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Manejo de serpentes: a perigosa prática cristã nos Apalaches

No livro In the House of the Serpent Handler: A Story of Faith and Fleeting Fame in the Age of Social Media, a autora Julia Duin, uma repórter freelancer sobre religião, visitou várias congregações Apalaches para tentar entender o que leva as pessoas ao que ela considera “a borda radical do Cristianismo, onde a vida e a morte se encontram toda vez que você entra em uma igreja e pega uma cobra venenosa”.

A prática de manejar cobras é lida como uma observância religiosa exclusivamente americana, normalmente praticada em igrejas rurais dos Apalaches que estão associadas a cristãos pentecostais ou outras denominações protestantes. No entanto, segundo Duin, são uma nova geração de pregadores que lidam com as cobras, os jovens por volta dos 20 anos.

“Sinto que esses jovens querem um sistema de crenças que exige sacrifício”, escreve a jornalista. Ela ressalta que acredita que esses membros sentem que a igreja perdeu um ensinamento importante sobre como lidar com serpentes, então eles estão dispostos a colocarem suas vidas em risco para levarem o que chamam “evangelho completo” de volta para a igreja.

Para eles, quanto mais fazerem isso, mais pessoas aceitarão Jesus.

A prática antiga

(Fonte: The Revealer/Reprodução)(Fonte: The Revealer/Reprodução)

Apesar de o manejo de cobras ser considerado uma prática cristã, o povo mesoamericano já realizava cerimônias e criava obras de arte em homenagem às serpentes emplumadas muito antes. No vodu haitiano, por exemplo, o loá Dambalá por muitas vezes era apresentado no formato de uma cobra; bem como os xamãs da tribo Yokut conduziam cerimônias em que membros coletavam cascavéis e dançavam com elas, por vezes encorajando o animal a mordê-los — se sobrevivessem, eles seriam capazes de “provar” que tinham grande poder.

O manejo de cobras foi conectado ao cristianismo protestante no início do século XX por George Went Hensley, um ministro pentecostal americano, quando ele levou uma cascavel para um culto religioso em 1909. Ele recebeu aceitação não oficial da Igreja de Deus em 1914, embora ela tenha se afastado da prática até o final da década de 1920.

George Went Hensley. (Fonte: Hayaena Gallery/Reprodução)George Went Hensley. (Fonte: Hayaena Gallery/Reprodução)

No entanto, até lá, a prática com serpentes já havia se enraizado em várias congregações da Igreja nos Apalaches e em outras partes do sul dos Estados Unidos. O manejo de serpentes foi endossado por um conjunto de versículos bíblicos interpretados de maneira literal pelos fiéis — igual acontece em outras esferas religiosas até hoje —, como em Marcos 16:17-18: “Pegarão em serpentes, e se e beberem alguma coisa mortal, não lhes fará mal; imporão as mãos sobre os enfermos, e eles ficarão curados”.

A obsessão e o perigo                

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Conforme o Mental Health, Religion & Culture, a prática de consumir veneno foi reforçada pela ideia de que era uma “ordem de Deus” — visto que estava prevista na Bíblia —, e também de que só dessa maneira uma pessoa “combateria o Diabo”.

Em 1973, o The New York Times relatou a morte de dois fiéis que beberam estricnina, e também o caso do pastor do Kentucky, Jamie Coots, que morreu após ser picado por uma cascavel e se recusar a receber tratamento médico.

Muitos enxergaram o incidente com Coots como “devoção e submissão verdadeira” à vontade de Deus, porém pessoas como Andrew Hamblin, pastor que fazia manejo de cobras em sua congregação, foram mais relutantes em aceitar as circunstâncias da morte. 

“Desde que Jamie morreu, não ofereci uma cascavel a ninguém. Eu sou o pastor e sou responsável pelo que acontece dentro do meu prédio”, afirmou ele, em entrevista ao National Geographic.

(Fonte: The Denver Post/Reprodução)(Fonte: The Denver Post/Reprodução)

Ainda que a Lei norte-americana respeite a maneira de cada um expressar a sua fé, conforme a Constituição, as autoridades ressaltam que é complicado regulamentar uma prática quando esta interfere na saúde e segurança pública.

Em novembro de 2013, segundo a ABC News, Andrew Hamblin foi acusado de posse ilegal de animais perigosos depois que oficiais estaduais de vida selvagem apreenderam cerca de 50 cobras venenosas em sua propriedade. Ele se declarou inocente e argumentou que o Estado estava violando seu direito previsto na Primeira Emenda constitucional. 

Ainda que o caso tenha sido encerrado, a questão acerca da legalidade do manejo de cobras continua em aberto.

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