Olimpíadas: três ginastas que perderam a vida por não pararem

A ginástica artística é um esporte incrível, com movimentos praticamente impossíveis para os "meros mortais". É impressionante ver atletas superando os limites do corpo para realizar acrobacias precisas, transformando a ginástica em um dos principais eventos das Olimpíadas. Também é um esporte que pode deixar um país inteiro feliz, como Rebeca Andrade fez com o Brasil, ao conquistar uma prata inédita em Tóquio, nesta quinta-feira (29).

Porém, a beleza da ginástica pode cobrar seu preço na saúde dos atletas: a própria Rebeca Andrade precisou passar por diversas cirurgias antes da glória em Tóquio. Na última semana, o mundo todo também observou a decisão de Simone Biles de ficar de fora das finais das equipes da ginástica artística, bem como do individual geral. Considerada uma das maiores atletas de todos os tempos, ela preferiu zelar por sua saúde mental do que se forçar aos extremos da competição. 

Embora a decisão tenha sido questionada por algumas pessoas, a verdade é que várias ginastas já pagaram caro por não terem feito o mesmo que Simone Biles fez agora em Tóquio. Algumas até tentaram sinalizar que precisavam parar, mas foram pressionadas por treinadores e comissões técnicas a passar do limite e acabaram perdendo a vida. 

Simone Biles surpreender o mundo ao desistir de competições em prol de sua saúde mental (Imagem: Wikimedia Commons)Simone Biles surpreendeu o mundo ao desistir de competições em prol de sua saúde mental. (Imagem: Wikimedia Commons)

1. Elena Mukhina (União Soviética)

Até seus 15 anos, Mukhina era uma ginasta mediana, que não recebia tanta atenção dos técnicos soviéticos. Foi nessa época que a romena Nadia Comaneci surpreendeu todo o mundo com seu 10 perfeito e suas medalhas nas Olimpíadas de Montreal. Então, os soviéticos ficaram "com sangue nos olhos" para garantir o ouro na ginástica na edição seguinte, que seria realizada na sua capital, Moscou. 

Então, no Mundial de Ginástica de 1978, Elena Mukhina despontou como a nova sensação da ginástica mundial, ganhando várias notas 10 e desbancando até Comaneci. Mesmo que em baixa qualidade, o vídeo de sua performance permite ver como ela era talentosa. Assista-o a seguir.

Logo após a glória, começou o desastre na vida da jovem Mukhina, que mal tinha feito 18 anos. Durante treinamentos para um campeonato, em 1979, ela quebrou uma perna. Faltando menos de 1 ano para os Jogos de Moscou, os médicos simplesmente não esperaram que a perna de Elena se recuperasse para tirar o gesso e, então, obrigaram-na a voltar aos treinos. A jovem argumentava que mal conseguia andar, mas seu técnico a pressionava para que continuasse. 

Os médicos até chegaram a colocar o gesso novamente, mas retiraram pouco tempo depois, contra a vontade de Elena e sob pressão dos técnicos do time soviético. Para completar a receita do desastre, pouco tempo antes de sua fratura, Elena tinha iniciado os treinos de um novo salto em sua apresentação de solo: o salto Thomas, criado pelo ginasta norte-americano Kurt Thomas. O técnico dela a pressionou para que ela voltasse a praticá-lo, a tempo das Olimpíadas de Moscou. 

Para se ter ideia de como esse salto é perigoso, hoje ele é banido das competições de ginástica. Basicamente, o ginasta precisa fazer as piruetas no ar e aterrissar enquanto rola no chão, sem as mãos. Veja abaixo.

O movimento precisa ser extremamente preciso, para que o ginasta não aterrisse sobre o queixo ou o pescoço, o que pode causar uma grave fratura. Agora imagine Mukhina tentando realizar esse salto sem conseguir impulso suficiente, com uma perna fraturada.

