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J. Marion Sims: o médico que fazia experimentos em escravas

Nascido em 25 de janeiro de 1813, em Lancaster, na Carolina do Sul (EUA), James Marion Sims fez parte de um tempo em que a Medicina não precisava de estágios de aprendizado tão rigorosos como na modernidade. Depois que ele saiu do South Carolina College, onde era membro da Euphradian Society, o homem fez estágio com Dr. Churchill Jones antes de ir cursar Medicina no Medical College of Charleston (atual Medical University of South Carolina), em um curso que teve duração de apenas 3 meses.

Com a morte de dois pacientes em suas mãos, Sims resolveu recomeçar a vida se mudando de Lancaster para Montgomery, no Alabama, onde construiu sua reputação entre os fazendeiros ricos donos de plantações e escravos. O homem ergueu um hospital no coração do distrito comercial da cidade, onde os carrascos levavam os escravos para que o médico os "consertasse".

Desejo único

J Marion Sims. (Fonte: Onedio/Reprodução)J Marion Sims. (Fonte: Onedio/Reprodução)

A fístula vesicovaginal acontece quando ocorre uma comunicação anormal entre a bexiga e a vagina, levando à perda contínua de urina através do canal vaginal. No século XIX, a complicação se tornou um problema catastrófico entre as mulheres norte-americanas, visto que nenhum médico sabia como reproduzir o primeiro reparo bem-sucedido feito por Johannes Fatio na Suíça de 1675.

Além de que, naquela época, as mulheres também precisavam conviver com a problemática de que os médicos tinham pouco interesse em tratá-las, e que nenhum deles possuía treinamento ginecológico específico. Examinar e cuidar dos órgãos femininos era considerado ofensivo e desagradável. 

Contudo, Sims se demonstrou interessado desde 1845, quando foi convidado a ajudar uma escrava que havia caído de um cavalo e estava sofrendo de dores pélvicas e nas costas. Foi colocando a paciente na posição de quatro apoios e inserindo os dedos em sua vagina que o médico descobriu que ela possuía uma fístula vesicovaginal. A partir desse momento, ele começou a fazer experiências para tratar a condição.

Obras do experimento

(Fonte: Human Experiment and Ethics/Reprodução)(Fonte: Human Experiment and Ethics/Reprodução)

De acordo com a autobiografia do médico, The Story of My Life, a época mais memorável de sua vida foi poder trabalhar as escravas, que eram "essencialmente sua propriedade", pois ele poderia operá-las a qualquer momento do dia. Essas mulheres foram o único meio de estudo do homem.

Entre as únicas pacientes com fístula que foram devidamente registradas nos documentos de Sims – Lucy, Anarcha e Betsey –, a primeira a ser cortada por ele foi Lucy, na época com apenas 18 anos. A jovem, que não conseguia mais controlar a própria bexiga desde que deu à luz, ficou completamente nua sobre a maca antes de ser amarrada para a operação. Ela gritou e chorou de dor enquanto mais de 12 médicos assistiam o processo.

Em seu livro, Sims relatou que a agonia dela era extrema. Lucy ficou muito doente devido ao polêmico uso de uma esponja para drenar a urina da bexiga, o que a levou a contrair uma intoxicação sanguínea. Ela demorou cerca de 3 meses para se recuperar totalmente dos efeitos do procedimento.

(Fonte: Revista Raça Brasil/Reprodução)(Fonte: Revista Raça Brasil/Reprodução)

As mulheres negras que foram operadas durante os vários experimentos de Sims não puderam receber nenhum dos anestésicos rudimentares que existiam na época. Uma vez que não possuíam poder sobre  o próprio corpo, elas ficaram nas mãos do homem. Muitas crianças e bebês também morreram após serem submetidos a cirurgias para tratar o trismo, uma condição que consiste em uma contratura dolorosa da mandíbula e pode ser uma das consequências do tétano.

Em 1993, Durrenda Ojenunga escreveu no Journal of Medical Ethics que o “pai da ginecologia” manipulou a instituição social da escravidão para realizar experimentação humana, considerada inaceitável em qualquer padrão. Nos hospitais de escravos no sul dos Estados Unidos, Sims sustentava as "enfermarias negras", que eram espaços privados destinados à experimentação humana, onde ele realizou procedimentos invasivos tanto em homens quanto em mulheres.

O legado de sujeira

(Fonte: Semantic Scholar/Reprodução)(Fonte: Semantic Scholar/Reprodução)

Em Apartheid Médico, a autora Harriet A. Washington descreveu que cada escrava nua e não anestesiada era contida à força por outros médicos enquanto Sims cortava e suturava suas genitálias a sangue frio. Por muitas vezes, os próprios escravos eram obrigados pelos carrascos a segurarem uns aos outros durante o procedimento doloroso.

Por outro lado, o médico L. L. Wall declarou no Journal of Medical Ethics que a cirurgia de fístula não teria sido eficaz se o paciente não cooperasse. Ele apontou que a documentação remanescente da época alega que as mulheres foram treinadas para se auxiliarem durante o procedimento, sugerindo também que elas consentiram, já que estavam motivadas a terem suas fístulas reparadas. A ginecologista Caroline M. de Costa, no Medical Journal of Australia, concordou com Wall e salientou que, por mais que todo o caso possa parecer sensível demais aos olhos do século XXI, sem dúvida Sims foi motivado, pelo menos em parte, pelo desejo de melhorar a situação de seus pacientes escravizados.

(Fonte: Manhattan Times/Reprodução)(Fonte: Manhattan Times/Reprodução)

Apenas após 4 anos de experimentação que as cirurgias de fístula de Sims tiveram sucesso. Foram necessárias aproximadamente 30 operações em Anarcha, uma escrava de 17 anos, que teve um trabalho de parto muito traumático, para que o médico finalmente pudesse aperfeiçoar o seu método. A partir desse momento, ele começou a praticar a operação em mulheres brancas anestesiadas, apesar de muitas não confiarem na droga administrada para diminuir a dor.

No entanto, o uso do anestésico foi encorajado por Sims sob a alegação de que os negros não sentiam dor como os brancos. De acordo com um estudo realizado na Universidade de Virgínia e publicado em 4 de abril de 2016 na National Academy of Sciences, essa noção de que os negros não sentem tanta dor prevalece até hoje como parte do racismo estrutural.

Em abril de 2018, a estátua de J. Marion Sims, há décadas posicionada no Central Park, em frente à Academia de Medicina de Nova York, foi retirada por ordem do prefeito da cidade como parte da reparação histórica que os Estados Unidos vêm tentando fazer sobre a celebração de figuras controversas.

A remoção da estátua também representou a aceitação de como a América fracassou em reconhecer o racismo de seu passado e presente, parando de enaltecer legados como o de Sims, em que a política do opressor prevaleceu para poder fazer a humanidade caminhar, assim como aconteceu com os experimentos de sífilis de Tuskegee e o uso indiscriminado das células de Henrietta Lacks.

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