Coronavírus: por que tantos pacientes sentem dor no corpo?

A pandemia do novo coronavírus vem afetando o mundo desde 2020 e, além de clamar muitas vidas, também tem deixado sequelas em vários indivíduos que sobreviveram, com estudos mostrando que dores persistentes nas articulações e nos músculos são normais naqueles que ficaram infectados por semanas e até meses.

Pesquisas realizadas em universidades dos Estados Unidos, do México e da Suécia, com 48 mil pacientes que sofreram o que é chamado de covid longa — infecção que persiste por grandes períodos — apontaram que uma em cada cinco pessoas sente dores nas articulações, e uma em cada dez sofre de problemas musculares.

(Fonte: Pixabay/Reprodução)(Fonte: Pixabay/Reprodução)

Já um levantamento em Cingapura, com 294 internados devido ao vírus, evidenciou que metade dos entrevistados tiveram complicações musculoesqueléticas generalizadas, como mialgia, artralgia e dor nas costas.

"As pessoas relatam que os problemas mais comuns após terem covid estão nos ombros e nas costas, mas problemas nas articulações e nos músculos podem ocorrer em qualquer parte do corpo. Algumas pessoas têm dores generalizadas que podem ir e vir durante algum tempo, à medida que se recuperam. Algumas também têm sensações estranhas ou diferentes, como dormência, pontadas ou fraqueza nos braços ou nas pernas", explicou um guia do coronavírus emitido pelo sistema de saúde pública do Reino Unido.

Por que o coronavírus causa dor no corpo?

Doenças infecciosas e virais tendem a acarretar males musculares durante os processos inflamatórios, mas no caso do coronavírus ainda existem outros fatores a serem levados em consideração.

De acordo com André Mansano, médico do hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, o distanciamento social ampliou os relatos de dor crônica devido ao estresse e sobrecarga no ambiente doméstico. Outras causas incluem sedentarismo, diminuição do acesso a tratamentos médicos, os efeitos diretos do próprio coronavírus, a resposta do sistema imunológico e até mesmo as medicações utilizadas para combater a enfermidade.

(Fonte: Pixabay/Reprodução)(Fonte: Pixabay/Reprodução)

O médico reumatologista João Alho, e professor da Universidade do Estado do Pará, também ressalta a necessidade de entender o contexto individual de cada paciente, pois as dores podem aparecer em fases diferentes da doença e por inúmeros motivos.

"Quem sobreviveu a casos mais graves, inclusive com necessidade de ir para a UTI, com certeza perdeu muito peso, sobretudo massa muscular. Essa é uma situação de sarcopenia pós-UTI, que causa dores até haver a completa reabilitação, que pode durar meses. Mas pacientes com doenças leves também podem perder massa muscular e causar mialgia ou dores articulares", explicou Alho.

Proteína ACE2

Outra possibilidade sendo avaliada por pesquisadores está ligada à proteína ACE2 (sigla de angiotensin-converting enzyme 2 ou enzima conversora de angiotensina 2, em tradução livre) presente na superfície de diversas células, como o epitélio do sistema respiratório, e que está relacionada com os mecanismos de entrada de algumas cepas do coronavírus.

(Fonte: Pixabay/Reprodução)(Fonte: Pixabay/Reprodução)

Cientistas chineses estudaram a presença do vírus na medula espinhal, estrutura que transmite impulsos nervosos do cérebro para o corpo, e acreditam que o ataque às células nervosas com essa proteína pode causar uma queda no nível de hormônios ligados à pressão sanguínea, levando então à dor. Contudo, vale ressaltar que esta é apenas uma de várias hipóteses sendo analisadas por especialistas desde o começo da pandemia.

Quais são os aspectos da covid-19 que podem causar tanta dor?

Males persistentes não são incomuns em epidemias de doenças respiratórias, como evidenciado pela gripe russa no final do século XIX, a gripe espanhola no século XX e a Sars no começo dos anos 2000.

(Fonte: Pixabay/Reprodução)(Fonte: Pixabay/Reprodução)

"Qualquer doença infecciosa, sobretudo viral, pode ter mialgia por inflamação de vários tecidos, que inclui o músculo e a sinóvia (uma espécie de membrana das articulações), em sua fase mais ativa. Ela pode ser tão exacerbada que o próprio sistema imunológico machuca também nossos tecidos", afirmou Alho.

O corpo contra si mesmo

Uma possibilidade estaria relacionada com a tempestade de citocinas, uma reação exacerbada das defesas do organismo que pode causar mais dano do que a própria enfermidade, induzindo dores nas articulações e nos músculos, sendo até fatal em certas situações.

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Pesquisadores da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, avaliaram vários exames de imagem de indivíduos infectados com covid-19 e descobriram fatores variados, como edemas, mudanças inflamatórias nos tecidos (fluídos e inchaços), hematomas e gangrenas, sintomas que estão ligados a complicações musculoesqueléticas.

O mais interessante é que um dos casos estudados foi o de uma senhora de 72 anos que desenvolveu artrite reumatoide autoimune, uma doença crônica que faz o corpo produzir anticorpos principalmente contra os próprios tecidos, surgindo duas vezes mais em mulheres do que em homens e com a incidência aumentando com a idade.

Mulheres sofrem mais com a covid longa

(Fonte: Pixabay/Reprodução)(Fonte: Pixabay/Reprodução)

Ainda não se sabe exatamente o motivo pelo qual o sexo feminino tende a sofrer mais com dores musculares e nas articulações causadas pela infecção prolongada do coronavírus. Contudo, alguns cientistas acreditam que isso pode estar ligado ao contato inicial com a covid-19, pois existem mais mulheres em funções de risco de exposição do que homens.

Outras possibilidades incluem que elas tendem a sobreviver mais à forma aguda da doença, estando então em maior número entre aqueles que apresentaram a covid prolongada e até mesmo que os homens não costumam revelar ou buscar tratamento para seus sintomas. De qualquer modo, mais estudos são necessários para compreender melhor essa situação.

Tratamentos para as dores corporais causadas pelo coronavírus

Em primeiro lugar, é preciso buscar orientação médica para descobrir um curso adequado de tratamento. De acordo com especialistas, atividade física e fisioterapia são os melhores recursos, juntamente com medicações de acordo com o nível da dor.

Mansano explicou que o ideal é começar com medidas menos invasivas e tratar as complicações de forma escalonada. "Se o paciente tem covid, ele precisa, mesmo que isso demande muito esforço, fazer algum grau de atividade física", disse o médico.

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A sugestão é apostar em tarefas mais cotidianas, como usar as escadas do prédio no lugar do elevador, evitar garrafas grandes de água para levantar mais vezes e até mesmo praticar atividades físicas seguindo instrutores que postam vídeos na internet.

Caso o quadro de dor seja muito grave, podem ser prescritos anti-inflamatórios mais fortes, mas vale lembrar que isso também aumenta a chance de surgirem mais efeitos colaterais no futuro.

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