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Santo Amaro: a cidade conhecida como 'Chernobyl brasileira'

A cidade de Santo Amaro, na Bahia, desenvolveu uma história triste em seu passado recente. Nas últimas 3 décadas, o município foi explorado mineralmente pela Companhia Brasileira de Chumbo (Cobrac), que despejou na atmosfera, nas águas e no solo da região aproximadamente 500 mil toneladas de escória contendo chumbo e cádmio.

Como resultado, a população foi intoxicada. Principalmente nas áreas mais periféricas da cidade, é difícil encontrar alguma pessoa que não tenha perdido amigos ou familiares vítimas de envenenamento por chumbo ou que não tenha ficado doente. Por esse motivo, Santo Amaro acabou recebendo o triste apelido de "Chernobyl brasileira". Entenda o caso.

Exploração de Santo Amaro

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Em 1960, a Cobrac (que era uma subsidiária da Penarroya Oxide S.A.) se instalou na cidade e lá ficou até 1993. Santo Amaro foi usada para o processamento de chumbo, enquanto a extração do minério aconteceu em Boquira, outro município baiano. 

O movimento dos cursos d'água contendo o material que havia sido despejado na água contaminaram os estuários do Rio Subaé, que abrange o município de Santo Amaro. Com isso, os mangues da região ficaram completamente poluídos. As ruas da cidade, que reuniam muita lama, estavam repletas de escória, e todas as áreas de pesca da população ribeirinha haviam sido afetadas.

Famílias que dependiam da pesca como uma das principais fontes de alimento passaram a ingerir peixes contaminados com metais pesados rejeitados pela mineração industrial sem ao menos perceber ou terem sido avisadas. Após 3 décadas de exposição, era claro que o estrago seria imenso.

Danos causados pelo chumbo

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o chumbo um dos metais mais perigosos para a saúde humana. Por esse motivo, uma série de estudos foi conduzida em Santo Amaro entre 1980 e 1990. O Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA) foi um dos primeiros a explorar a região.

Segundo os dados obtidos, grande parte da população foi exposta à escória e segue sendo contaminada até hoje. O Ministério Público Federal (MPF) concluiu que os detritos eram depositados a céu aberto e foram utilizados pela própria Prefeitura de Santo Amaro na pavimentação de ruas, jardins e pátios de escolas. Além disso, a população desavisada incluiu o material no reboco das casas.

Para piorar a situação, as ações eram incentivadas por funcionários da Cobrac, que doavam a escória contaminada para ser reutilizada. Em 2010, o governo do Estado da Bahia divulgou um documento afirmando que 2.570 famílias foram expostas ao chumbo na época e listou algumas medidas de prevenção para amenizar a situação. Porém, um estudo de 2019 indicou que várias ações protocolares continuavam sendo violadas.

Perigos do chumbo

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

A intoxicação por chumbo é um problema sério e global. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que 1 a cada 3 crianças no mundo têm níveis superiores a 5 microgramas por decilitro (µg/dL) desse metal no sangue — número extremamente preocupante.

Segundo relatório da Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o chumbo pode causar danos irreparáveis ao cérebro de crianças. A contaminação pelo metal é particularmente destrutiva para bebês e crianças menores de 5 anos, pois afeta o cérebro antes de ele estar plenamente desenvolvido, o que pode gerar problemas neurológicos, cognitivos e físicos para toda a vida.

Porém, isso não significa que adultos contaminados também não sofram sérios riscos de saúde. Entre os maiores problemas apresentados, estão o risco de hipertensão e danos renais. Por ser muito semelhante ao cálcio em sua composição, o chumbo "rouba" o lugar desse mineral no organismo e fica depositado nos dentes e nos ossos. Por fim, o chumbo atrapalha as sinapses das células nervosas e as mata aos poucos, causando encolhimento do cérebro.

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