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Queda do Arecibo é prova do descaso com infraestrutura científica

Da mesma forma que se desligam os aparelhos de um doente que é mantido vivo artificialmente, tão logo a National Science Foundation (NSF) dos Estados Unidos anunciou que fecharia o radiotelescópio de prato único de Arecibo, a gigantesca estrutura, a segunda maior do planeta, simplesmente desabou.

Era 1º de dezembro de 2020, e drones esvoaçavam nervosamente capturando os últimos momentos de uma lenda se desfazendo aos pedaços. Quem conhecia intimamente o Arecibo sabe que sua morte havia sido anunciada há muito tempo, e que a queda, cinematográfica como os filmes ali rodados, era inevitável.

Fonte: NAIC/Observatório de Arecibo/Reprodução
Plataforma científica do radiotelescópio iluminada à noite (Fonte: NAIC/Observatório de Arecibo/Reprodução)

Em um tempo em que as pessoas se limitam a ler os resumos das notícias, é mais fácil creditar o fim do Arecibo a um cabo de metal auxiliar que se partiu, no início deste ano, devido ao furacão Isaías ou dos violentos tremores de terra que sacudiram Porto Rico.

O que causou a morte do Arecibo?

A verdade é que o colapso total do Arecibo não foi causado pelos sintomas (estes foram apenas alertas), mas deveu-se a anos de dificuldades financeiras. Especialista em tecnologia e desenvolvimento de infraestruturas, a professora Raquel Velho, do Rensselaer Polytechnic Institute, em Troy nos EUA, afirma que o Arecibo é um exemplo clássico de tensão entre a manutenção de instalações e o progresso científico.

A importância e a grandeza do Arecibo acaba chamando nossa atenção para uma questão preocupante: muitos dos nossos observatórios e telescópios atuais estão envelhecendo. Será que a sociedade está disposta a gastar dinheiro com suas manutenções? Deixamos em funcionamento máximo e depois os descartamos, deixando que morram numa obsoleta “fila de espera” tecnológica?

Com o outrora imponente espelho já sendo coberto pela vegetação da floresta portorriquenha, astrônomos e pesquisadores questionam o que virá a seguir. A solução seria construir um telescópio novo e mais moderno naquele local? Ou simplesmente seguir em frente e investir em tecnologias economicamente mais leves e viáveis? Pelo que parece, nem a NSF sabe responder.

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