O incidente de Skull Valley

O incidente de Skull Valley

Último Vídeo

Testes de armas químicas e biológicas por entidades governamentais ainda são um tópico controverso e perturbador. Ao longo dos anos, populações inteiras foram submetidas a experimentos em massa sem saberem, o que já explicou misteriosas infecções e mortes por bactérias e agentes tóxicos incomuns.

Em 1950, por exemplo, a Marinha dos Estados Unidos usou uma mangueira gigante para pulverizar micróbios na costa de São Francisco. Os militares testavam como os 800 mil habitantes da cidade reagiriam a uma arma biológica que estava em desenvolvimento. Explicado como "um programa de testes de guerra germinativa", durou 20 anos e foi considerado "fundamental" para o estudo e a análise da vulnerabilidade das pessoas a ataques. Mas a que custo?

Esse foi apenas um entre centenas de experimentos realizados ao longo da história de várias nações. E os humanos nem sempre foram os alvos principais dessa guerra de desenvolvimento. Quando leis e tratados éticos começaram a coibir testes em pessoas, os animais entraram em questão mais do que nunca, e o uso indiscriminado dos bichos em todas as esferas de poder que constituem a sociedade causou uma espécie de genocídio às cegas, uma guerra paralela que poucos conhecem ou com a qual se importam — contanto que o seu animal de estimação não seja afetado.

O infame incidente

(Fonte: Damn Interesting/Reprodução)
(Fonte: Damn Interesting/Reprodução)

Na manhã de 17 de março de 1968, o xerife Fay Gillette, do condado de Toole, em Utah (EUA), foi convocado por um fazendeiro para atender a uma ocorrência em Skull Valley. Quando chegou ao local, em meio a planícies rurais e colinas nevadas, o homem se deparou com uma cena apavorante: um pasto com mais de 6 mil ovelhas mortas.

"Havia ovelhas caídas por toda a parte, repletas de manchas esbranquiçadas", relatou o oficial ao repórter investigativo Seymour Hersh. Milhares de ovelhas que ainda agonizavam tiveram que ser sacrificadas por veterinários convocados ao local. Aves e coelhos selvagens que habitavam os arredores tiveram o mesmo destino.

A dúvida de todos era: os animais tinham ingerido alguma planta venenosa ou foram afetados por pesticidas?

No momento em que a mídia entrou no caso e a cena atordoante ganhou o país, não demorou para que culpassem o Campo de Provas de Dugway, simplesmente o maior sítio do exército dos EUA para experimentos com armas químicas e biológicas, a apenas 43 quilômetros de onde os animais tinham sido mortos. Assim que a hipótese foi levantada, os oficiais negaram qualquer envolvimento no insólito acontecimento.

Desmascarando um experimento

(Fonte: Discogs/Reprodução)
(Fonte: Discogs/Reprodução)

Em 21 de março de 1968, o Senador Frank Moss divulgou um documento do Pentágono que provava que em 13 de março um jato tinha pulverizado 320 galões de gás VX no terreno de Skull Valley. O neurotóxico foi criado por Ranajit Ghosh e tem efeito rápido e alta letalidade, permanecendo no ambiente por longos períodos, por isso foi considerado uma das armas químicas mais poderosas.

A princípio, o líquido foi colocado à venda no mercado sob o nome de Amiton, porém foi retirado pouco tempo depois por ser tóxico demais para ser manuseado com segurança. O fato de ser inodoro, insípido e causar asfixia chamou atenção dos laboratórios governamentais de pesquisa de armas, pois cientistas estavam à procura de agentes químicos que fossem eficientes em causar mortes — cerca de 10 miligramas do produto são suficientes para matar um humano.

Foi o Departamento de Defesa dos EUA, com o Projeto 112, iniciado em 1963, que realizou pesquisas para desenvolver uma versão mais potente do químico, visando se defender das ameaças de guerras químicas e biológicas. O Amiton entrou na categoria V de agentes nervosos e rapidamente adquiriu o nome VX.

(Fonte: Discover Magazine/Reprodução)
(Fonte: Discover Magazine/Reprodução)

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA colheu água e vegetação da região, assim como sangue e porções do fígado das ovelhas mortas. Os testes acusaram que o produto químico fornecido pelo exército para comparação era o mesmo das amostras do local do incidente.

Em sua defesa, os oficiais da Dugway declararam que as provas eram circunstanciais. Contudo, falaram que "talvez" tivesse ocorrido um mau funcionamento em um dos jatos que carregava o produto durante a terceira remessa de experimentos daquele dia. Segundo eles, um dos tanques do jato teria liberado "acidentalmente" o químico a uma altitude muito maior do que a pretendida, permitindo que fosse soprado para longe das áreas de testes e até Skull Valley.

"Nós sabemos disso"

(Fonte: NPR/Reprodução)
(Fonte: NPR/Reprodução)

As ovelhas morreram em 24 horas, ficaram atordoadas, inclinando a cabeça para baixo e para o lado e caminhando maneira descoordenada. Ironicamente, no documento exposto por Frank Moss, os cientistas tinham colhido as reações dos animais, o que fez muitos concluírem que o "acidente" foi apenas uma forma conveniente de provar um teste; afinal, desde a fundação da base de testes, em 1941, as atividades sempre foram mantidas em segredo.

Com mais de 3 mil quilômetros quadrados repletos de laboratórios, áreas de testes e fortes militares, o local nunca foi investigado e está em operação até hoje.

Apesar de o governo não assumir a culpa, tampouco pagar legalmente por isso, os fazendeiros receberam do exército uma indenização de 1 milhão de dólares. Kenneth King, um agente que trabalhou na Dugway em 1968, confirmou que os testes nas ovelhas foram propositais: "Nós as matamos e sabemos disso".

O caso desencadeou centenas de debates envolvendo o papel do governo no desenvolvimento de armas biológicas e o uso de animais no processo. Uma pesquisa do jornal Sunday Mirror revelou que quase 50 mil animais foram mortos em testes militares no Laboratório de Ciência e Tecnologia de Defesa de Porton Down, na Inglaterra, entre 2010 e 2017. Os cientistas explodiram, infectaram e envenenaram animais com armas biológicas: os que não morreram imediatamente agonizaram durante dias enquanto eram estudados.

Os experimentos não levaram a lugar algum.

Você sabia que o Megacurioso está no Instagram, Facebook e no Twitter? Siga-nos por lá.