É verdade que o T-Rex não conseguia enxergar alguém que ficasse imóvel?
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É verdade que o T-Rex não conseguia enxergar alguém que ficasse imóvel?

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Como a História já nos provou repetidas vezes ao longo das eras, nosso conhecimento sobre um assunto que não foi devidamente estudado de forma científica normalmente é bem diferente da realidade. Assim foi com a ideia de que o Universo girava em torno da Terra ou de que o oceano acabava em um abismo infinito, por exemplo.

As obras do cinema, mesmo que sejam voltadas majoritariamente para o entretenimento, não escapam desse tipo de engano. Uma das cenas mais lembradas do clássico “Jurassic Park – O Parque dos Dinossauros” é um belo exemplo. Nela, o Dr. Alan Grant, interpretado por Sam Neil, grita para as duas crianças que estão sendo caçadas por um Tiranossauro Rex em meio a uma tempestade: “Não se movam! Ele não pode vê-los se vocês não se moverem”.

Bem, se você considerar o tamanho dos olhos do T-Rex em relação à sua cabeça, e lembrando o fato de que isso foi escrito por um roteirista de filmes e não por um cientista, essa poderia ser uma teoria perfeitamente aceitável. Mas, infelizmente, está completamente errada. Estudos acadêmicos nos fazem crer que o lagartão de bracinhos curtos enxergava muito melhor do que as águias e gaviões modernos.

Entrando de cabeça no assunto

Para ser completamente justo, não havia nenhum estudo que tivesse analisado a acuidade visual (nível de clareza e nitidez com que animais e humanos enxergam) do tiranossauro antes do filme, então não havia como se verificar isso antes. Na verdade, foi justamente a cena do longa que inspirou diversas pesquisas sobre o assunto.

Uma delas foi liderada pelo professor Kent Stevens, da Universidade do Oregon. Ele iniciou o projeto DinoMorph em 1993, mesmo ano da estreia do filme dirigido por Steven Spielberg. Seu objetivo era desenvolver modelos digitais de esqueletos de dinossauros de uma forma descomplicada, mas ao mesmo tempo cientificamente acurada.

Ele queria criar visualizações precisas de diversos animais extintos incluindo aí o Tiranossauro Rex – usando tecnologia digital. Naquele ano, ele se encontrou com Garfield Minott, paleontólogo mais renomado da América do Norte, no Museu Real de Ontario, no Canadá. Minott vinha trabalhando em uma reconstrução em escala real de um T-Rex e forneceu a Stevens esculturas das cabeças de sete diferentes espécies de terópodes (dinossauros primariamente carnívoros e que andavam sobre duas patas).

Visão além do alcance

Entre as esculturas que o professor recebeu, estavam a da cabeça de um T-Rex e outra de um Velociraptor. Ele então as usou junto com um ponteiro laser, uma placa de vidro e olhos de vidro usados em taxidermia (empalhamento de animais mortos) para realizar uma série de experimentos. O objetivo era determinar o campo de visão, noção de profundidade e intervalo binocular – a área angular do campo de visão que é vista ao mesmo tempo por ambos os olhos – que o rei dos lagartos possuía.

A pesquisa durou 13 anos e só foi publicada em 2006. Utilizando um teste chamado “perimetria inversa”, o cientista foi capaz de determinar que o T-Rex era capaz de identificar objetos em várias alturas e de diversos formatos, graças ao seu intervalo binocular, que era de 55 graus. Quanto maior o ângulo, melhor a visão de uma criatura, e esses números são melhores do que os de um gavião, por exemplo.

Graças a isso, o Tiranossauro possuía uma capacidade extremamente alta de distinguir objetos e criaturas, mesmo as que estivessem imóveis ou mesmo camufladas. Os estudos de Stevens com as demais esculturas provou que a maioria dos terópodes tinha uma visão quase tão apurada quanto às das aves de rapina que existem hoje.

Olhos de águia

Para determinar o quão eficientes eram realmente os olhos do lagartão, o pesquisador usou os parâmetros de visão conhecidos de seus “descendentes evolucionários”, como a águia, a galinha e o crocodilo, e recalculou esses valores proporcionalmente ao tamanho e altura do dinossauro. Em seguida, estudou os resultados os analisando a partir da colocação da cabeça esculpida em diversas posições que deveriam representar a movimentação do animal.

Como resultado, ele afirmou que o grandalhão possuía acuidade visual 13 vezes melhor que a de um ser humano. Em termos de comparação, a visão de uma águia é "apenas" 3,6 vezes superior a de uma pessoa. O dinossauro era capaz de ver com relativa clareza um objeto a até seis quilômetros de distância, enquanto nós podemos fazer o mesmo a uma distância máxima de 1,6 quilômetros.

Nesse ponto, Stevens admite que seus dados são os melhores resultados possíveis baseados em seus experimentos, e que diversos fatores provavelmente afetavam os valores reais. Ainda assim, são números impressionantes. As crianças do filme, a metros de distância do rei tirano dos sauros, não teriam a menor chance de enganá-lo. Como nos movemos involuntariamente o tempo todo, mesmo que sejam poucos milímetros, para o Tiranossauro seria como se estivessem dançando frevo na sua frente.

E mesmo que o filme estivesse certo, o olfato do bicho era tão desenvolvido quanto o de abutres, que sentem o cheiro de carniça a alguns quilômetros de distância.

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