Faltando cerca de 1 mês para os Jogos Olímpicos de 1980, Mukhina aterrissou em cima de seu queixo, enquanto tentava fazer o salto Thomas. O acidente a deixou tetraplégica pelo resto da vida, até que ela faleceu, em 2006, ainda por consequência do acidente de 1980. Ela tinha 19 anos, à época.

2. Julissa Gomez (Estados Unidos)

Não é só na União Soviética, com seu regime totalitário, que aconteceram desastres com atletas que foram obrigadas a fazer movimentos perigosos. A história de Julissa Gomez tem sido lembrada até hoje após a repercussão do caso Simone Biles. 

Julissa era de uma família pobre, que fez muitos sacrifícios para que ela pudesse treinar com o famoso técnico Béla Karolyi e evoluir na ginástica. O esforço valeu a pena: antes de completar 15 anos, a jovem já representava os Estados Unidos e era promessa de medalha nos Jogos Olímpicos de Seul 1988. 

Nesse meio-tempo, a cuidadosa família Gomez começou a observar que os "métodos" de Karolyi eram bastante abusivos, com comentários sobre o peso das atletas ou sobre o medo delas para realizar movimentos perigosos. Os Gomez decidiram levá-la para treinar com o americano Al Fong, e foi com ele como técnico que ela morreu.

Julissa era uma ginasta talentosa, mas o cavalo era o aparelho onde ela tinha menos destreza e recebia as menores notas. Al Fong começou a pressionar a jovem para que ela realizasse um movimento mais difícil, o salto Yurchenko (vídeo abaixo). Para fazê-lo, a ginasta pula de costas para o cavalo, enquanto realiza as piruetas. 

Diversas colegas e até seu ex-técnico, Karolyi, perceberam que a técnica de Julissa no Yurchenko era muito fraca, de modo que se ela continuasse praticando o salto seria um risco grande para a saúde da ginasta. Enquanto treinava para uma competição em Tóquio, Julissa foi fazer o Yurchenko — porém seu pé escapou da plataforma e ela bateu com a cabeça no cavalo, a toda velocidade. 

A jovem ficou paralisada do pescoço para baixo na mesma hora e, pouco depois, entrou em coma. Ela permaneceu em estado vegetativo nos próximos três anos até falecer em 1991. Na época do acidente, ela tinha apenas 15.

3. Christy Henrich

Para terminar, uma história que não tem a ver com acidentes, mas que também diz muito sobre o impacto das pressões na saúde mental dos atletas. Christy também era treinada por Al Fong na mesma época do acidente de Julissa e, com bons resultados, ela também era promessa de medalha para Seul em 1988. 

Tudo começou a mudar quando o técnico dela e alguns juízes começaram a pressioná-la para que ela perdesse peso — caso contrário, perderia seu lugar nas competições para meninas mais jovens e magras. Christy, então, começou a fazer dietas absurdas para emagrecer e desenvolveu um quadro de anorexia nervosa. 

Nem a equipe nem a família sabia do que se tratava, mas todos observaram que ela começou a ficar fraca demais para treinar — até que foi demitida da equipe. Quando a família de Christy descobriu o que estava acontecendo com ela, já era tarde demais: a anorexia tinha tomado conta, e a jovem continuou perdendo peso, chegando a 21 kg. Ela morreu de falência múltipla dos órgãos aos 22 anos.

O vídeo abaixo mostra uma de suas performances antes da aposentadoria precoce:

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Após a morte de Christy Henrich, outras ginastas americanas foram a público falar de problemas alimentares. As redes de TV pararam de mencionar o peso das ginastas em transmissões. Pena que uma morte precisou acontecer para isso.

E essa é a questão no caso Simone Biles: ela já errou um salto por não estar se sentindo bem. Quem sabe o que poderia acontecer caso ela continuasse insistindo em competir mesmo se sentindo mal em um esporte que exige tanto? Quem sabe, outro acidente, como os de Julissa Gomez e Elena Murkhina, ou o desenvolvimento de um transtorno mental, como o que tirou a vida de Christy Henrick, poderia ter acontecido. Que Simone Biles possa se recuperar e, se quiser, voltar a competir quando estiver melhor. 

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