Sérgio e Baco: os santos que possivelmente eram um casal gay

O tema "homossexualidade" causa grande polêmica entre membros da igreja católica, inclusive quando declarações favoráveis à união homoafetiva são feitas por figuras simbólicas no catolicismo, como recentemente aconteceu com o Papa Francisco I. 

Entretanto, esse não é um assunto somente da atualidade. De acordo com pesquisadores, os soldados romanos Sérgio e Baco, martirizados no século IV e transformados em santos pela igreja, eram na verdade um casal gay. A história desses dois guerreiros foi resgatada por um estudo da Universidade de Yale, liderado pelo historiador John Boswell.

Origem da história

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

O enredo de que Sérgio e Baco teriam sido um casal gay é baseado principalmente em um relato grego datado do século V. Embora apresente algumas incongruências, o texto batizado de A Paixão dos Santos Sérgio e Baco foi escrito originalmente em grego e é o principal documento sobre a existência deles. 

Foi escrito pela por volta de 425 d.C., cerca de 100 anos após a morte de ambos os santos. De acordo com essa biografia, os dois eram soldados de alta patente no Império Romano de Galério Maximiano, mas acabaram martirizados durante uma viagem ao Oriente Médio entre 260 e 311 d.C.

Naquela época, o cristianismo era perseguido pelos romanos, enquanto Sério e Baco professavam a fé escondidos dos demais. Porém, eles teriam-se entregado após recusarem participar de uma oferta ao rei Júpiter, divindade das religiões pagãs. Por terem-se negado a renunciar a sua fé, os dois foram vestidos com roupas femininas e torturados. Baco morreu durante o processo, e Sérgio foi decapitado dias depois.

Análise do enredo

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Na visão de Boswell, a visão como Sérgio e Baco são descritos no texto com "unidos por um amor um ao outro" é muito semelhante à forma como faziam para descrever casais heterossexuais casados naquela época. Inclusive, eles teriam participado de um ritual antigo de "irmandade", assumindo um vínculo afetivo perante a igreja — o adelphopoiesis

Para o historiador, esse ritual transcendia a amizade e muitas vezes era tomado como forma de legitimar uma união homossexual. Algo que corroboraria essa tese é o mais antigo ícone sacro existente sobre a dupla, datado do século VII. Na imagem, podemos ver Sérgio e Baco retratados lado a lado com Cristo, em tamanho menor, no meio deles. 

Boswell explica que isso era algo comum entre casais na Roma Antiga, com a divindade assumindo o papel de "dama de honra", como se estivesse supervisionando o casamento. Isso foi o suficiente para que os dois se tornassem um símbolo entre a comunidade LGBTQI+ católica, sobretudo nos Estados Unidos, onde passaram a ser cultuados como símbolo da fé entre pessoas homoafetivas e de representatividade.

Polêmicas sobre o caso

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Se entre a comunidade LGBTQI+ a história de Sérgio e Baco é aceita como um marco histórico, o conteúdo dela gera controvérsia e está longe de ser unanimidade entre estudiosos católicos. O Martirológio Romano, usado quase como um catálogo dos santos, só dedica uma linha aos dois: "Em Betsáloe, na Augusta Eufratesia, hoje Síria, os santos Sérgio e Baco, mártires, século III ou IV."

Nesse caso, essa linha de pensamento acredita que a violência contra os cristãos deveria ser vista como o único motivo para a martirização de Sérgio e Baco — tendo nada relacionado com a homoafetividade. Além disso, alguns pesquisadores levantam a ressalva de que não havia processo de canonização para o reconhecimento de santos até 880 e que aliança de irmandade poderia ser vista apenas como um gesto entre dois amigos que queriam se considerar irmãos — sem envolver "intuitos eróticos".

De todo modo, Sérgio e Baco continuam servindo como símbolo para muitos homossexuais que desejam expressar sua fé no cristianismo e se sentem abraçados por tamanhas figuras.

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