Lauretta Bender destruiu crianças com a terapia de eletrochoque

09/09/2020 às 15:003 min de leitura

Muito provavelmente, o motivo pelo qual Lauretta Bender se tornou “um monstro da psiquiatria” começou quando ela ainda era apenas uma criança. Nascida em 9 de agosto de 1897 em Butte, Montana (Estados Unidos), Bender começou a sofrer na escola quando se viu forçada a repetir o 1º ano do Ensino Fundamental por mais de 3 vezes devido a dificuldades no aprendizado.

Na escola, Bender foi chamada de “retardada mental” por inverter as sentenças do que lia e ter pouca retenção do conteúdo ensinado – ela sofria de dislexia, mas não havia diagnóstico para a época. Seu pai, Oscar Bender, foi o principal responsável por ajudá-la a superar o seu problema mesmo sem saber do que se tratava, por isso na vida adulta ela sempre o creditou como aquele que fez dela uma pessoa mais forte.

Ao longo desse processo, com as constantes mudanças da família, quando Bender concluiu o Ensino Médio em Los Angeles, ela já era oradora da turma e os anos de frustração a levaram a escolher a área da psiquiatria infantil como profissão.

Procurando "conserto"

(Fonte: Ranker/Reprodução)(Fonte: Ranker/Reprodução)

Já na fase adulta, Bender se formou em Medicina pela Universidade de Chicago; contudo, na primeira metade do século XX ainda não havia cursos que garantissem escolarização adequada a quem desejava exercer a Psiquiatria. A área era composta de psiquiatras autodidatas, portanto os interessados na profissão estagiavam em hospitais e institutos para conhecer o ramo.

Em meados de 1938, Bender criou o Teste Gestalt Visual Motor, que avalia distúrbios do desenvolvimento, deficiências neurológicas e funcionamento motor-visual em crianças e adultos. O teste neuropsiquiátrico se tornou uma referência no mundo todo. Em 1955, a médica foi nomeada como a principal pesquisadora científica em psiquiatria infantil, ganhando um novo cargo no Departamento de Higiene Mental do Estado. Naquele mesmo ano, ela foi premiada com o Adolf Meyer Memorial Award, por suas contribuições para a compreensão de crianças esquizofrênicas. Até então, a médica ainda sustentava a fachada de que seus controversos experimentos para "consertar" a mente humana tinham sido um sucesso, quando na verdade estavam causando sofrimento e destruindo o futuro de várias crianças.

No início de 1940, Bender começou a trabalhar como neuropsiquiatra infantil na ala psiquiátrica do Bellevue Hospital, o hospital público mais antigo da cidade de Nova York. Foi com o objetivo de analisar os efeitos da terapia de eletrochoque em crianças esquizofrênicas que a médica deu início aos seus experimentos. Ela queria deixar claro que esse tipo de comportamento vinha de uma composição neurológica, principalmente os pacientes considerados agressivos, e que isso nada tinha a ver com educação, raça ou sexo.

Nervos queimados

(Fonte: Cambridge University Press/Reprodução)(Fonte: Cambridge University Press/Reprodução)

O foco dos testes de Bender eram crianças com idades entre 3 e 12 anos. Diariamente, ela anestesiava e as submetia a cerca de 20 sessões de 30 segundos a 1 minuto de descargas elétricas de 150 a 400 volts, até que atingissem um pico de convulsão. A médica então acompanhava o comportamento das crianças antes e depois das descargas para regular as voltagens.

Para determinar como a mente de seus alvos estava operando, Bender pedia às crianças para que fizessem desenhos de como enxergavam a si mesmas; assim, ela os comparava a fim de observar se alguma mudança havia ocorrido depois dos choques. A doutora também costumava manter contato com a família, os professores e os amigos dos pacientes, para conseguir medir os efeitos do tratamento em longo prazo. Estima-se que entre 1940 e 1953 Lauretta Bender tenha causado danos aos cérebros de 100 a 500 crianças naquele hospital.

“Em todas as crianças, exceto em duas ou três, uma mudança positiva no comportamento após o tratamento foi observada. Inclusive, é de opinião de todos os observadores no hospital, nas salas de aula e dos familiares que as crianças sempre melhoraram um pouco com o tratamento, à medida que ficaram menos perturbadas, excitáveis, retraídas e ansiosas. Elas se tornaram bem controladas, pareciam mais integradas e maduras. Eram capazes de enfrentar as situações sociais de forma realista. Eram mais compostas, felizes e capazes de aceitar o ensino ou psicoterapia em grupos ou individualmente”, publicou a psiquiatra, em 1947, como primeira análise do resultado de seus experimentos.

Desastre clínico

(Fonte: WQXR/Reprodução)(Fonte: WQXR/Reprodução)

Publicamente, Lauretta Bender se dizia satisfeita com seus procedimentos e afirmava que o diagnóstico das crianças havia sido muito positivo, mas membros de sua equipe alegavam que ela estava frustrada. A maioria de seus pacientes havia piorado com os efeitos colaterais. Um deles, inclusive, era tímido e quieto antes dos experimentos, mas depois se tornou agressivo e violento a ponto de cometer homicídio.

Em 1954, após denúncias internas de assistentes da médica, um estudo desenvolvido por dois psicólogos em 50 pacientes de Bender comprovou que eles desenvolveram um comportamento suicida após o tratamento e tiveram suas personalidades drasticamente alteradas.

(Fonte: BBC/Reprodução)(Fonte: BBC/Reprodução)

Guy, o filho da atriz e escritora Jacqueline Susann – best-seller do romance Vale de Bonecas – foi um dos 50 pacientes estudados pelos psicólogos. Bender teria convencido Susann e seu marido a submeter o menino de 3 anos, nascido com transtorno do espectro autista, à terapia de eletrochoque a fim de torná-lo “normal”. No entanto, Guy voltou para casa como uma criança quase sem vida. A escritora fez questão de expor que Bender "destruiu" seu filho, que ficou confinado em instituições médicas para sempre.

Entre 1956 e 1969, no Serviço Infantil do Hospital Estadual Creedmoor, no bairro do Queens (NYC, EUA), os experimentos recomeçaram, e não se sabe exatamente quantas vítimas a médica alcançou lá dentro.

Até que seus experimentos fossem proibidos, Lauretta Bender insistiu, pois rejeitava a possibilidade de não atingir um bom resultado. Ela era confiante e dogmática demais, por isso se recusou a aceitar a realidade, mesmo quando os fatos estavam bem diante de seus olhos.

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