácia, uma negra de olhos azuis e beleza invejável. Desde muito nova, ela despertava a ira dos senhores e de suas esposas por sua aparência física. Por muito tempo, ela resistiu aos incontáveis assédios e violências sexuais que sofria diariamente e, por esse motivo, foi sentenciada a utilizar a máscara de flandres pelo resto de sua vida, retirando-a apenas para se alimentar.

Com tamanha história de luta, Anastácia acabou se tornando um símbolo de resistência e luta contra o sistema escravista. Posteriormente, também acabou santificada por algumas religiões por ter realizado alguns milagres. Segundo as histórias, ela conseguia tirar os males dos adoentados usando apenas as mãos e também salvou a vida do filho do fazendeiro que a violentou.

Anastácia Livre

(Fonte: Internet/Divulgação)(Fonte: Internet/Divulgação)

O culto à Anastácia surgiu em meados de 1968, durante uma exposição aos 90 anos da Abolição. Em uma das imagens criadas pelo artista francês Etienne Arago, era possível ver a figura de uma mulher escravizada usando uma máscara de ferro. Na década de 1970, essa mesma imagem passou a ser utilizada pela professora e escritora Yolanda Guerra para ilustrar Anastácia em suas palestras.

A Igreja do Rosário, berço da construção de alianças entre as pessoas negras, passou a ser considerada precursora da religiosidade anastaciana. Entretanto, uma nova representação de Anastácia sem a mordaça passou a circular pela internet nos últimos tempos — a mesma que Linn da Quebrada vestiu no BBB 22. 

O trabalho é fruto da criatividade do artista carioca Yhuri Cruz, que encontrou uma maneira espontânea de livrar a jovem escrava do peso de 2 séculos de suplício. "Em Monumento à voz de Anastácia, trabalho que exponho hoje, ergo um monumento à voz dela. Uma voz negra, feminina, de luta pela existência", escreveu o artista em suas redes sociais em 2019. Seu gesto de reparação histórica foi algo tão impactante que a obra foi incluída nos livros didáticos de mais de 200 escolas da rede Eleva, que tem entre os sócios o empresário bilionário Jorge Paulo Lemann.

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