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Alfred Kinsey revolucionou a sociedade ao falar sobre sexo

Atenção! Se você se incomoda com temas que envolvam sexo ou violência, ou tem menos de 18 anos, é melhor parar por aqui. Caso contrário, é só prosseguir para o nosso artigo.

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Na década de 1960, em uma época em que a sociedade era permeada ainda mais por tabus, como prostituição, virgindade, pornografia, drogas, tatuagens e aborto, falar sobre sexo era considerado um dos mais complicados. Estruturalmente, os homens só traziam o assunto à tona quando estavam entre si, assim como as mulheres faziam.

A falta de informação sobre o assunto criou muitos jovens despreparados e que aprenderam de maneira intuitiva desde a masturbação até o ato sexual em si. O sexo era visto como algo infame e difamatório, que poderia destruir a imagem de uma pessoa perante a sociedade se ela não fosse um adulto (e claro, homem) e já tivesse casado.

(Fonte: Publico/Reprodução)(Fonte: Publico/Reprodução)

Então, em 1966, quando o ginecologista William H. Masters e a sexóloga Virginia E. Johnson lançaram um livro com a pesquisa que desenvolveram sobre a natureza da resposta sexual humana, e o diagnóstico e tratamento de distúrbios e disfunções sexuais, eles se tornaram best-sellers mundiais, mas também foram altamente criticados.

No entanto, a perseguição que eles sofreram em nada se compara com o que o biólogo Alfred Kinsey teve que lidar por ir ainda mais além do que o casal.

Mudando de rumos

(Fonte: Bi.org/Reprodução)(Fonte: Bi.org/Reprodução)

Apesar de ter sido criado em um ambiente altamente religioso, Alfred Charles Kinsey, nascido em 23 de junho de 1894, em Nova Jersey (EUA), se declarava ateu. Além disso, apesar da sociedade conservadora no qual estava inserido, o homem sempre tentou buscar se aprofundar em aspectos tabus que ninguém ousava tocar, e o sexo era um deles.

Quando ainda cursava o Ensino Médio na Columbia High School, Kinsey se interessou por biologia, botânica e zoologia, principalmente por influência de sua professora Natalie Roeth, indo contra a vontade de seus pais, que imaginavam para ele uma carreira na engenharia. Kinsey, então, se formou no Bowdoin College, em Brunswick, no Maine, e fez doutorado em Harvard.

Em 1926, ele publicou seu primeiro livro, intitulado Uma Introdução à Biologia, que o levou a dar aulas na Universidade de Indiana. Lá, Kinsey foi convidado para ser professor do Curso de Higiene, que abordava o ensino sexual dentro do campus em uma forma tímida de tentar educar os jovens – embora a grade curricular fosse repleta de equívocos e não possuísse direção alguma.

(Fonte: SciHi Blog/Reprodução)(Fonte: SciHi Blog/Reprodução)

O homem aceitou a oferta e usou seu conhecimento para ensinar os alunos de maneira descontraída e sincera. Kinsey era inexperiente quando conheceu sua esposa, Clara McMillen, e nunca havia namorado ou feito sexo. O casal teve muita dificuldade na cama, mas com ambos sendo cientistas, eles estudaram muito e se tornaram um para o outro uma fonte de informação sexual.

Portanto, Kinsey não deixou de usar fotos explícitas de órgãos genitais, falar sobre masturbação feminina e masculina, orgasmos, ejaculação e o sexo na prática. A abordagem dele foi ousada, porém cativou os estudantes de maneira inigualável. Por outro lado, desmitificar o sexo não agradou a todos os alunos, tampouco os pais, que acreditavam que o professor estava “incentivando os jovens a fazerem sexo”, enquanto ele só estava ensinando-os a conhecer o próprio corpo.

A cruzada

(Fonte: Grupo Raiz Digital/Reprodução)(Fonte: Grupo Raiz Digital/Reprodução)

Por causa de petições de alunos que criticavam seus métodos e pediam pelo banimento dele do campus, Kinsey teve que enfrentar uma verdadeira cruzada para conseguir lecionar. Até que, em 1938, cansado de remar contra a maré, ele decidiu criar um curso sobre casamento e família na universidade, voltado para os adultos. 

