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Vale de Hula: como o governo israelense destruiu um tesouro ecológico

Localizado no extremo norte do Rio Jordão, o Vale de Hula era considerado um "tesouro ecológico", com pessoas vivendo às margens desde 1900 a.C., no período neolítico — segundo arqueólogos que encontraram ferramentas de pedra no local durante escavações profundas.

Conforme o artigo Lagos Hula e Agmon, a região teve vários nomes ao longo da história. Os egípcios antigos o chamavam de Lago Samchuna; na literatura talmúdica, no século I d.C., ele foi nomeado Lago Hulata; enquanto os hebreus o chamavam de Agam Hula (o mais próximo de hoje).

O vale sempre foi usado pela sua abundância de água e serviu para criação de gado, cana-de-açúcar, arroz e algodão. Na época, ele tinha cerca de 5 quilômetros de extensão por 4 quilômetros de largura. Em sua totalidade, incluindo seus pântanos, o lago abrangia 37 quilômetros quadrados, com grandes variações sazonais e interanuais devido às mudanças no nível da água. Foi em meados da década de 1950, logo após a criação de Israel, que os pântanos do Vale de Hula começaram a ser drenados.

O paraíso

(Fonte: ZooZoo/Reprodução)(Fonte: ZooZoo/Reprodução)

Os pântanos de Hula já foram considerados a mais rica fonte de diversidade bioaquática do mundo. Eles eram incrivelmente importantes como polo de alimentação para pássaros que estavam migrando entre a Europa e a África, por exemplo o grande pelicano branco.

No século XX, viajantes que iam para a Palestina escreveram em diários de viagem que podiam ver panteras, leopardos, ursos, javalis, hienas, gazelas, chacais e raposas no Vale de Hula. Até o início do século XX, estima-se que pelo menos 12 mil pessoas viviam na região.

(Fonte: Israel21/Reprodução)(Fonte: Israel21/Reprodução)

O início do fim desse paraíso ecológico começou no final de 1800, quando Sultan Jitlik, proprietário do terreno na época, decidiu que drenar os pântanos de Hula os tornariam mais produtivos. Para isso acontecer, ele contratou uma empresa de engenharia turca, que drenou a terra por uma quantia absurda de dinheiro.

O Império Britânico assumiu o projeto durante o Mandato da Palestina, bem quando o terreno pertencia a uma empresa agrícola com sede na Síria, que o adquiriu entre 1914 e 1918. A empresa sionista Palestine Land Development Company comprou o vale em 1934, mas isso não impediu que os britânicos arquitetassem um esquema que envolvia cavar um canal para desviar água do Hula. Foi assim que boa parte norte dos pântanos foi drenada. Porém, as explorações ainda estavam longe de caminhar para o desastre que o Hula se tornaria.

Destruição sistemática

(Fonte: Wikipedia/Reprodução)(Fonte: Wikipedia/Reprodução)

Entre 1951 e 1958, o governo israelense decidiu que drenaria total o Vale de Hula visando eliminar a malária e melhorar o abastecimento de água, criando terras mais aráveis. No entanto, como aponta o Blind Modernism and Zionist Waterscape, naquela época a malária já havia sido amplamente erradicada, então as autoridades só queriam uma desculpa para continuar seus planos destrutivos.

Até 1958, quase todas as áreas úmidas de Hula foram drenadas através de canais, criando mais de 11 mil acres de terra para uso agrícola, restando 1 pedaço de 2 quilômetros do lago original.

A drenagem resultou em uma série de problemas no vale, sendo a inutilização do solo para agricultura uma delas — visto que o lago havia sido drenado exatamente para isso. As grandes concentrações de turfa oxidaram rapidamente com a drenagem e o solo seco, fazendo os compostos orgânicos se desintegrarem.

(Fonte: Wikipedia/Reprodução)(Fonte: Wikipedia/Reprodução)

A fertilidade ocorreu pelo mesmo caminho. A decomposição produziu amônia, aumentando a liberação de nitratos e degradando a produtividade da terra. O solo seco erodiu, e o que sobrou perdeu força, sendo carregado pelos ventos, resultando em mais um problema: tempestades de areia.

Ecologicamente, a drenagem dos pântanos desalojou 119 espécies de animais nos primeiros 40 anos após a operação, bem como espécies de plantas de água doce e invertebrados que morreram.

A turfa do terreno em decomposição liberou grandes quantidades de nitratos e sulfatos, carregados para o Lago Knneret durante a estação de chuvas invernais, causando uma grave redução na qualidade da água.

O que restou

(Fonte: TrekEarth/Reprodução)(Fonte: TrekEarth/Reprodução)

Após anos de danos, foi só no início da década de 1980 que as pessoas perceberam que precisavam tomar medidas para evitar que o Vale de Hula se deteriorasse ainda mais. Para isso, as comunidades agrícolas doaram suas terras para que um sistema de rotação de culturas fosse projetado, bem como o aumento da elevação do lençol freático do Lago Agmon, inundando as áreas do Vale de Hula que foram consideradas inadequadas para a agricultura.

Nesse processo, o Rio Jordão também foi colocado de volta em seu caminho original. Com a reabilitação e o processo de inundação de algumas partes do vale, as zonas úmidas estão lentamente começando a se recuperar.

A empresa KKL-JNF assumiu o projeto de restauração e criação do Parque do Lago Hula e Agmon, após ter contribuído para sua exploração desenfreada. Eles ainda se promoveram sobre a catástrofe, pontuando que transformaram o Vale do Hula "de um desastre ecológico" para uma "grande atração para os turistas".

Em 2009, a BBC Wildlife declarou o vale um dos locais de observação e fotografia mais importantes do mundo. Apesar da restauração do Hula, os danos à flora, à fauna e às terras da região nunca serão revertidos por completo.

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