O esquecido e inglório Programa Espacial do Líbano

Entre 1975 e 1990, a cidade de Beirute, capital do Líbano, então com seus 2 milhões de habitantes, foi arrasada pela guerra civil, que a deixou “em frangalhos”. Foi em meio a esse caos que o país quis conquistar as estrelas e entrar para a competição norte-americana e soviética.

O foguete de 5 metros de comprimento que aponta para o céu em uma das vias mais elegantes de Beirute, tornou-se uma homenagem ao primeiro programa espacial estudantil do Oriente Médio, em uma época insípida que os libaneses preferem esquecer que existiu.

O sonho de um jovem             

(Fonte: BBC/Reprodução)(Fonte: BBC/Reprodução)

Em 1960, o jovem de 25 anos Manoug Manougian, recém-chegado ao país, assumiu o cargo de professor no Haigazian College, uma pequena instituição armênia de artes liberais. Desde pequeno, ele foi obcecado por foguetes, aprofundando-se no assunto quando o conflito israelense-palestino fechou as escolas.

Assim que se formou no Texas e construiu seus primeiros minifoguetes enquanto trabalhava em um emprego de verão em Ohio, Manougian se sentia preparado para realizar seu sonho.

Ele assumiu o comando do Clube de Ciências de Haigazian no outono de 1960, emitindo convites aos alunos para integrar a Haigazian College Rocket Society (HRS). Sete alunos atenderam ao chamado, e foi assim que os fundamentos do programa espacial do Líbano nasceram.

(Fonte: Lebanon Zenith/Reprodução)(Fonte: Lebanon Zenith/Reprodução)

Enquanto a União Soviética acumulava mais de US$ 30 bilhões para seus projetos espaciais, Manougian tinha menos de US$ 300 mil para gastar ao longo de seis anos. Sem acesso a instalações de testes adequadas, o professor disparava seus protótipos do quintal da casa de um membro da sociedade, correndo o risco de causar resultados perigosos — eles chegaram a poucos metros de atingir uma igreja ortodoxa grega durante um lançamento.

No início de 1961, com a progressão da qualidade de seus propelentes químicos e dos experimentos dos alunos, os foguetes de Manougian começaram a ganhar mais altitude, viajando quase 3 quilômetros. Um ano mais tarde, o Cedar 2 atingiu 10 quilômetros, tornando o HRS um fenômeno que contrariava as estatísticas.

A ciência contra a ganância

(Fonte: Inside Hook/Reprodução)(Fonte: Inside Hook/Reprodução)

Com a chegada de um contingente do exército libanês, o empreendimento de Manougian finalmente decolou. Em 1964, com acesso à perícia balística e campos de testes militares, os foguetes do grupo, rebatizado “Sociedade de Foguetes Libaneses”, alcançaram até 225 quilômetros. Um bando de jovens, liderados por um acadêmico tão jovem quanto, foi colocado em uma posição significativa em relação os maiores e mais ricos países que desafiavam o poderio do espaço.

No entanto, o projeto que havia começado de maneira pacífica, saiu do controle. Eles quase atingiram um cruzador naval britânico no Mediterrâneo em 1966, além de perturbar as autoridades cipriotas que estavam insatisfeitas com o volume de foguetes e bombardeamentos em seu território.

Manougian não revelou qual líder de outro país árabe ofereceu à equipe muitas riquezas para continuarem seu trabalho a serviço de seu governo, porém o professor decidiu que já era o suficiente. Para ele, as implicações começaram quando converteram a experimentação científica deles em militar.

(Fonte: Quora/Reprodução)(Fonte: Quora/Reprodução)

Ao ficar claro para o acadêmico que o interesse dos militares era usar os foguetes como arma, ele entendeu que era o momento de encerrar o projeto e retornar para os Estados Unidos. Foi em tempo, visto que em 1967 eclodiu a Guerra dos Seis Dias no Líbano, após tantas tensões entre Israel, Egito, Síria e Jordânia.

Aquele marcou o início de uma longa derrocada para a ciência libanesa, que perdeu muitos talentos de seu país e impediu que ele progredisse de alguma forma. Como consequência, as poucas oportunidades de destaque submergiram nas sombras da história assim como a promissora Sociedade de Foguetes Libaneses.

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