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Será que desaprendemos a ir ao cinema?

Responda rápido: onde você mais assiste a filmes? Se você respondeu "na sala do cinema", saiba que você é uma exceção. E caso você veja seus filmes em casa, é bastante provável que você não saiba mais como desfrutar de uma experiência fílmica de verdade.

Segundo pesquisa do Instituto Gallup, os norte-americanos viram em média 1 filme no cinema em 2021 (a maioria deles foi ver Homem-Aranha). No resto do tempo, estas pessoas — e a nossa realidade não é tão diferente assim — viram filmes, mas em casa: nas suas TVs, tablets e smartphones. E esta é uma experiência completamente diferente da de se estar em uma sala fechada, sem qualquer interferência, enquanto um filme se “impõe” aos nossos olhos.

As novas formas de acessar o cinema

(Fonte: Pexels)(Fonte: Pexels)

Você pode estar pensando: mas qual a diferença entre ver um filme no celular ou numa sala de cinema? O filme não é o mesmo? Não, segundo os cinéfilos. Estar em um cinema é estar imerso nos diversos estímulos trazidos por uma película, o que inclui a qualidade de imagem e do som, o tamanho da tela, a escuridão envolvente, etc.

Mas, acima de tudo, o ambiente do cinema desencoraja que se pause o filme para fazer outras coisas. Tente lembrar como é a nossa experiência atualmente: enquanto assistimos a um filme e achamos o rosto da atriz conhecido, já pegamos o celular para acessar o Google e ver que outros filmes ela fez.

Se perdemos uma fala, voltamos a cena no botão rewind. Enquanto isso, nosso celular fica pipocando com atualizações. De vez em quando, paramos para ir ao banheiro, ou para atender o filho chorando, o cachorro latindo, dentre outras distrações.

Assistir a filmes em casa, portanto, é menos se envolver com ele e mais se envolver com outras coisas que acontecem ao mesmo tempo. Embora as plataformas de streaming não divulguem o dado de quantas vezes os filmes são pausados enquanto são rodados pelos usuários, certamente este seria um número bem alto.

Por que isto é ruim?

(Fonte: Pexels)(Fonte: Pexels)

A questão aqui vai além de escolher o suporte (TV, celular ou cinema) em que consumiremos um filme. Ela expressa a ideia de que a nossa indisposição para assistir a uma história inteira está conectada ao aumento da ansiedade que nos aflige.

Esta ansiedade pode ser observada também a partir de outro fenômeno: o das pessoas que veem filmes e séries acelerando a velocidade da película. Isto nos leva a uma perda significativa da experiência artística, pois se vemos um filme pensando no tempo que ele leva, não teremos a possibilidade de desfrutar tudo o que ele nos oferece.

Quando se acelera a narrativa, o efeito é no cérebro, conforme esclarecem os especialistas. No caso de um produto cinematográfico, perde-se a essência desta arte. "Eu sei que o homem de ferro morre, mas ver o homem de ferro morrendo é outra coisa. E a nossa sociedade está muito centrada no volume do que se consegue absorver", opinou o cineasta e professor Alexandre Rafael Garcia, em entrevista à BBC.

Se ainda assim tudo isso não parece assim tão importante, vale lembrar que esta ansiedade generalizada vai muito além do consumo do entretenimento, e se reflete em muitas áreas da vida. O neurocientista Marcelo de Meira Santos Lima explica que não há ainda muitos estudos sobre como experiências como o speed watching podem impactar o cérebro a longo prazo, mas acredita que logo saberemos mais sobre estes efeitos – especialmente sobre as sinapses.

Mas, pelo que já sabemos, dá para dizer que “desligar-se” do mundo externo para assistir a um filme pode ser um bom exercício para a mente.

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