Com suas famosas palestras ilustradas sobre a biologia da estimulação sexual, a mecânica da relação sexual e as técnicas de contracepção, Kinsey também protestou contra as leis repressivas, atitudes sociais e as campanhas religiosas.

De acordo com o biógrafo James H. Jones, o homem tentou substituir as ideias convencionais do comportamento sexual "normal" por uma nova definição biológica, ressaltando que quase todas as “perversões sexuais” definidas pela sociedade se enquadram na faixa da "normalidade biológica".

Para analisar as variedades da experiência sexual humana, ele exigiu que os alunos de seu curso de casamento e família participassem de reuniões privadas no porão de sua casa para que contassem suas experiências sexuais. No primeiro ano, apenas 70 mulheres e 28 homens se inscreveram em seu curso, mas nos 2 anos seguintes já havia mais de 400 alunos disputando vagas.

Em 1941, Kinsey recebeu apoio de pesquisa do Conselho Nacional de Pesquisa e da Fundação Rockfeller, o que o permitiu expandir para outras cidades dos Estados Unidos a sua meta de colher 100 mil depoimentos sexuais através de seu questionário de 521 perguntas. Em 1947, o homem fundou o Instituto de Pesquisa Sexual da Universidade de Indiana.

As controvérsias

(Fonte: PBS/Reprodução)(Fonte: PBS/Reprodução)

Em 1948, a pesquisa de Kinsey foi finalmente publicada em um livro intitulado Comportamento Sexual do Homem, seguido pelo Comportamento Sexual da Mulher, que ficaram conhecidos como Relatórios Kinsey. Os livros foram responsáveis por elevarem o status dele de "pesquisador científico renomado" para celebridade pública, quando venderam mais de 200 mil cópias. Mais tarde, os Relatórios se tornaram percursores da revolução sexual da década de 1960 e 1970.

No entanto, os críticos e a sociedade conservadora norte-americana ficaram escandalizados com a maneira crua com que o pesquisador expôs os assuntos, portanto não demorou para que um levante se armasse contra ele. A maioria das pessoas questionava os dados apresentados no livro, como a pesquisa em que Kinsey afirmava que 90% dos cidadãos se masturbavam; 11% faziam ou praticavam sexo anal com suas parceiras; e que cerca de 37% dos entrevistados tiveram experiências homossexuais.

Só por entrevistar pessoas e expor o que descobriu em seu livro, Kinsey causou polêmica por quebrar tabus de banalidades, como o sexo antes do casamento, porém o quão longe ele foi para poder extrair os dados científicos se tornou algo contestável. “De certa forma, ele era implacável, e poderia ir tão longe a ponto de se tornar imoral, embora não convencionalmente moral”, declarou Gathorne-Hardy, o biógrafo do pesquisador, ao The New York Times. "Se alguém tivesse informações sexuais pertinentes, Kinsey usaria".

(Fonte: Extend Fertility/Reprodução)(Fonte: Extend Fertility/Reprodução)

E foi isso que ele fez quando foi atrás de pedófilos sem relatar à polícia, só para coletar informações, arriscando a segurança pública por causa de dados científicos. Em seu tópico descrevendo a relação do orgasmo com o comportamento jovem, ele descobriu através dos criminosos sexuais que uma menina de 7 anos teria tido 3 orgasmos em um período de 1 hora, enquanto um garoto de 13 anos teria tido 19 orgasmos no mesmo intervalo de tempo.

Até a sua morte, em 25 de agosto de 1956, Alfred Kinsey e sua equipe de pesquisa conduziram mais de 17 mil entrevistas com diversos tipos de grupos, desde universitários a presidiários.

Kinsey enfrentou uma sociedade inteira em uma época repressiva para que muitos tivessem a chance de serem sexualmente livres, iniciando uma caminhada para naturalizar a maneira como o tema é abordado. 

Para o campo científico, ele deixou um legado imenso para estudos sociais do comportamento sexual dos humanos, e se eternizou como uma espécie de Galileu ou Darwin de seu tempo – e foi igualmente criticado e elogiado como eles por suas abordagens –, como foi descrito em um artigo de 2003 publicado no American Journal For Public Health.

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