É correto chamar médicos e advogados de 'doutor'?

Durante a pandemia, uma das palavras mais faladas no país deve ter sido “doutor” (e “doutora”). Com muita gente nos hospitais, os médicos e médicas já estavam escaldados de tantos chamados e tantas queixas. Mas, é correto chamá-los assim? Afinal, segundo os dicionários, você deve chamar de “doutor” somente as pessoas que tenham concluído um doutorado, seja em qual área for.

Falando ao G1, a ginecologista e obstetra Melania Amorim confessa que, embora o termo faça parte da rotina da profissão, ela pessoalmente se incomoda quando seus pacientes, em um hospital público de Campina Grande (PB), a chamam assim. "Parece que o médico é sempre o detentor do saber, o todo poderoso, enquanto o paciente não sabe nada e vai se submeter passivamente àquelas orientações", diz ela. 

"Doutores" (Fonte: UFMG/Reprodução)

Logicamente, ela não cria nenhuma questão com as pessoas que continuam chamando-a de doutora, pois entende que isso vem "de determinada cultura, com determinados saberes populares", mas entende que vale a pena fazer uma defesa do fim do uso ao tratamento, também dispensado aos advogados, explicando o motivo, "para tentar construir uma nova cultura", diz Amorim.

A origem do termo "doutor"

Fonte: Philos-Sofia/ReproduçãoFonte: Philos-Sofia/Reprodução

Embora pareça trivial, o tema acaba despertando discussões acaloradas, com alguns especialistas afirmando que a tradição determina que tanto médicos quanto advogados devem ser mesmo chamados de doutores. Mas alertam que o uso do termo não deve ser objeto de imposição, pois não existe nada na legislação brasileira que determine que profissionais sem doutorado sejam chamados de "doutor".

O título de doutor, que vem da palavra latina "doctor" (mestre, o que ensina), foi introduzido nas primeiras universidades criadas no mundo, no fim do século XI, na Europa. Eram os doutores em Teologia ou Filosofia, que, ao receber o título, tornavam-se aptos a ensinar. 

"Retrato de Três Advogados" (Fonte: Pietro Uberti/Facebook/Reprodução)

Mais tarde, doutores surgiram em outras áreas. No Brasil, as escolas de Medicina do início do século XIX defendiam uma tese ao fim do curso e recebiam o título de doutor, tradição que se manteve através dos tempos. No caso dos advogados, um decreto assinado pelo imperador Dom Pedro I, em 1827, definiu que aqueles que concluíssem os cursos de ciências jurídicas ou sociais no Brasil seriam considerados doutores.

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