O drama vivido pelas famílias que buscam comida no lixo

Nos últimos dias, cenas apavorantes ambientadas no estado do Ceará evidenciaram o desespero de famílias para conseguir comida. Nas imagens, é possível observar pessoas atacando caminhões de lixo atrás de qualquer item comestível descartado: consequência do aumento da pobreza, da alta no preço dos produtos de cesta básica e das condições precárias de vida às quais muitas pessoas são submetidas na região.

(Fonte: Jonas Rio — BBC / Reprodução)(Fonte: Jonas Rio/BBC/Reprodução)

De acordo com dados do Cadastro Único, ferramenta do governo que reúne informações de pessoas em condição de pobreza em um banco de dados, aproximadamente 33% da população brasileira encontravam-se na faixa de baixa renda e miséria até janeiro de 2021. Em nota, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que, desses grupos, mais da metade sobrevive com uma renda mensal de R$ 89, e vários são incapazes de aderir a programas sociais de amparo.

No fim de 2020, a insegurança alimentar já afetava 19 milhões de brasileiros, que passaram a viver uma situação parcialmente inédita após o surgimento da pandemia. Sem condições de sustentarem suas famílias e pagarem contas consideradas básicas para uma vida digna, muitos sofrem com o medo de perder o pouco que têm e tomam medidas desesperadas, como as vistas em imagens gravadas no bairro Cocó, em Fortaleza (CE).

"Meus pés ardem como pimenta. Os calos inflamam, eu raspo com uma lâmina e sigo a vida. Acordo às 4 horas da manhã todos os dias, pego meu carrinho de mão e venho esperar o caminhão do lixo neste mesmo ponto, perto da Comunidade dos Trilhos, onde moro. Agora, não tem mais horário certo para passar. Às vezes, passa de madrugada. Outras vezes, lá pelo meio-dia. Vivo essa incerteza. Há dias em que eu chego e já passou", comentou a lavadeira Sandra Maria de Freitas (57 anos) em entrevista à BBC.

A vida no esquecimento

As condições de abandono vivenciadas por muitas pessoas incluídas na pobreza surgem como consequência do desemprego e das dificuldades econômicas, que já atingem 14,1 milhões de brasileiros, segundo relatórios de setembro deste ano. Com auxílio insuficiente para cobrir as despesas básicas, o foco desses grupos é garantir as refeições diárias, mesmo que para isso sejam obrigados a recorrer ao que coloca sua saúde em risco.

"No dia 28 de setembro, depois de subir no caminhão do lixo para pegar umas verdurinhas e encher meu carrinho, começou a me dar uma agonia nas costas e no peito. Quase desmaiei, saí daqui de ambulância do SAMU e passei uns dias internada depois de um cateterismo. Hoje, eu me vejo tendo que comprar muitos remédios enquanto me falta o básico para comer", detalha Anice Monteiro (64 anos) à BBC.

Ações sociais de combate à pobreza

O vídeo publicado no fim de setembro estimulou instituições e pessoas físicas a lançarem trabalhos sociais com medidas que sejam eficientes no combate à pobreza, na tentativa de auxiliar e direcionar moradores de rua e outros habitantes de Fortaleza a apelar por seus direitos de acesso a políticas públicas.

(Fonte: Jonas Rio — BBC / Reprodução)(Fonte: Jonas Rio/BBC/Reprodução)

"Estamos coletando os nomes, os telefones e as qualificações dessas pessoas. Queremos realizar um cadastro para tentar auxiliá-las na busca por emprego, averiguar se elas estão vacinadas contra a covid-19 e orientá-las em relação aos órgãos de proteção social", esclareceu a voluntária Renata Euletério à BBC. "Até agora, fizemos a entrega de cestas básicas a 13 famílias, estamos lutando para entender a demanda de cada uma delas para que tenham autonomia diante de programas já existentes na cidade, como auxílios, atendimentos médicos e tantas outras esferas".

Em comunicado, a Prefeitura de Fortaleza já anunciou medidas protetivas para grupos em vulnerabilidade social e prometeu que as pessoas que coletaram comida reciclada serão acompanhadas pela Secretaria de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social, que deverá distribuir lanches e água regularmente nas comunidades.

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