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Alegoria da Inclinação: a restauração em pintura de 400 anos que revelou nu censurado pela história

Com o auxílio da tecnologia, restauradores de arte criaram uma réplica digital do quadro Alegoria da Inclinação, pintado em 1616, mostrando o nu frontal feminino retratado na obra original, censurado há quase 350 anos. A versão ficará em exposição no museu Casa Buonarroti em Florença, na Itália, até o início de 2024.

Feito no século XVII pela pintora Artemisia Gentileschi, o quadro apresenta uma mulher nua sentada nas nuvens, segurando uma bússola. O trabalho foi encomendado por Michelangelo Buonarroti, o Jovem, sobrinho-neto do famoso pintor renascentista.

Décadas mais tarde, o sobrinho-neto do financiador, Leonardo da Buonarroto, se sentiu incomodado com a pintura, apontada como um autorretrato de Gentileschi. Em 1684, contratou o pintor Baldassari Franceschini para cobrir a nudez, afirmando que não queria expor a esposa e os filhos à forma feminina nua.

(Fonte: Casa Buonarroti/Divulgação)Alegoria da Inclinação após a censura. (Fonte: Casa Buonarroti/Divulgação)

O trabalho resultou na adição de véus e uma cortina sobre a figura da mulher, cobrindo suas partes íntimas. Desde então, a obra censurada estava exposta no teto da casa da família Buonarroti, que mais tarde se transformou em museu.

Por que a obra original não pode ser restaurada?

Para homenagear Gentileschi, uma das principais pintoras barrocas italianas, a organização sem fins lucrativos Calliope Arts decidiu recuperar o quadro original censurado. Em parceria com o colecionador britânico Christian Levett, a entidade iniciou o projeto Artemisia UpClose em novembro de 2022.

Mas havia um problema: a versão original do quadro Alegoria da Inclinação não podia ser restaurada fisicamente. A remoção das grossas camadas de tinta a óleo aplicadas posteriormente colocaria a pintura em risco, além de modificar o trabalho que, mesmo censurado, faz parte da história da pintura.

Versão digital da obra sem censura. (Fonte: Casa Buonarroti/Reprodução)Versão digital de Alegoria da Inclinação sem censura. (Fonte: Casa Buonarroti/Reprodução)

A solução encontrada foi apostar em luz ultravioleta e técnicas modernas de raio-x para examinar detalhadamente cada área da obra. Assim, foi possível identificar os pigmentos originais usados por Gentileschi, cobertos pelo véu e cortina, bem como as marcas do trabalho de Franceschini.

Depois de uma limpeza cuidadosa do quadro, os especialistas detectaram ainda o umbigo da mulher e uma marca em sua panturrilha, feita por Artemisia. A imagem digital obtida a partir da restauração foi impressa como uma réplica do quadro original, sem a censura.

Lado a lado

Com o trabalho de restauração digital finalizado, a réplica impressa, com o nu feminino voltando a ser mostrado após mais de 300 anos, está em exposição lado a lado com a obra censurada. A mostra “Artemisia no Museu Michelangelo” começou no dia 27 de setembro e segue aberta até 8 de janeiro de 2024 — a exposição acontece na Casa Buonarroti, em Florença.

“Queremos tornar Artemisia Gentileschi um nome familiar e gerar interesse em suas obras inovadoras. A Artemisia é a 'porta de entrada' para as primeiras artistas mulheres”, destacou a cofundadora da Calliope Arts, Margie MacKinnon, em comunicado.

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