Audição sensorial: entenda como um bicho 'escuta' pela pele

Seria possível distinguir sons mesmo sem possuir os órgãos do ouvido? Existem exemplos na natureza indicando que a resposta é positiva. Há mais de 15 anos, pesquisadores da Universidade de Michigan têm estudado a biologia sensorial dos Caenorhabditis elegans, uma espécie de nemátodos.

Com corpo cilíndrico, alongado e sistema digestivo completo, essas minúsculas criaturas se destacam por uma característica muito peculiar: conseguem captar sons e reagir a eles mesmo sem possuírem nenhum tipo de órgão que se assemelha a um ouvido. Mas como isso é feito? Entenda um pouco mais sobre esse "fenômeno".

Desbravando os sentidos

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)


Por muitos anos, a ciência considerou que os nemátodos tinham somente três sentidos: tato, olfato e paladar. Entretanto, um grupo de pesquisadores liderados por Shawn Xu tem se aprofundado cada vez mais no assunto. Em primeiro lugar, a equipe detectou que esses milimétricos animais possuíam capacidade para sentir luz, mesmo sem olhos.

Além disso, estudos indicaram que essa espécie em específico conseguem determinar qual a postura do seu corpo enquanto se movimenta — algo batizado na natureza como propriocepção. "Faltava apenas mais um sentido primário: a sensação auditiva ou audição", disse Xu em seu artigo publicado na Neuron.

O cientista ressaltou que a audição, ao contrário dos outros sentidos, não é algo tão comum assim na natureza. De acordo com Xu, a ciência só havia detectado a capacidade de ouvir em vertebrados e artrópodes. Por isso, a grande vastidão de invertebrados é considerada surda. 

Audição corporal

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Durante os estudos feitos na Universidade de Michigan, os cientistas descobriram que os nemátodos respondem a sons aéreos na faixa de 100 hertz a 5 quilohertz - uma faixa mais ampla do que alguns vertebrados podem sentir. Quando um som nessa faixa era reproduzido, esses animais logo se movimentavam para a direção contrária, o que mostra que também eram capazes de detectar a direção de origem do volume.

Para Xu, isso não significa que essas criaturas sentem o som através do tato. O pesquisador acredita que os nemátodos tenham desenvolvido uma estrutura no corpo inteiro que atue como uma cóclea, a cavidade cheia de fluidos existente no ouvido interno dos vertebrados.

Além disso, essas "minhocas" teriam dois tipos de neurônios sensoriais auditivos conectados as suas peles. Quando as ondas sonoras vibram pelo corpo do animal, o fluido interno dos nemátodos vibraria em conjunto — da mesma forma que ocorre na cóclea. 

Descoberta científica

(Fonte: Unsplash)(Fonte: Unsplash)

Esse é um dos primeiros estudos realizados sobre a capacidade auditiva dos invertebrados, além de suas similaridades e diferenças com outras espécies. “Com base nessas diferenças, que existem até o nível molecular, acreditamos que o sentido da audição provavelmente evoluiu de forma independente várias vezes em diferentes filos animais”, disse Xu.

Após o aprofundamento do estudo sobre os Caenorhabditis elegans, os pesquisadores planejam se aprofundar nos mecanismos genéticos e neurobiologia que impulsionam todos os sentidos. "Agora que sabemos que todos os sentidos primários estão presentes nessa espécie, podemos torná-los modelos de estudo para a biologia sensorial", concluiu. 

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