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Lin Zhao: a dissidente comunista que escreveu cartas com seu sangue

Ao longo de todo o governo de Mao Tsé-Tung, compreendido entre 1943 e 1976, foi alimentada a ideia de que um imperador era uma figura que fazia a mediação entre a Terra e o Paraíso, portanto era alguém praticamente divino. Essa percepção era tão real que Tsé-Tung era constantemente referido como tianzi, que significa "Filho do Céu" em chinês.

Sempre se apresentando de modo carismático, o homem fez de sua imagem um motivo de reverência tão forte que encorajou milhares de seus apoiadores a chamarem essa devoção toda de fé, dando origem ao Maoísmo, baseado na dedicação pessoal ao político.

A “ditadura democrática”, endossada pelas ideias do Partido Comunista da China junto com Tsé-Tung apenas restringiu ainda mais o poder de fala dos cidadãos chineses. Fora o Movimento das Cem Flores, em maio de 1956, quando o público foi encorajado pelo líder a falar sobre os problemas do país, era considerado crime passivo de exílio ou execução criticar qualquer aspecto do governo.

Ousada juventude

(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)

Peng Lingzhao nasceu em 23 de janeiro de 1932, em uma família muito bem estabilizada na cidade de Sucheu, a oeste de Xangai, na província de Jiangsu. Quando entrou para a adolescência, por volta de seus 16 anos, ela já compartilhava com as ideias comunistas, portanto ingressou para uma célula comunista clandestina e começou a escrever artigos que criticavam a corrupção do governo nacionalista de Tsé-Tung.

Foi a partir desse momento que ela passou a assinar os seus posicionamentos com o pseudônimo Lin Zhao. Cerca de 3 meses antes de os comunistas tomarem o poder na China continental, ela fugiu de casa para frequentar a escola de jornalismo dirigida pelos comunistas. Lin se matriculou no departamento de literatura chinesa da Universidade de Pequim, onde foi editora do The Red Building, em que publicou poemas exigindo reformas.

(Fonte: Dignity Memorial/Reprodução)(Fonte: Dignity Memorial/Reprodução)

Ela criou a revista The Square, que durou apenas 23 dias, em meio ao Movimento das Cem Flores de 1956, onde ela expressou fé no partido comunista, mas também o criticou e defendeu o debate civil. Por isso, em 1957, Lin foi considerada uma direitista pela Campanha Antidireitista e passou a ser perseguida como uma dissidente, sendo rebaixada em suas funções.

Em 1959, Lin se casou com o direitista Gan Cui, mas foi separada dele depois que o jovem foi enviado para a Fazenda Talimu Forth, com o intuito de mantê-los longe.

Cartas de sangue

(Fonte: Human Rights in China/Reprodução)(Fonte: Human Rights in China/Reprodução)

Em 24 de outubro de 1960, por sua forte oposição ao governo de Tsé-Tung,  Lin foi presa e, mais tarde, transferida para a prisão de Tilanqiao após ser condenada a 20 anos. Durante os 8 anos que ficou encarcerada, ela começou a perder a sanidade com a falta de esperança de que um dia seria liberta, por isso chegou a tentar suicídio cortando um de seus pulsos. Tudo piorou quando Lin foi informada que seu pai havia se matado um mês depois de sua prisão por causa de suas ideologias políticas.

Nos momentos em que não estava sofrendo com as torturas extremas, Lin escreveu centenas de cartas e ensaios com seu próprio sangue com reflexões políticas, sociais e pessoais sobre o rumo da China.

Em 29 de abril de 1968, Lin Zhao foi executada a tiros, e um oficial arriscou a própria vida entregando tudo o que ela escreveu para seus irmãos, visto que sua mãe morreu poucos meses depois. Gan Cui passou cerca de 4 meses copiando as cartas de sangue de sua esposa.

Os documentos se tornaram um legado monumental e parte deles foram preservados pelo Partido Comunista para serem usados como peça de propaganda, enquanto a outra parte consta na Instituição Hoover sobre Guerra, Revolução e Paz, na Universidade de Stanford.

A obscura história de vida de Lin Zhao ganhou fama após o documentário do diretor Hu Jie, lançado em 2004, intitulado Procurando a Alma de Lin Zhao. A mulher se tornou uma figura inspiradora da história chinesa moderna, considerada uma mártir e também a "única voz da liberdade que resta para a China contemporânea", segundo Liu Xiaobo, vencedor do Prêmio Nobel.

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