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Sorveteiros vs. traficantes: a guerra que preocupou Glasgow em 1984

Na década de 1980, as ruas escocesas foram palco para um dos conflitos civis mais curiosos do século XX: facções de traficantes de drogas entraram em confronto para deter o monopólio das vans de sorvetes, consideradas um dos principais instrumentos logísticos na época. O caso, que movimentou as autoridades de Glasgow e incluiu até mesmo sorveteiros inocentes, culminou em um terrível assassinato que repercute até os dias atuais, mas sem comprovação alguma sobre o que realmente aconteceu.

(Fonte: Flickr / Reprodução) (Fonte: Flickr/Reprodução)

Os esquemas de habitação tiveram uma ascensão tremenda no início dos anos 1960 em Glasgow, na Escócia, garantindo um lar para moradores de baixa renda, porém de forma subdesenvolvida e muitas vezes sem o necessário para boas condições de vida. Logo, as pessoas que viviam nos complexos passaram a depender de entregadores de vans, que comercializavam mantimentos, produtos de higiene, jornais e outros itens em modelo de delivery.

Rapidamente, a moda dos entregadores viralizou nas ruas escocesas, e os traficantes de drogas estavam entre os primeiros que encontraram um real potencial no negócio, especialmente pela possibilidade de impulsionar a distribuição de ilícitos sem gerar desconfiança da polícia ou de órgãos de fiscalização. Para isso, eles passaram a investir no mercado de caminhões de sorvete, aliciando motoristas e vendedores móveis para que seus contrabandos fossem realizados durante o horário de expediente.

(Fonte: 9News)(Fonte: 9News)

Em poucos anos, a indústria ilegal alavancou no país e estimulou a concorrência interna entre grupos rivais, que disputavam o monopólio dos carrinhos de sorvete e chegavam a armar seus motoristas "afiliados", pois era comum encontrar vans sendo apedrejadas, destruídas ou queimadas na tentativa de defender os negócios e os interesses. Com as coisas esquentando e a força-tarefa Serious Crimes Squad cada vez mais perdida diante da grande quantidade de casos ocorridos em poucos anos, tudo indicava uma tendência natural ao descontrole. E foi exatamente o que aconteceu em 1984.

O caso da família Doyle

Em fevereiro de 1984, quando o motorista da empresa Marchetti, Andrew Doyle, de 18 anos — também conhecido como "Fat Boy" —, se recusou a ceder à intimidação de gangues que exigiam seu transporte como ferramenta de distribuição de drogas, o veículo foi alvo de tiros disparados por um agressor não identificado. Rapidamente, o jovem escocês pisou no acelerador e partiu enquanto era atacado, sem saber que estava sendo seguido e que sua família acabaria envolvida no atentado.

Às 2h da manhã de 16 de abril de 1984, a violência atingiu seu auge quando o apartamento do último andar da família Doyle pegou fogo, como resultado de uma bomba de gasolina arremessada no local. Das nove pessoas que dormiam ali, apenas três sobreviveram: Andrew, seus irmãos Daniel e Anthony, sua irmã Christine, seu sobrinho Mark — com apenas 18 meses de idade — e seu pai, James, foram declarados como vítimas fatais.

Joe Steele, julgado culpado pelo atentado aos Doyle. (Fonte: Getty Images / Reprodução)Joe Steele, julgado culpado pelo atentado aos Doyle. (Fonte: Getty Images/Reprodução)

Pressionados para resolver o caso, os detetives escolheram Joe Steele e Thomas "TC" Campbell como os responsáveis pelo crime, após descartarem outros cinco suspeitos e ouvirem as declarações do motorista William Love, que confirmou ter escutado a dupla discutindo o incêndio. E apesar de não existir qualquer evidência forense que relacionasse os dois com o caso, um mapa com um "X" na casa de Doyle encontrado na residência de Campbell foi a peça que levou à determinação de prisão perpétua de ambos.

Nos anos seguintes, Steele fez um esforço considerável para se provar inocente, realizando greves de fome, ensaiando fugas e se colando, literalmente, na grade do Palácio de Buckingham, como estratégia de liberdade de expressão. Foi então que a alteração repentina no depoimento de Love, que confirmou ter mentido anteriormente, reabriu o caso em 2001 e oficializou a liberação de Steele e Campbell.

Em 2010, foi amplamente noticiado que o executor Gary Moore havia sido o mandante do assassinato da família Doyle; em seu leito de morte, ele confessou ter sido encoberto por seu primo, Gordon Ness. Já em 2019, Steele revelou ter conhecimento sobre quem ateara fogo na madrugada de 16 de abril: o antigo chefe do crime de Glasgow, Tam McGraw, foi o responsável por ordenar o incêndio.

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