Guerra dos Emus: o ano em que a Austrália batalhou contra aves

Muitas guerras de maiores e menores proporções já ocorreram ao redor do planeta, porém enquanto algumas delas se destacaram por motivos cruéis, autoritários e expansionistas, outras chamaram a atenção por ter motivações sinistras e, no mínimo, bizarras. E um desses casos curiosos foi a icônica Guerra dos Emus de 1932, ano em que o exército australiano declarou guerra armada contra milhares de aves invasoras.

O contexto da inusitada tensão armada

Com o final da Primeira Guerra Mundial em 1918, soldados australianos lutaram para recuperar suas antigas vidas e muitos deles foram direcionados para trabalhar em campos de trigo, assumindo responsabilidades como agricultores na Austrália Ocidental a fim de intensificar a produtividade nas colheitas, que na época passavam por um período de seca incomum. Mesmo motivados por subsídios e assistências governamentais, esses trabalhadores não atingiram as expectativas e viram as dificuldades com o plantio se intensificarem significativamente.

Como se não bastassem os problemas, a Grande Depressão de 1929 impactou severamente nas atividades agrícolas do país, e ao mesmo tempo que o preço do trigo despencou, as autoridades não cumpriram suas palavras e deixaram muitos trabalhadores sem quaisquer tipos de benefícios. Toda essa situação parecia impossível de piorar, até que certo dia uma invasão para lá de inusitada ocorreu e nenhum dos veteranos de combate estava pronto para contorná-la.

A migração de hordas de emus

Em outubro de 1932, os agricultores passaram a ter uma dificuldade a mais com seus cultivos ao se depararem com a chegada repentina de mais de 20.000 emus Dromaius novaehollandiae. Esses animais, que até 1922 eram protegidos por lei, migraram em massa das regiões do interior à costa após a temporada de reprodução e atacaram territórios particulares nos entornos de Chandler e Walgoolan, devorando as colheitas e os escassos suprimentos e abrindo buracos em cercas que permitiram o deslocamento de roedores.

(Fonte: 9gag / Reprodução)(Fonte: 9gag / Reprodução)

Sem acesso a munições adequadas, os veteranos se viram em um beco sem e a única solução foi solicitar uma intervenção formal a Sir George Pearce, que assegurava o cargo de Ministro da Defesa na época. De imediato, a autoridade concordou em cuidar das aves sob a condição de que apenas os militares utilizariam armas, a Austrália Ocidental seria responsabilizada pelos custos de transporte das tropas e os agricultores deveriam fornecer alimentos para o exército. E assim, o conflito mais esquisito da história australiana estava prestes a começar.

Os adversários mais temíveis já existentes

Em 2 de novembro, sob o comando do Major G. P. W. Meredith da Sétima Bateria Pesada da Artilharia Real Australiana, as tropas se deslocaram com duas metralhadoras Lewis e 10.000 cartuchos de munição. A principal missão ordenada para os militares era ajudar os fazendeiros a se livrarem de ao menos cem emus, recolhendo suas penas para a fabricação de chapéus que seriam entregues aos light horsemen.

(Fonte: Wikipedia / Reprodução)(Fonte: Wikipedia / Reprodução)

Porém, apesar de a proposta de ataque ser relativamente objetiva, os emus se provaram muito mais perspicazes e mostraram que os soldados não teriam vida mole. A primeira investida de Meredith ocorreu na pequena de região de Campion, onde foram avistadas cerca de 50 aves, todas fora do alcance das metralhadoras. O Major e seus subordinados tentaram, então, armar uma emboscada para seus rivais, mas as aves se dispersaram rapidamente.

Após poucos dias de investida e várias tentativas frustradas, os militares contabilizaram 2.500 tiros disparados e apenas 50 emus mortos. Mesmo com caminhões em movimento equipados com metralhadoras, o exército não conseguiu conter os milhares de invasores, que pareciam estar cada vez mais adaptados e organizados durante as emboscadas, e o evento acabou sendo divulgado como uma piada pela imprensa australiana, forçando os líderes a interromper a iniciativa.

(Fonte: Wikipedia / Reprodução)(Fonte: Wikipedia / Reprodução)

Segundo os veículos de notícia, "os emus provaram que não são tão estúpidos como são geralmente considerados" e são liderados por um espécime superior de "seis metros de altura", que assume os planos estratégicos enquanto "seus companheiros se ocupam com o trigo". Assim, eles se comunicariam por gestos de cabeça para tomar ações de debandada caso vissem algo suspeito e esse líder só deixaria seu posto após todos as outras aves estarem seguras.

Tudo ou nada

O fim da primeira etapa do conflito culminou com novos ataques dos emus, que continuavam se alimentando das plantações e destruindo colheitas. O Major Meredith acabou sendo reconvocado para uma segunda expedição entre 13 de novembro de 1932 e o início de dezembro do mesmo ano, mas não solucionou o problema e anunciou uma nova retirada, relatando números vexatórios de apenas cerca de 980 animais abatidos.

Em 1934, 1943 e 1948, os agricultores solicitaram novos pedidos de ajuda ao governo, mas nenhum deles voltou a ser atendido. Até 2021, as populações de emus na Austrália atingiram números entre 625 mil e 675 mil, e as cercas de proteção instaladas desde 1930 se provaram mais eficientes na defesa de fazendas que armas, junto a um programa de recompensas que entregou cerca de 57 mil prêmios em 1934.

Felizmente, a Guerra dos Emus, apesar de ter tido suas baixas, contribuiu com a adaptação da espécie no território australiano, assegurando sua proteção, o desenvolvimento e a salvação de populações selvagens.

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